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O legado de Jaime Milan na construção da vitivinicultura brasileira

Ao longo de mais de seis décadas, Jaime Milan participou da implantação de projetos que mudaram os rumos do vinho brasileiro, liderou entidades do setor e transformou a experiência acumulada em referência para as indicações geográficas no país

Poucos profissionais acompanharam de perto tantas etapas da transformação do vinho brasileiro quanto Jaime Milan. Ao longo de mais de 60 anos de atuação, participou da implantação de projetos que impulsionaram a produção nacional, colaborou na criação e no fortalecimento de entidades representativas, presidiu a União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), coordenou a retomada da Fenavinho e teve papel decisivo na consolidação da primeira Indicação Geográfica (IG) do Brasil. Mais recentemente, passou a dedicar sua experiência à implantação de novas indicações geográficas em diferentes regiões do país, tornando-se uma das principais referências brasileiras no tema.
Apesar da trajetória marcada por cargos de liderança e realizações expressivas, Milan evita assumir sozinho o protagonismo dessa história. Ao relembrar cada etapa da carreira, faz questão de dividir os méritos com colegas, pesquisadores, técnicos e instituições que ajudaram a transformar a vitivinicultura nacional. “Eu diria que fiz parte de equipes pioneiras. Todo esse desenvolvimento que conseguimos construir aconteceu com equipes. Nós fomos acumulando experiência e, depois, transmitindo esse conhecimento”, afirma.
Essa percepção acompanha toda a entrevista. Mais do que listar conquistas pessoais, Milan prefere evidenciar a força da cooperação e a importância de reunir diferentes profissionais em torno de um objetivo comum. Para ele, foi justamente esse espírito coletivo que permitiu consolidar projetos que hoje fazem parte da história do vinho brasileiro.

Início da carreira

Com uma trajetória construída entre empresas, entidades e projetos estratégicos, Milan ajudou a transformar a vitivinicultura brasileira

Muito antes de ocupar cargos de liderança ou participar de projetos que marcariam a vitivinicultura brasileira, Milan construiu sua trajetória entre as ruas de Bento Gonçalves. Filho de pais nascidos na Linha Garibaldina, cresceu inicialmente na região da Ponte Seca e, mais tarde, mudou-se com a família para o Centro da cidade, depois que o pai deixou a agricultura a fim de aprender o ofício de alfaiate.
Foi no Colégio Aparecida que realizou praticamente toda a formação escolar. Enquanto cursava o técnico em Contabilidade à noite, frequentava durante o dia a Escola de Viticultura e Enologia, onde concluiu a formação técnica em 1964.
O plano inicial era seguir carreira como engenheiro agrônomo, mas a reprovação no vestibular para Agronomia, em Porto Alegre, mudou completamente seus rumos. Pouco tempo depois, recebeu um convite do amigo Rinaldo Dal Pizzol para ingressar na Cooperativa Vinícola Aurora, oportunidade que definiria sua vida profissional. “No começo de 1965 assumi a função de auxiliar de laboratório. Fui crescendo dentro da empresa, a ponto de ficar lá até 1977”, comenta.
O que começou como um trabalho técnico rapidamente se transformou em uma trajetória de crescimento dentro da cooperativa. Ao longo de 12 anos, Milan passou pelo laboratório, produção, área comercial e administração, acumulando experiências que lhe permitiram compreender a cadeia vitivinícola de forma ampla. Paralelamente, concluiu a graduação em Economia e realizou estágios profissionais, entre eles uma passagem pela Drury’s, em Sorocaba, onde trabalhou ao lado de Mário Amato, que, mais tarde presidiria a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Berço de grandes projetos

Ao recordar os anos vividos na Cooperativa Vinícola Aurora, Milan aponta um período em que a empresa funcionou como um verdadeiro laboratório de inovação para a vitivinicultura brasileira. Antes da chegada de grandes vinícolas internacionais à Serra Gaúcha, a cooperativa já desenvolvia projetos que contribuíram para modernizar o setor e aproximar a produção nacional de padrões internacionais.
Entre essas iniciativas estavam os primeiros ensaios que dariam origem à operação da Chandon no Brasil. “Os primeiros ensaios da empresa para a elaboração de vinhos foram feitos na Aurora. Participamos junto com a equipe que implantou a vinícola”, lembra.
Outro projeto marcante foi a criação da Suvalan, empresa formada pela parceria entre Aurora, Souza Cruz e a cooperativa norte-americana Welch Foods, que abriu caminho para a exportação de suco concentrado de uva aos Estados Unidos. “Nós apresentamos o projeto para a Souza Cruz. Ela se tornou parceira, e assim surgiu a Suvalan. A partir daí, começamos a exportar suco para os Estados Unidos”, explica.
A experiência exigiu adaptação técnica e aprendizado de novos padrões de qualidade. A equipe precisou compreender métodos utilizados no mercado internacional e incorporar conhecimentos até então pouco difundidos no Brasil.

