Às margens do Rio das Antas, no distrito de Tuiuty, o Passo Velho tem parte da história do interior de Bento Gonçalves. A localidade, que hoje tem poucas famílias vivendo de forma permanente, ainda guarda lembranças de um período em que a circulação de pessoas e mercadorias movimentava a região. “Eu vim morar aqui em 1979. Gosto de ficar aqui, no meio do mato, porque não gosto muito da cidade. Aqui ninguém me incomoda e eu fico calma”, conta Neives Terezinha Marin, 71 anos, que passou a viver no Passo Velho depois de se casar com um morador da localidade.
Comunidade ligada ao rio
Entre as memórias preservadas pelos moradores está a de que a história de Bento Gonçalves teria começado no Passo Velho. Edir Antonio Torresan, que está na localidade há 33 anos, relaciona essa lembrança às famílias antigas da região e à participação delas na formação da cidade. “Na verdade, o município de Bento Gonçalves começou aqui no Passo Velho”, afirma.
Segundo Sérgio Salvadori, que viveu no local até os 18 anos, antes da existência da BR-470, o Rio das Antas tinha papel importante na ligação entre as comunidades. A travessia era feita por uma balsa utilizada por tropeiros, vendedores de animais e também por alguns caminhões e ônibus. “Na época não existia a rodovia que hoje é asfaltada, nem a ponte do Rio das Antas. O trânsito passava por Tuiuty, descia o KM2 e o Passo Velho”, recorda.
Segundo ele, a travessia fazia parte de um caminho utilizado por quem seguia em direção a Lajeadinho, Veranópolis e Nova Prata e, posteriormente, para outras regiões do Estado e também para Santa Catarina, Paraná e São Paulo.
A atividade econômica também tinha uma estrutura própria na localidade. Salvadori conta que havia uma cooperativa que reunia agricultores de diferentes comunidades e recebia a produção em troca de mantimentos e outros produtos necessários às famílias. “A cooperativa absorvia esses mantimentos, fazia a permuta. Existia um caminhão da cooperativa que trazia os produtos essenciais de Porto Alegre e fazia essa troca com os agricultores”, explica.

Madeira seguia pelo Rio das Antas
O rio também era utilizado para o transporte de madeira. Salvadori lembra que as tábuas produzidas a partir de madeiras vindas de regiões como Veranópolis e Nova Prata eram armazenadas às margens do Rio das Antas, no Passo Velho, até que as condições do rio permitissem o transporte. “Em época de seca, não tinha possibilidade de fazer, porque o rio tinha cachoeiras e não dava para levar as balsas”, relata Salvadori.
Quando o nível do rio aumentava, as tábuas eram reunidas para formar as balsas, que então eram lançadas na água e seguiam pela correnteza. “Meu pai até foi barqueiro também. Iam até Santa Tereza, depois voltavam a pé, e as balsas seguiam”, conta.
Salvadori também tem lembranças sobre ferrovia. “Quando estavam perfurando os túneis, esse túnel que vinha de São Luiz das Antas fazia um Y aqui embaixo. Então as máquinas chamavam os trens”, lembra.
Mais tarde, segundo Salvadori, o percurso também passou a ser utilizado pelo turismo. Os passageiros desembarcavam nas estações da região e, posteriormente, eram levados de ônibus de volta a Bento Gonçalves.
Mudanças na comunidade
A redução do número de moradores do Passo Velho aconteceu ao longo dos anos, à medida que os filhos das famílias foram deixando a localidade em busca de outros lugares e serviços. Salvadori lembra que as famílias eram numerosas e que as próprias casas acabavam reunindo diferentes gerações. “Naquela época, as famílias tinham dez filhos para cima. Eram construções de dois andares de madeira. Os filhos iam casando e continuavam morando ali. Daqui a pouco, a casa estava cheia de gente, com vários casais. Então, alguns iam saindo e procurando outros lugares e serviços”, relata Salvadori.
Segundo ele, parte dessas pessoas passou a viver no centro de Bento Gonçalves, onde criou os filhos, desenvolveu outras atividades e montou pequenos negócios. A saída, portanto, foi acontecendo conforme as famílias buscavam novas oportunidades.
A permanência dos jovens no campo também é uma preocupação para Torresan, produtor de cachaça, açúcar mascavo e melado. Para ele, é necessário criar condições para que as novas gerações continuem na atividade rural. “Parece que existe um incentivo para o jovem ir embora, e não para permanecer no campo ”, afirma.
Além disso, ele aponta dificuldades enfrentadas pelos agricultores para conseguir as horas-máquina destinadas às propriedades. Segundo ele, esse recurso está relacionado à compensação do ICMS repassada ao município. “Cada agricultor tem direito a um número de horas-máquina por ano, que é o estorno do ICMS, a compensação que o Estado estorna ao município. Só que é sempre uma briga para conseguir o mínimo”, relata.
A agricultura permanece entre as principais atividades econômicas do Passo Velho.
Vida comunitária perdeu força
Mesmo com a redução dos moradores permanentes, algumas famílias continuam mantendo vínculos com o Passo Velho. Salvadori cita, entre elas, os Colau e os Favaretto, além de outras famílias tradicionais.
Ele também observa que algumas construções antigas permanecem na localidade, embora parte delas esteja abandonada. Segundo o morador, algumas dessas casas ficaram desocupadas depois que famílias foram indenizadas em razão da presença das usinas da Companhia Energética Rio das Antas (Ceran) e das represas relacionadas ao consórcio. “Tem casas abandonadas. São pessoas que a Ceran indenizou por conta dessas represas”, explica.
Mesmo com a saída dessas famílias, as construções permanecem como parte da paisagem da localidade.

