Sábado, 24 de Outubro de 2026

ÚLTIMA HORA

Antiga casa do Esportivo contempla o passado com saudades da era gloriosa

O silêncio que hoje domina o histórico Estádio da Montanha, em Bento Gonçalves, preserva o eco de uma era de ouro que o tempo não apaga. Observar as arquibancadas vazias desperta no recordista de partidas pelo Esportivo, o ex-jogador Leopoldo Benatti, o “Raquete”, a profunda saudade dos dias em que a torcida clamava seu nome e o gramado sediava suas maiores glórias vestindo as cores do clube alviazul. Gramado que foi o palco inicial na carreira de Renato Portaluppi

Há lugares onde o vento parece soprar mais devagar, carregado de ecos que o tempo se recusa a apagar. O glorioso Estádio da Montanha jaz em um silêncio que corta o coração dos torcedores mais antigos. Onde antes vibravam centenas de torcedores nos jogos do campeonato gaúcho, hoje imperam a calmaria, as arquibancadas ociosas e a nostalgia de uma era de ouro que o cronômetro parou em 2004, quando o Clube Esportivo mudou-se em definitivo para o Parque Esportivo Montanha dos Vinhedos.

Foram 58 anos de sintonia perfeita entre a cidade e o clube naquele gramado. A antiga casa alviazul viu de tudo: esquadrões formidáveis que amedrontavam a dupla Gre-Nal, taças erguidas, lágrimas de frustração e, claro, o lendário “Jogo da Neve”.

Pisar naquele campo hoje traz um sentimento misto. O estádio de 1945 não está abandonado: durante a semana, ele recebe os treinos da base do Esportivo e os jogos do Farrapos Rugby nos finais de semana. Mesmo assim, ver o concreto velho e o espaço vazio traz uma grande nostalgia para quem dedicou a vida ao clube alviazul.

O recordista de jogos

Quem caminha pelo local ou resgata as memórias do antigo Estádio da Montanha sabe que certas camisas se tornam como uma segunda pele. Nenhuma delas, contudo, se ajustou tão bem a um atleta quanto ao ex-lateral e zagueiro do Esportivo Leopoldo Benatti, o “Raquete”. Conhecido no mundo da bola pelo apelido que remete à precisão de seus desarmes e apoios, Raquete é o recordista absoluto de partidas pelo clube alviazul. “Minha trajetória no Esportivo começou em 1970, lapidada nas categorias de base pelo técnico Enriqueto Tremeia. Sob o comando de Ênio Andrade, dei o salto para o time profissional, onde atuei tanto como lateral-direito quanto como quarto-zagueiro. Tive o privilégio de trabalhar com grandes nomes do futebol, como Chiquinho, Paulo Sérgio Poletto, Cláudio Duarte e Valdir Espinosa, este último, comandante daquela campanha histórica de 1979, o ano do inesquecível ‘Jogo da Neve’ que nos consagrou vice-campeões gaúchos”, relembra.

A tristeza do estádio vazio

O craque Raquete acompanhou o início da carreira de Renato Portaluppi, que mais tarde se tornou o maior jogador da história do Grêmio, jogou na Montanha ao lado de Adenor Bachi, o “Tite”, que mais tarde treinou a dupla Gre-Nal e a seleção brasileira em duas Copas do Mundo, além de ter sido campeão mundial com o Corinthians. “Olhar para a Montanha hoje é como visitar a casa de uma mãe que já partiu. Tudo aqui dentro fala, lembra os companheiros, a torcida empurrando a gente na marra. O gramado mudou de dono temporário, mas o nosso espírito ficou cravado nessas paredes. Ver a arquibancada vazia dá um aperto no coração, porque esse chão respirava a identidade de Bento Gonçalves. Sou a favor de uma revitalização e os jogos voltarem a acontecer aqui”, diz Raquete.

O inesquecível 1979

Raquete foi o pilar de sustentação de um dos capítulos mais bonitos do futebol do interior gaúcho. Em 1979, ano em que o Rio Grande do Sul chegou a registrar o histórico “Jogo da Neve” na antiga Montanha, ele era o dono da camisa 6 daquela equipe armada por Espinosa. O Esportivo desbancou o Internacional e faturou um inédito vice-campeonato gaúcho, terminando atrás apenas do Grêmio. “Ele foi meu treinador naquele ano e começamos bem a temporada, sendo campeão do interior. Era um grande treinador, uma grande pessoa”, recorda o ex-lateral, emocionado ao falar sobre o antigo mentor.

Sob o comando de Valdir Espinosa no Esportivo

Comandando o Esportivo em 1979, o técnico Valdir Espinosa ficou conhecido mundialmente por sua atuação no Grêmio, com as conquistas da Copa Libertadores da América e do Mundial de Clubes em 1983, onde o principal jogador da façanha gremista foi Renato Portaluppi, cria das categorias de base do Esportivo. “O Renato Gaúcho treinava comigo nos coletivos na Montanha, eu na equipe principal e ele nos juniores. O Valdir Espinosa era o nosso comandante. A estreia do Portaluppi na equipe profissional do Esportivo foi em 12 de agosto de 1979, no antigo Estádio Olímpico, em Porto Alegre, onde ele atuou comigo no segundo tempo daquela partida, que acabamos derrotados pelo placar de 3 a 0. Ele só jogou esta partida no profissional do Esportivo. Depois, ele e o técnico Valdir foram para o Grêmio”, revela Benatti.

O massagista Jacyr Fernandes de Aguiar defende que o estádio seja revitalizado e o Esportivo volte a jogar neste gramado

O massagista

O profissional Jacyr Fernandes de Aguiar dedicou 55 anos de sua vida ao Esportivo, clube onde ainda atua junto à equipe Master. Sua ligação com o time é diária: todas as manhãs, ele estaciona seu carro atrás de uma das goleiras do estádio para realizar suas corridas matinais. “É muito triste ver o que aconteceu aqui, onde foi palco de confrontos imponentes com a dupla Gre-Nal e teve o ‘Jogo da Neve’”, conta.
Jacyr defende a preservação do espaço: “Jamais deve ser derrubado ou transformado em outra coisa. Aqui o Esportivo deveria voltar a jogar”, finaliza.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ANUNCIE CONOSCO

Sua marca em destaque para milhares de leitores