A experiência internacional

Em 1973, enquanto o segundo filho nascia no Brasil, Milan vivia uma das experiências que mais influenciariam sua carreira. Durante seis meses permaneceu na França em um estágio voltado à viticultura, convivendo com profissionais de diferentes países e percorrendo algumas das mais tradicionais regiões produtoras de vinho do mundo.
A vivência permitiu conhecer tecnologias, métodos de produção e, principalmente, o conceito das indicações geográficas, que, anos depois, ajudaria a implantar no Brasil. “Foi lá que despertou meu interesse pelas indicações geográficas. O maior exemplo está justamente nos vinhos franceses e também nos queijos. Aquilo ficou guardado comigo desde 1973”, ressalta.
Na época, Milan ainda não imaginava que aquele conhecimento se tornaria decisivo para a criação da primeira Indicação Geográfica brasileira, no Vale dos Vinhedos.

Chegada das multinacionais

Em 1977, depois de 12 anos na Aurora, Jaime Milan deixou a cooperativa para integrar a equipe responsável pela implantação da Maison Forestier, em Garibaldi, projeto da multinacional Seagram’s, então considerada a maior produtora de bebidas alcoólicas do mundo.
O período coincidia com a chegada de grandes investimentos internacionais ao Brasil, impulsionados pelo chamado “milagre econômico”. Para Milan, esse movimento representou um salto tecnológico para a vitivinicultura nacional e ampliou significativamente o mercado. “A Aurora produzia vinhos para diversas marcas. Daí nasceram diversos projetos”, lembra.
Após a experiência na Maison Forestier, participou da criação da atual Courmayeur e, anos depois, retornou à Aurora, onde permaneceu entre 1994 e 1999 atuando em novos projetos estratégicos. Foi justamente nessa fase que sua atuação passou a se voltar também para as entidades representativas e para os movimentos que ajudariam a reorganizar a vitivinicultura brasileira.

Liderança institucional

A experiência acumulada ao longo de quase três décadas em empresas do setor naturalmente levou Milan às entidades representativas da vitivinicultura brasileira. Inicialmente indicado pela Cooperativa Vinícola Aurora para representá-la na União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), assumiu posteriormente a presidência da entidade, cargo que ocupou entre 1998 e 2000.
À frente da instituição, participou de um dos movimentos considerados fundamentais para a organização do setor: a criação do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). A proposta era reunir produtores, cooperativas e empresas em torno de uma entidade capaz de representar os interesses da vitivinicultura brasileira de forma unificada. “Precisávamos de uma entidade que realmente falasse em nome de todo o setor. Existiam várias entidades, mas nenhuma representava o conjunto”, diz.

Os projetos que ampliaram a força do vinho gaúcho

Na avaliação de Milan, o Ibravin cumpriu esse papel durante muitos anos ao fortalecer a representatividade institucional da cadeia produtiva e criar as bases para o trabalho atualmente desenvolvido pelo Consevitis-RS.
Em 2000, outro desafio marcaria sua trajetória. Após seis anos sem ser realizada, a Fenavinho precisava voltar ao calendário de eventos de Bento Gonçalves.
O então prefeito de Bento Gonçalves, Darcy Pozza, encarregou o então presidente do CIC-BG, Eurico Benedetti de convidá-lo para coordenar a retomada da festa. O tempo era curto: havia apenas 67 dias para reorganizar toda a estrutura do evento. “Conseguimos colocar a Festa novamente em funcionamento em poucos dias, e em grande parte, graças ao apoio da ExpoBento”, observa.
Mais do que devolver uma festa ao calendário, Milan acredita que a retomada representava a continuidade de um patrimônio construído ao longo de décadas. “A Fenavinho foi um divisor de águas para Bento Gonçalves. Graças a ela surgiu boa parte do patrimônio que temos hoje. Sem a Festa, acredito que não teríamos esse capital tão importante”, observa.
A edição de 2000 também marcou a integração da Fenavinho à estrutura da Expobento, modelo que permanece até hoje.

Consolidação das Indicações Geográficas

Depois de encerrar seu segundo ciclo na Cooperativa Vinícola Aurora, Milan assumiu, em 2000, aquele que considera um dos maiores desafios da carreira. Passou a integrar a Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale) justamente quando a região se preparava para obter a primeira Indicação Geográfica (IG) do Brasil.
Embora o reconhecimento estivesse próximo de ser concedido, ainda era necessário transformar a certificação em uma ferramenta prática para produtores e vinícolas. Coube a Milan coordenar esse processo de implantação, estabelecendo procedimentos, orientando empresas e organizando um modelo que até então era desconhecido no país. “Era tudo novidade para nós. Precisávamos entender e fazer funcionar”, reforça.
O trabalho não apenas consolidou a Indicação de Procedência do Vale dos Vinhedos como abriu caminho para uma conquista ainda mais importante: a Denominação de Origem, certificação que elevou o reconhecimento da região e passou a servir de referência para dezenas de outros projetos brasileiros.