Estradas, água e acesso a serviços básicos estão entre os desafios de quem vive na localidade
Com poucas famílias vivendo permanentemente no Passo Velho, as necessidades apontadas pelos moradores estão principalmente relacionadas à infraestrutura. A estrada de acesso é uma das principais questões. Edir Antonio Torresan, morador da localidade há 33 anos, aponta a Pedra Lisa como o caminho mais curto entre o asfalto e o Passo Velho, com cerca de 1,5 quilômetro, mas afirma que o trecho enfrenta problemas de manutenção. “A Pedra Lisa, que é o percurso mais curto do asfalto até aqui, com 1.500 metros, é um problema sério”, afirma.
Segundo ele, a situação das vias pode variar conforme o período e as condições de conservação. Quando o trecho mais curto não está em boas condições, o deslocamento até a localidade pode ser muito maior. “Todo ano é uma complicação. É um desgaste danado pedir manutenção para a estrada toda hora. A gente fala, liga uma vez, duas, e ouve que não tem máquina ou que está quebrada”, relata.
Abastecimento de água e serviços públicos
A ausência de serviços públicos próprios também faz parte da realidade de quem vive no Passo Velho. Por ser uma localidade pequena, os moradores utilizam estruturas de outras comunidades.
Torresan, que mora no local com a mãe, explica que não há Unidade Básica de Saúde na comunidade (UBS). O atendimento mais próximo fica em Tuiuty. A mesma referência é utilizada para a educação.
Também não há transporte coletivo passando pela localidade, segundo o morador. Entre as questões de infraestrutura mencionadas estão ainda o abastecimento de água e a iluminação pública. Sobre esses serviços, Torresan explica que o abastecimento é feito pela Corsan, embora tenha um poço próprio, e elogia o atendimento da Administração Municipal em relação à iluminação pública. “Na questão da água, o abastecimento é pela Corsan, mas eu tenho poço próprio. Já na iluminação pública, o secretário está sempre pronto para atender”, relata.
Ele cita ainda dificuldades relacionadas ao serviço de energia elétrica e à necessidade de os próprios moradores realizarem a leitura do consumo. Salvadori, que viveu no Passo Velho até os 18 anos, também relata as mudanças na forma de atendimento da concessionária. “Hoje nós temos que fazer a leitura do consumo, tirar a leitura do contador. No ano passado, eles davam um dia para fazer a leitura e dois dias para nós”, conta.
Segundo Salvadori, a necessidade de utilizar recursos digitais para encaminhar a leitura pode representar uma dificuldade para agricultores que não têm familiaridade com o celular. “Outros que não sabem, que não têm, o agricultor ainda que mora por aí, não sabe manejar um celular. Como é que faz? Não dá”, afirma.

Passo Velho ainda carrega as marcas das enchentes de 2024
As enchentes de 2024 também deixaram consequências no Passo Velho e em seu entorno. Segundo Salvadori, o período foi marcado por semanas de chuva intensa, com o solo encharcado e a ocorrência de deslizamentos de grandes proporções. “Praticamente foram uns dois meses de chuva direto.”, recorda Salvadori.
Entre os episódios lembrados por ele está um grande deslizamento ocorrido na região de São Luiz das Antas. Segundo o relato, uma movimentação de terra atingiu a estrutura de um viaduto, provocando o deslocamento de uma grande quantidade de terra. A barreira avançou pela área próxima à BR-470 e seguiu em direção ao Rio das Antas.
Havia casas próximas ao local. Salvadori conta que uma delas foi atingida pelo deslizamento e que uma moradora acabou sendo levada junto com a residência. O marido dela conseguiu sobreviver, mas ela não foi localizada desde então. “Levou a mulher e a levou a casa. Foi parar numa casa do outro lado do rio. A mulher se foi também, e o marido dela ficou e conseguiu se salvar. Ela se foi embora, não acharam até hoje”, relata.
A moradora é identificada como Lourdes Helena Lazarini, de 71 anos. O episódio permanece entre as lembranças das consequências deixadas pelas chuvas na região.
Para quem vivia no Passo Velho, os impactos também chegaram à rotina das famílias. Neives Terezinha Marin, de 71 anos, mora na localidade desde 1979 e precisou deixar a casa durante as enchentes. Ela foi resgatada e encaminhada, junto com o filho, para um abrigo em Bento Gonçalves. “Eles vieram me buscar. Fui resgatada e fiquei no abrigo com meu filho”, conta Neives.

Segundo ela, a casa não sofreu grandes danos, mas as enchentes afetaram o fornecimento de energia elétrica e as condições das estradas.“Fiquei seis meses sem luz. Depois vieram colocar a luz. E fiquei sem estrada também. Caíram os bueiros, a água abriu e levou tudo”, relata.
As dificuldades de acesso permaneceram entre os problemas apontados pelos moradores após o período de chuvas. Salvadori afirma que a recuperação das vias ocorreu gradualmente.
Vida comunitária perdeu força
As antigas práticas comunitárias, segundo os entrevistados, deixaram de fazer parte da rotina com a mesma frequência. “São umas três famílias que estão atreladas aqui à sociedade ainda. Os outros foram para Bento”, afirma Salvadori.
Segundo ele, parte das propriedades que permanecem na localidade atualmente é utilizada como sítio ou casa de lazer.
Torresan também avalia que os costumes comunitários diminuíram ao longo dos anos. Ele lembra que os encontros entre vizinhos e os antigos filós já não fazem parte da rotina como antigamente, assim como as atividades no salão da comunidade. “Hoje, quase nada dessas coisas antigas existe mais. O filó, que antes fazia parte da rotina, deixou de acontecer, e o próprio salão da comunidade praticamente não funciona mais”, relata.
De acordo com ele, houve um almoço no local em 2025, mas com participação reduzida.





