O setor ferroviário do Rio Grande do Sul acaba de registrar um marco histórico para o protagonismo feminino. No último dia 3 de março, Adriana Munhoz tornou-se a primeira mulher aprovada como maquinista para conduzir um trem de turismo no Estado. A conquista, celebrada pela Giordani Turismo, responsável pelo Trem do Pampa, ganhou destaque especial na semana em que se celebrou o Dia Internacional da Mulher.

Como surgiu o interesse
Com uma carreira de duas décadas no setor, Adriana ressalta que a transição para a cabine de comando foi um desdobramento natural de sua paixão pela área. “O interesse surgiu naturalmente. Eu trabalho há 21 anos com turismo e, quando assumi a coordenação de operações do Trem do Pampa, o universo ferroviário ainda era uma novidade para mim. Com o tempo, fui me encantando por esse mundo, tanto pelo conhecimento da via férrea quanto pela máquina e pelas atividades ferroviárias”, menciona.
Além de coordenar as operações, a nova maquinista buscou entender os detalhes práticos que fazem a locomotiva se mover, unindo a visão gerencial à execução técnica. “Para exercer melhor a liderança da operação e compreender com mais profundidade tudo o que envolve o trem, esse interesse foi crescendo. A parte mecânica, o funcionamento da máquina e toda a dinâmica ferroviária me fascinam, e foi justamente desse universo que surgiu a vontade de me especializar também nessa área”, salienta.

Carreira
A trajetória de Adriana inclui uma imersão de dez anos na hotelaria do Nordeste brasileiro, especialmente na região de Porto de Galinhas, onde conheceu os bastidores da satisfação do cliente. “Nesse período, tive a oportunidade de passar por praticamente todos os setores que envolvem a entrega da experiência ao hóspede, o que me permitiu compreender de forma muito completa como se constrói uma vivência turística memorável para quem viaja”, frisa.
Ela também atuou estrategicamente no desenvolvimento do turismo na Serra Gaúcha, liderando projetos que hoje são referência no setor. “Com destaque para projetos ligados ao turismo pedagógico, ao agroturismo e a experiências afetivas conectadas à natureza, especialmente na região das Hortênsias. Cada uma dessas etapas foi uma grande escola. Eu aprendi muito sobre hospitalidade, gestão de equipes, desenvolvimento de produtos turísticos e, principalmente, sobre a importância de criar propostas que conectem as pessoas ao lugar”, ressalta.
Toda sua bagagem proporcionou a Adriana um olhar para o turismo como uma imersão completa, envolvendo cultura, território, comunidade e emoção. “Hoje aplico muito na condução da operação, buscando valorizar a identidade do Pampa e transformar o passeio de trem em algo que realmente marque quem passa por aqui”, destaca.

Certificação
Adriana afirma que o processo de treinamento é rigoroso e longo. “Primeiro passamos por uma formação teórica com aulas e provas de certificação em diferentes fases. Depois iniciam as práticas, que envolvem não só a condução do trem, mas também o conhecimento da via férrea, protocolos de segurança e procedimentos ferroviários, como leitura da linha e operação de AMVs”, menciona.
Após esses processos, é realizada uma prova oral e prática para validação da certificação. “Mesmo depois de aprovados, seguimos passando por auditorias operacionais mensais e por uma nova prova teórica anual, sempre com foco total na segurança do funcionamento e dos passageiros”, afirma.

Impacto emocional
A maquinista destaca que sua primeira sensação foi o impacto diante do tamanho da máquina e da responsabilidade que ela representa. “Conduzir um trem significa saber que ali estão mais de 100 pessoas, cada uma com sua história e com um propósito para estar naquele momento”, aponta.
O público que embarca no trem é diverso e movido por diferentes motivações. “Recebemos famílias que vêm celebrar, pessoas que têm fascínio pelo universo dos trens e também muitos passageiros que carregam um legado ferroviário em suas famílias. São filhos e netos de ferroviários, ou pessoas que têm uma conexão afetiva com esse mundo”, conta.
Para Adriana, o contato com histórias e sentimentos dos passageiros reforça o significado do trabalho. “Isso me fez perceber o quanto é significativo conduzir essa experiência. Para mim, é uma grande honra poder levar essas pessoas pelos trilhos, respeitando e valorizando o legado de tantos profissionais que dedicaram suas vidas à ferrovia”, menciona.

