Havia tudo para dar certo. Esta geração nasceu após o grande boom tecnológico, cercada por facilidades que seus antecessores sequer ousaram imaginar. Cresceu em lares onde a máquina de lavar substituiu o tanque, o ar-condicionado suavizou o calor das noites de verão e as telas gigantes passaram a ocupar o centro da convivência familiar. Muitos foram criados com conforto, fraldas descartáveis e acesso a escolas privadas. Ainda assim, paradoxalmente, parece ser uma geração que escreve menos, enfrenta menos e resiste menos. O que deveria representar evolução, em muitos casos, transformou-se em fragilidade. Crianças e adolescentes apresentam dificuldades motoras, resultado de uma infância cada vez mais restrita aos ambientes internos e ao mundo virtual. A rua, espaço de descobertas e amadurecimento, tornou-se opção secundária. Mais preocupante ainda é a dificuldade crescente em lidar com frustrações, elemento essencial para o desenvolvimento emocional saudável. Especialistas já nomearam esse fenômeno: parentalidade permissiva ou, em alguns casos, negligente. Trata-se de um modelo que, na tentativa de proteger, acaba privando os filhos de experiências fundamentais para a construção de caráter. Ao evitar o “não”, muitos pais acreditam estar oferecendo amor, quando, na realidade, retiram dos filhos a oportunidade de aprender limites, responsabilidades e empatia. Hoje, observa-se uma infância onde tarefas domésticas são raras, presentes são concedidos sem mérito e frustrações são imediatamente anestesiadas. O resultado, infelizmente, começa a aparecer de forma alarmante. O episódio ocorrido no último mês, em Santa Catarina, escancarou essa realidade de maneira cruel. Jovens, provenientes de famílias com elevado padrão socioeconômico, protagonizaram a tortura e morte do cachorro de rua conhecido como Orelha, um animal indefeso e dócil, que fazia parte do cotidiano da comunidade local. A brutalidade do ato ultrapassa a esfera criminal e invade o campo moral e social. Não se trata apenas de um crime contra um animal, mas de um sintoma preocupante sobre a ausência de empatia e responsabilidade. A pergunta que ecoa é inevitável: quem é capaz de cometer tamanha violência contra um ser indefeso será incapaz de ultrapassar outros limites no futuro? Existe um provérbio antigo que afirma que “quem não educa seus filhos será obrigado a criar seus netos”. A frase, embora dura, carrega uma verdade inquietante. Educar não é apenas amar; é preparar para o mundo real, ensinar escolhas e, principalmente, suas consequências. É permitir que o filho caminhe até a escola, enfrente dificuldades, aprenda a esperar, a perder e a recomeçar. Muitos pais que tiveram infâncias marcadas pelo autoritarismo tentaram compensar oferecendo liberdade irrestrita. No entanto, ao saltar de um extremo para o outro, criaram um terreno igualmente perigoso. A ausência de limites não forma indivíduos livres, mas sim inseguros e despreparados para conviver em sociedade. O caso do cachorro Orelha não pode ser tratado como um fato isolado ou apenas como mais uma notícia chocante. Ele deve servir como alerta. A construção de uma sociedade mais humana começa dentro de casa, nas pequenas negativas, nas responsabilidades compartilhadas e na presença ativa dos pais. Proteger demais não fortalece. Educar exige coragem, coerência e, muitas vezes, a difícil tarefa de dizer não. Porque, no fim, o “não” de hoje pode ser o que impedirá tragédias amanhã.