Compartilhando conhecimento pelo Brasil

A experiência acumulada no Vale dos Vinhedos rapidamente ultrapassou as fronteiras da Serra Gaúcha. Em poucos anos, Milan passou a percorrer praticamente todo o Brasil levando a experiência construída na região para produtores, pesquisadores e instituições interessadas em implantar suas próprias indicações geográficas.
Nesse processo, o Sebrae teve papel decisivo ao transformar o modelo desenvolvido na região em referência para diferentes cadeias produtivas. “A nossa indicação geográfica foi reconhecida em 2002. Em 2003, com apenas dois anos de experiência, eu já estava no Ceará falando sobre indicações geográficas”, acrescenta.
Desde então, demonstrou o sucesso da experiência do Vale dos Vinhedos para representantes de projetos envolvendo cafés, queijos, cachaças, erva-mate, frutas e diversos outros produtos brasileiros, tornando-se uma das principais referências nacionais no tema.
Em 2021, ajudou a criar a Associação Brasileira das Indicações Geográficas (ABRIG), da qual foi o primeiro presidente. “Hoje já existem mais de 160 indicações geográficas de diferentes produtos brasileiros. A associação vem realizando um excelente trabalho”, complementa.

O enoturismo como instrumento de desenvolvimento

A atuação de Milan também levou a experiência da Serra Gaúcha para fora do Brasil. Entre as viagens que considera mais marcantes está a realizada às Ilhas Canárias, onde apresentou o modelo de enoturismo desenvolvido na região.
Foi o primeiro brasileiro a compartilhar oficialmente essa experiência no arquipélago, iniciativa que abriu caminho para uma parceria permanente com a Universidade de La Laguna e fortaleceu o intercâmbio entre pesquisadores e instituições. “Eles têm enorme interesse pelo enoturismo, e nós já acumulamos alguma experiência nessa área.”
Para Milan, o turismo do vinho tornou-se um dos principais instrumentos de valorização das regiões produtoras, agregando valor aos produtos e fortalecendo a identidade dos territórios. Segundo ele, a Serra Gaúcha construiu uma vocação ligada ao vinho que vai além da produção, envolvendo experiências, conhecimento e aproximação com o consumidor.
Embora reconheça o prestígio conquistado pelos espumantes brasileiros, Jaime Milan evita limitar a identidade da região a um único produto. Segundo ele, as características naturais da região favorecem a produção de espumantes, mas a evolução técnica também permitiu o desenvolvimento de vinhos tintos e brancos reconhecidos pela qualidade.
Para Milan, um dos maiores desafios continua sendo aproximar o consumidor do universo do vinho, ajudando-o a compreender os fatores que determinam a qualidade de cada produto. “O consumidor precisa entender por que está pagando esses valores. Ele precisa ser orientado, participar de cursos, tomar conhecimento.”
Nesse processo, degustações, experiências de enoturismo e ações de educação do consumidor desempenham papel fundamental para valorizar o vinho brasileiro e fortalecer a relação entre produtores, regiões e consumidores.

Um legado construído em conjunto

Milan deixa claro que não enxerga sua trajetória como uma história concluída. Depois de mais de 60 anos de atuação, continua acreditando no potencial da vitivinicultura brasileira e na capacidade de o setor ampliar sua relevância dentro e fora do país.
Mais do que celebrar conquistas do passado, prefere olhar para o futuro. Para ele, ainda há espaço para crescimento, inovação e fortalecimento da cadeia produtiva. “Eu continuo acreditando cada vez mais na vitivinicultura brasileira. Ainda temos muito por fazer. E isso é bom, porque significa que ainda há muito espaço para crescer”, afirma.
A confiança também está nas pessoas que dão continuidade ao trabalho iniciado por gerações anteriores. Milan acredita que o desenvolvimento do setor depende da formação de profissionais comprometidos, da cooperação entre instituições e da disposição para compartilhar conhecimento. “Vejo muitas pessoas bem-intencionadas trabalhando pelo setor. São pessoas que procuram realizar um trabalho sério, honesto e que constroem bases sólidas para o futuro”, aponta.
Em um segmento construído ao longo de décadas, resultados duradouros não surgem de atalhos, mas de trabalho consistente, planejamento e responsabilidade. “Quem está apenas especulando ou tentando enganar as pessoas não vai longe. Aquilo que não é construído com segurança, seriedade e consistência é, como diz o ditado, um ‘voo de galinha’. Não vai muito longe”, conclui.

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