Presença feminina
A aprovação da nova maquinista representa mais do que uma conquista individual: dialoga diretamente com a trajetória histórica das mulheres na ferrovia brasileira. Em 2 de março de 1985, na inauguração do primeiro trecho do Trensurb, ligando Porto Alegre a Sapucaia do Sul, a viagem foi conduzida por Rubia de Barros (in memoriam), a primeira mulher operadora de trens do país. Esse paralelo histórico reforça a importância da representatividade feminina no setor e evidencia como a presença das mulheres nas operações ferroviárias, antes quase inédita, vem se consolidando ao longo das décadas, abrindo espaço para novas gerações e fortalecendo o pioneirismo feminino no Rio Grande do Sul e no Brasil.
Historicamente, o setor ferroviário é predominantemente masculino, especialmente nas funções operacionais, como maquinistas, operadores e trabalhadores de manutenção. Barreiras culturais, jornadas de trabalho exigentes e fatores institucionais dificultaram o acesso das mulheres a esses cargos.
Apesar disso, Adriana relata ter sido muito bem recebida. “Meus colegas foram muito generosos e me receberam de braços abertos desde o início”, recorda. Ela destaca que a curiosidade e as perguntas feitas durante o aprendizado sempre foram bem recebidas, fortalecendo seu interesse pela profissão. “Fui recebida com muita abertura e generosidade na troca de conhecimento. Eles também fazem parte desse processo”, ressalta.
O apoio dos colegas foi essencial para que se sentisse segura em apresentar à diretoria da Giordani Turismo seu interesse pela certificação de maquinista. Ela expressa gratidão a todos que contribuíram para sua trajetória, destacando que ser pioneira reflete um ambiente profissional acolhedor que abriu portas para sua conquista.

Experiência na cabine
Adriana descreve a experiência de conduzir o trem como única e significativa. “Ao mesmo tempo em que estamos operando um equipamento moderno, de tecnologia nacional, estamos circulando por uma malha ferroviária carregada de história e de significado para a região”, salienta.
Em Sant’Ana do Livramento, a ferrovia conecta o Brasil e o Uruguai, funcionando como elo entre a malha ferroviária nacional e internacional. “Cada viagem acaba sendo um encontro entre passado e presente: de um lado, a inovação e a segurança da tecnologia atual; do outro, os trilhos que fazem parte da memória de tantas famílias e da história do desenvolvimento da nossa região. Conduzir esse trem é também uma forma de honrar esse legado e ajudar a manter viva a cultura ferroviária para as novas gerações”, menciona.

Representatividade
Adriana vê sua trajetória como um reflexo de mudanças mais amplas no mercado de trabalho, mostrando que mulheres conquistam cada vez mais espaço em áreas tradicionalmente masculinas. “Tenho muita consciência de que só conseguimos chegar aqui porque muitas pioneiras vieram antes de nós, abrindo caminhos com coragem e determinação. Graças às conquistas delas, hoje conseguimos ocupar novos espaços. E, da mesma forma, acredito que as conquistas que alcançamos agora ajudam a abrir ainda mais oportunidades para as mulheres que virão depois”, frisa.
Ela acredita que sua trajetória pode inspirar outras profissionais a confiar em seu potencial e seguir seus interesses, independentemente da área. “Espero que essa experiência também inspire elas a acreditarem no seu potencial e a se sentirem encorajadas a seguir seus interesses e talentos, independentemente da área. Quando uma mulher avança, muitas outras passam a enxergar novas possibilidades, e isso fortalece toda a sociedade”, menciona.

Apoio e aprendizados
Adriana ressalta que o suporte da família e dos amigos foi fundamental durante todo o processo. “Ao mesmo tempo, também foi uma surpresa para muitas pessoas quando eu decidi seguir esse caminho, justamente por ser um universo historicamente muito masculino. Surgiram muitas perguntas e curiosidades sobre a minha decisão”, conta.
Ela sempre teve clareza sobre o que queria, algo que a fazia feliz e estava alinhado ao seu propósito de vida. “Por isso, mesmo com a surpresa de pessoas da família, amigos, colegas de trabalho e conhecidos, tudo foi conduzido de forma muito natural”, frisa.
A profissional compartilha que sua trajetória foi marcada por inúmeros aprendizados, desde a disciplina e responsabilidade exigidas pelo setor até a importância da escuta e da troca de conhecimento. “Um dos principais foi entender que a ferrovia é um universo que exige muita disciplina, responsabilidade e respeito aos processos, porque tudo está diretamente ligado à segurança”, menciona.
Segundo ela, a ferrovia mantém uma cultura sólida de transmissão de saber entre gerações. “Também aprendi muito sobre escuta, troca de conhecimento e humildade para aprender com quem tem mais experiência nesse setor. A ferrovia tem uma cultura muito forte de transmissão de conhecimento entre gerações”, destaca.
Por fim, ela ressalta: “Talvez o mais importante tenha sido perceber que, quando seguimos algo que realmente faz sentido e está alinhado ao nosso propósito, com dedicação e preparo, os caminhos se abrem naturalmente, e as conquistas passam a ser consequência desse processo.”
Andréia Zucchi, diretora Executiva da Giordani Turismo, ressalta a importância do momento não apenas para a empresa, mas para todo o setor ferroviário. “Este marco no segmento do turismo ferroviário reforça ainda mais o avanço da presença feminina em áreas historicamente ocupadas por homens”, afirma. Para ela, a conquista de Adriana Munhoz representa uma inspiração para outras mulheres, mostrando que é possível ocupar cargos de destaque e responsabilidade em setores tradicionais, muitas vezes considerados exclusivos do público masculino.