Em meio ao aumento do custo dos calçados novos e à redução da durabilidade de muitos modelos, cresce também a procura por consertos. Em Bento Gonçalves, a tradicional Sapataria Dalmolin, que atua há 41 anos, percebeu uma mudança no perfil dos clientes, que passaram a investir mais na recuperação de calçados do que na compra de pares novos.
Enquanto muitos produtos parecem ser fabricados para durar cada vez menos, a família Dalmolin dedica a vida a fazer justamente o contrário: prolongar a vida útil de sapatos, botas, bolsas e malas com seu trabalho artesanal.
De acordo com Marilene e Elaine Dalmolin, responsáveis pela sapataria, a demanda por consertos aumentou nos últimos anos em razão do cenário econômico e dos altos preços praticados no mercado. “A procura cresceu muito por causa da crise. As pessoas já não conseguem comprar calçados novos com a mesma frequência. Tem cliente que traz dez, quinze pares para arrumar”, relatam.
Casos como esse têm se tornado frequentes. As irmãs contam que muitos clientes chegam à loja depois de pesquisar os preços nas vitrines e desistir da compra de um par novo. “Uma cliente veio aqui estes dias decidida a doar uma bota que ainda estava em boas condições. Depois de ver quanto custava uma nova, voltou e disse: ‘Não vou mais doar. Fui ver quanto custa uma bota e levei um susto. Está tudo muito caro’. Fizemos a pintura completa do calçado e ele ficou impecável”, lembram.
Tradição familiar
A história da Sapataria Dalmolin começou em Muçum, onde o avô de Marilene e Elaine iniciou a atividade ainda jovem. O conhecimento foi transmitido ao filho e, posteriormente, às netas, preservando uma tradição familiar que atravessa gerações. Ao longo desse período, a empresa manteve as técnicas artesanais de reparo, ao mesmo tempo em que se adaptou às mudanças do mercado e às novas necessidades dos consumidores.

Segundo as empresárias, o avô começou a trabalhar como sapateiro por volta dos 18 anos e permaneceu acompanhando a profissão até os 101 anos de idade. “Naquela época, fazia muita coisa para cavalo, como rédeas e celas. Mas também produzia botas e chinelos”, recordam.
Depois de permanecer por 15 anos em São Valentim do Sul, a família decidiu transferir a sapataria para Bento Gonçalves em busca de novas oportunidades. A mudança marcou um novo capítulo para o negócio, que conseguiu ampliar a clientela e se consolidar no município. “Eu lembro que tinha 10 anos quando meu pai me ensinou a fazer tamancos. Aquele foi meu primeiro trabalho”, conta Marilene.
Mudanças ao longo dos anos
Para Marilene e Elaine, as transformações não ocorreram apenas no mercado. O comportamento dos consumidores também mudou. Elas afirmam que o relacionamento com parte da clientela se tornou mais desafiador e que situações como atrasos na retirada dos calçados ou até o abandono dos produtos na sapataria passaram a ser mais comuns. “Tem clientes que trazem os calçados e depois vêm buscar. Às vezes atrasamos porque o volume de serviço é grande. Mas também tem gente que deixa os sapatos aqui e nunca mais volta. E o respeito não é mais o mesmo. Algumas são mais grosseiras, chegam a ofender. Está difícil lidar com o povo”, relatam.
Outra mudança percebida por elas está na qualidade dos calçados. Conforme explicam, antigamente os produtos eram fabricados para durar mais, o que tornava os reparos ainda mais eficientes.
Como exemplo, lembram de uma bota confeccionada pelo pai, que trabalhou durante anos produzindo botas de gaúcho e faleceu há cerca de dez anos. “Esses dias chegou uma bota que ele tinha feito há uns 20 anos. Nem nós conseguimos retirar a sola. Era um calçado muito resistente. Hoje os materiais já não têm a mesma qualidade e até a cola apresenta menor resistência”, comentam.
Essa realidade também afeta o trabalho da sapataria. As empresárias relatam dificuldades para encontrar materiais com a mesma durabilidade dos utilizados antigamente. “A gente procurou bastante, mas está tudo muito parecido”, afirmam.
Serviços mais procurados
Entre os serviços mais solicitados estão a troca de tacos, pinturas de calçados, substituição de meias-solas e reparos em botas femininas.
Além dos consertos de calçados, a sapataria também realiza manutenção em mochilas, bolsas de entrega (bags) e malas. O serviço é executado por Douglas Dutra, sobrinho de Marilene e Elaine, que integra a equipe da empresa.
As irmãs também observam um aumento na procura por consertos em calçados produzidos com materiais sintéticos. No entanto, explicam que muitos desses casos não têm solução. “Muita gente compra calçados mais baratos e, depois de 15 dias ou um mês, eles começam a descascar. As pessoas trazem para consertar, mas, quando o material é sintético e não couro legítimo, não há como recuperar. Não é um problema que o conserto resolva”, explicam.
A clientela não se restringe a Bento Gonçalves. Há consumidores de Pinto Bandeira, Garibaldi, Monte Belo do Sul e Carlos Barbosa que procuram a sapataria em busca dos serviços.
Todo o trabalho continua sendo realizado manualmente, com o auxílio de ferramentas como parafusadeira, martelo, alicate, vazadores, chave de fenda, faca, tesoura, linha, máquina, lixadeira e prensa. “Dói as mãos. É cansativo. Não é fácil”, resumem.
Elas afirmam que a demanda está tão elevada que a sapataria já trabalha com prazo de aproximadamente um mês para receber novos consertos.
Futuro da profissão
Marilene e Elaine também demonstram preocupação com a falta de interesse das novas gerações em aprender o ofício, realidade que, na avaliação delas, coloca em risco a continuidade da profissão.
As empresárias contam que a possibilidade de oferecer um curso de formação chegou a ser discutida, mas acreditam que seria difícil atrair interessados. “Um dia, um pessoal do Senai comentou que seria interessante oferecer um curso. Eu respondi: ‘Mas quem é que vai querer aprender isso aqui?’. É uma profissão difícil, mas que dá para viver. Tudo o que conquistamos foi com a sapataria”, relatam.
Sem sucessores interessados em aprender o ofício, elas temem que uma tradição familiar construída ao longo de décadas possa desaparecer nas próximas gerações.





