O avanço do Golpe do Falso Familiar pelo WhatsApp acendeu o sinal de alerta no município. Com a atualização dos dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública, relatando o período de 1º de janeiro a 31 de outubro, Bento Gonçalves contabiliza 943 ocorrências de estelionato digital, inserida em um cenário estadual que soma 60.412 casos no Rio Grande do Sul
Um dos crimes mais comuns é o “Golpe do Falso Familiar”, o qual se baseia na abordagem de criminosos que utilizam fotos de parentes das vítimas para solicitar transferências financeiras urgentes sob a alegação de troca de número ou perda de aparelho. Em Bento Gonçalves, a proximidade comunitária e o apelo emocional têm sido os principais combustíveis para o sucesso ou a tentativa das fraudes pelos criminosos.
Costureira foi enganada
No início do ano, uma costureira de 54 anos, moradora do bairro Licorsul, perdeu R$ 3,8 mil em um golpe do Pix após criminosos se passarem por seu filho. Identificada pelas iniciais M.S.S, a vítima relatou como caiu na fraude: “Recebi a mensagem no início da tarde com a foto de perfil do meu filho mais velho. Ele dizia que o celular tinha quebrado e que precisava pagar um fornecedor da oficina com urgência para não perder o desconto de uma peça. Como ele trabalha no setor, achei normal. Não pensei duas vezes e transferi o dinheiro”. Ela só percebeu o prejuízo à noite, quando o filho chegou em casa com o telefone intacto. “Fiquei sem o valor que estava reservado para o aluguel”, lamenta.
Aposentado caiu no golpe
A ação dos criminosos também fez como vítima um aposentado de 68 anos, morador do bairro Humaitá, que acreditava estar enviando dinheiro para a matrícula da neta. Identificado pelas iniciais C.L.R, ele transferiu R$ 2.100 após cair na fraude. “Eles são muito convincentes e usam termos familiares. Se passaram pela minha neta dizendo que o aplicativo do banco dela tinha bloqueado e que ela precisava quitar a taxa da faculdade até as 16h”, relata. O idoso salienta o impacto psicológico do crime: “A gente quer ajudar a família e, no calor do momento, age pela emoção. O prejuízo financeiro dói, mas a sensação de impotência e de ter a privacidade violada é muito pior”, desabafa.
Aposentado achou estar ajudando o neto
O prejuízo também atingiu o agricultor aposentado O.T, de 73 anos. Morador do bairro São Roque, ele foi vítima do “golpe do falso parente”. “O criminoso se passou pelo meu neto que mora fora. Ele mandou mensagem dizendo que o carro quebrou na estrada a caminho de Bento Gonçalves e que o mecânico só aceitava Pix para liberar o guincho”, relata a vítima. Preocupado com a situação, o idoso transferiu R$ 4.200 após a promessa de reembolso imediato. “Fiquei nervoso com ele parado na rodovia e enviei o dinheiro. O pior é a vergonha que a gente sente depois de descobrir que caiu na conversa de um malandro”, lamenta.
Esteticista foi vítima
A correria do dia a dia e o desespero de mãe fizeram mais uma vítima. A esteticista S.R, de 41 anos, moradora do bairro Borgo, perdeu R$ 2.000 em poucos minutos ao cair na armadilha digital enquanto trabalhava. “Eu estava no meio de um atendimento quando o número me chamou com a foto da minha filha caçula. Ela dizia que tinha trocado de chip por um problema no plano e pediu o dinheiro para pagar uma fatura que vencia naquele exato minuto. Na pressa, não consegui parar para pensar e fiz o Pix na hora. Só percebi o golpe no fim do dia, quando liguei para o número antigo dela e ela me disse que nunca tinha trocado de chip”, relata a vítima.
Comerciante evitou o golpe no momento certo
Em contrapartida, o ceticismo também tem sido a principal barreira contra os prejuízos. O comerciante P.S.L, de 47 anos e morador do bairro Fenavinho, conta como escapou da armadilha: “Uma pessoa me chamou dizendo ser minha filha, usando uma foto dela com o meu neto na praia. Pediu R$ 4.500 para pagar o guincho e o conserto do carro, que teria estragado na estrada. Achei muito estranho, porque ela nunca me pede valores altos assim do nada”, conta.
Em vez de agir por impulso, ele adotou a estratégia correta: “Na mesma hora, recusei o Pix e fiz uma chamada de vídeo para o número antigo dela. Ela atendeu de pronto, estava no trabalho e não sabia de nada. Bloqueei o golpista imediatamente”, comemora.
Advogada também soube evitar o golpe
Uma estratégia semelhante salvou as finanças da advogada A.P, de 35 anos, moradora do bairro Planalto. Segundo ela, um criminoso se passou por seu irmão no WhatsApp para pedir dinheiro via Pix, alegando uma oportunidade imperdível de negócio. “O tom da escrita estava muito formal, cheio de palavras que ele não usa no dia a dia. Para testar o sujeito, perguntei o nome do cachorro que nós tínhamos na infância, quando morávamos na colônia”, conta. O teste desmascarou o fraudador: “O golpista desconversou e continuou insistindo no Pix. Percebi o golpe na hora, avisei o grupo da família e fiz cópia de tudo para registrar a ocorrência na polícia”, explica.
O que diz a polícia?
O delegado titular da 2ª Delegacia de Polícia de Bento Gonçalves, Rodrigo Morale, explica que esse é um golpe bastante comum, no qual o estelionatário utiliza a fotografia de um familiar ou amigo da vítima para se passar por essa pessoa e solicitar dinheiro. “O criminoso geralmente utiliza um número de telefone cadastrado em nome de terceiros, muitas vezes com dados falsos. Depois, faz pesquisas em redes sociais abertas, como Instagram e Facebook, para identificar familiares e amigos da pessoa que pretende enganar. A partir dessas informações, ele consegue uma fotografia de um familiar ou amigo, coloca essa imagem no perfil de um número de WhatsApp e entra em contato com a vítima, fingindo ser aquela pessoa”, disse.
Segundo o delegado Morale, durante a conversa o estelionatário inventa alguma história para justificar o contato por um número diferente. “Pode dizer que o celular estragou, que foi furtado, que precisou trocar de chip ou até mesmo que está enfrentando alguma emergência e precisa de dinheiro. A vítima, ao visualizar a fotografia de um familiar ou amigo no WhatsApp, acaba acreditando que está realmente conversando com aquela pessoa e, muitas vezes, realiza uma transferência via Pix. Somente depois percebe que foi vítima de um golpe. A principal orientação da Polícia Civil é que as pessoas nunca realizem transferências de dinheiro sem antes confirmar a identidade de quem está fazendo a solicitação”, resume.
Morale frisa que ao receber uma mensagem de um familiar pedindo dinheiro, principalmente de um número desconhecido, a orientação é entrar em contato com essa pessoa pelo número que você já conhece. “Faça uma ligação de vídeo, se possível, ou confirme pessoalmente se ela realmente está precisando de ajuda. É importante lembrar que a fotografia de uma pessoa no WhatsApp não comprova que aquele número pertence a ela”, disse.




