Para controlar o aparecimento de doenças causadas pela variação térmica, os agricultores tendem a gastar mais com tratamentos. Mas, muitos ainda aguardam o pagamento da uva entregue na safra passada
O momento é de desenvolvimento vegetativo das parreiras, e as condições climáticas dos próximos meses terão influência direta nos resultados. Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza, Cedenir Postal, o cenário exige cautela. “A expectativa é sempre das melhores. Mas esse ano temos um cenário bastante desafiador”, avalia.
Segundo o técnico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) de Bento Gonçalves, Neiton Peruffo, os parreirais apresentam boas condições de saúde, resultado dos cuidados dos produtores no controle das doenças. Porém, o excesso de chuva e os dias de frio e calor estão atrasando o crescimento das plantas.
Clima e doenças
A combinação de chuvas frequentes, solo úmido e variações térmicas cria condições favoráveis à multiplicação de fungos. O problema não está apenas no surgimento das doenças, mas também na dificuldade de realizar os tratamentos necessários. Quando chove, o produtor precisa aguardar uma janela de tempo seco para aplicar os produtos e permitir que eles façam efeito nas plantas. “Temos noites frias, noites muito frias e dias quentes. Essa variação de temperatura favorece muito o desenvolvimento de fungos no pomar”, explica Peruffo. Entre as principais preocupações nesta fase estão o míldio e as podridões, que podem comprometer a produção caso não sejam controlados.
Um produtor de Faria Lemos, que tem seis hectares de parreiras, conta que a brotação já foi aproximadamente 20% menor em comparação com a safra anterior. Além disso, o frio e a umidade durante a floração provocaram abortamento de flores, o que traz incerteza sobre o potencial produtivo. Segundo ele, ainda não é possível saber quanto esses fatores poderão influenciar o resultado final.

Peruffo orienta os produtores a acompanhar os parreirais e fazer os tratamentos nos períodos sem chuva. Nas propriedades com uvas viníferas, recomenda a poda verde, que consiste em retirar o excesso de folhas. A prática ajuda a melhorar a qualidade das uvas e facilita a aplicação dos produtos nas plantas.
O técnico também alerta para o uso exagerado de defensivos agrícolas. “O produtor tem que tomar cuidado para não utilizar produtos em excesso. Muitas vezes ele acaba gastando dinheiro e não tendo retorno em cima daquilo ali”, afirma.
Custos e pagamentos
Se, no campo, o desafio é manter a sanidade dos vinhedos, na parte financeira a preocupação está no aumento das despesas e na falta de retorno da produção anterior. O pagamento pela uva entregue na última safra ainda não foi realizado integralmente para diversos agricultores, situação que compromete o planejamento das propriedades e a capacidade de custear o novo ciclo produtivo.
Postal aponta que a dificuldade de recebimento está entre os principais problemas enfrentados atualmente pelas famílias rurais. “Os problemas encontrados no recebimento são muito grandes. E isso acaba comprometendo a saúde financeira dessas propriedades, inclusive das famílias”, relata.
A situação também é vivenciada pelo produtor de Faria Lemos, que trabalha com duas empresas compradoras. Ele conta que recebeu parte do valor referente à uva entregue a uma delas, mas ainda não recebeu nenhum pagamento da outra. A indefinição sobre os valores que serão pagos também dificulta a organização financeira para a próxima safra.
Enquanto aguardam os recursos, os agricultores precisam continuar investindo nas parreiras. O produtor afirma que os gastos já estão acima dos registrados no ciclo anterior, principalmente em razão da necessidade de intensificar os tratamentos e manter a adubação.
O aumento dos preços do diesel, dos fertilizantes e dos defensivos agrícolas também pesa no bolso dos produtores. O combustível é usado tanto nos trabalhos nas propriedades quanto no transporte da uva.
Peruffo orienta os agricultores a controlar os gastos, principalmente com os tratamentos. Segundo ele, como o produtor não define o preço que receberá pela uva, economizar nos custos de produção pode ajudar a ter um resultado melhor no fim da safra.

Comercialização
O produtor de Faria Lemos relata que o tempo de espera para entregar a uva pode prejudicar a qualidade da produção. “Ficamos lá 24 horas, 30 horas na fila e isso afeta bastante na questão final. A gente perde no grau, recebe menos e o vinho, o suco não vão ficar bons para o consumidor final”, afirma.
Para o produtor, a valorização da uva no momento da entrega é uma das medidas necessárias para melhorar as condições de trabalho e dar maior segurança financeira às famílias. A indefinição sobre o preço também é uma preocupação, especialmente diante das despesas que já precisam ser assumidas para manter os parreirais.
Postal avalia que a comercialização e o pagamento da produção precisam ser tratados como parte das condições necessárias para a continuidade da atividade. “Não pode o produtor ser o financiador das vinícolas. Cada empresa tem que achar uma forma de pagar os seus fornecedores”, defende.
Medidas de apoio
O Sindicato dos Trabalhadores Rurais busca alternativas para ajudar os produtores a receberem os valores que ainda estão pendentes com as empresas. A entidade também cobra medidas para reduzir os gastos e dar mais segurança aos agricultores.
Entre as reivindicações está a volta do auxílio do governo federal para o pagamento do seguro agrícola. Segundo Postal, os produtores estão no segundo ano sem esse apoio. O sindicato também pede o aumento do preço mínimo da uva para compensar a inflação do último ano.
Outra iniciativa é um projeto para proteger os parreirais contra o granizo, desenvolvido em parceria com as prefeituras, o Sicredi e o governo estadual. O projeto já está em andamento, mas não ficará pronto para a próxima safra. A previsão é que seja implantado nas seguintes.
O sindicato também busca aumentar a quantidade de suco de uva usada na fabricação de refrigerantes, como forma de ampliar a venda da produção.
Postal ainda defende financiamentos com juros menores para produtores e vinícolas, além de medidas para baixar os preços de máquinas e equipamentos agrícolas.




