Segunda-feira, 13 de Julho de 2026

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Linha Buratti: entre o progresso viário e a identidade rural

Entre vales, morros e áreas de cultivo, a Linha Buratti preserva características de uma comunidade rural marcada pela relação entre as famílias e a terra. Localizada entre Bento Gonçalves e Pinto Bandeira, a região reúne propriedades agrícolas, paisagens de vinhedos e moradores que, além de acompanharem as transformações dos últimos anos, mantêm iniciativas coletivas para enfrentar desafios do dia a dia, como a destinação dos resíduos.

A moradora da região, Érica Bellé, ressalta o trabalho dos agricultores ao longo das últimas décadas. “Os produtores rurais construíram essa história com muito trabalho e dedicação. A produção de uvas e de alimentos permitiu que muitas famílias permanecessem na terra e conquistassem melhores condições de vida. Além disso, a parceria com a Cooperativa Aurora também tem sido importante nesse crescimento, já que muitos produtores entregam sua produção e têm evoluído junto com a cooperativa”, afirma.

Além da agricultura, o envolvimento entre os moradores também contribui para manter os laços de convivência da localidade. Segundo Érica, a união entre as famílias permanece como uma das características mais marcantes da região. “A comunidade do Divino Espírito Santo é muito participativa nas festas e atividades realizadas ao longo do ano. Por ser uma localidade do interior, com uma forte tradição católica, as pessoas mantêm esse envolvimento e fazem questão de estar presentes”, relata.

Asfalto atende reivindicação histórica

Uma das mudanças mais significativas para os moradores foi a conclusão da pavimentação, entregue no dia 20 de junho. A obra contemplou serviços de detonação de rochas, implantação de drenagem, pavimentação asfáltica em um trecho de 1,74 quilômetro e sinalização viária.

A melhoria era aguardada há anos, especialmente em um trecho considerado crítico devido à inclinação acentuada.

Morador da localidade e ex-presidente da Cooperativa Vinícola Aurora, Renê Tonello afirma que a obra representa uma transformação importante para a mobilidade local. “Naquele trecho havia uma dificuldade muito grande de manutenção por causa das chuvas e dos morros. Para nós muda bastante, principalmente no transporte. O caminhão sofre menos desgaste, os pneus duram mais e o deslocamento ficou muito mais rápido”, explica.

O produtor cita como exemplo a redução do tempo de viagem até a área urbana. “Nesta manhã, saí daqui faltando cinco minutos para as nove e precisava estar na cidade às 9h15min. Cheguei às 9h10min. Antes, em muitos casos, era preciso praticamente meia hora para fazer o mesmo percurso”, relata.

Antes da pavimentação, a circulação de caminhões durante o período da safra exigia acordos entre os produtores devido à largura reduzida da estrada. “Quando dois caminhões se encontravam, o carregado ficava do lado do barranco e o vazio passava pelo lado de baixo. Era uma forma de reduzir os riscos. Agora a realidade mudou bastante”, afirma.

Para o agricultor Márcio Tonello, a obra representa um divisor de águas. “Se tem uma coisa que o agricultor precisa é uma estrada boa. Nosso sustento depende disso. A gente sofreu a vida inteira com estrada ruim, com dificuldade de acesso e problemas para transportar a safra. Foi um passo muito importante para o crescimento local”, avalia.

Alguns serviços ainda limitam a rotina

Outro ponto mencionado pelos entrevistados diz respeito à infraestrutura de energia elétrica e comunicação.
De acordo com Renê, melhorias vêm sendo realizadas na rede elétrica após os eventos climáticos de 2024, incluindo a instalação de rede trifásica em alguns trechos da localidade. “Já está chegando, mas ainda não atende todos. Para quem utiliza motores e equipamentos mais potentes, isso faz diferença”, afirma.

Em relação à internet, os moradores apontam que o acesso foi viabilizado pela própria comunidade. “Nós nos unimos e puxamos a fibra óptica por conta. Hoje praticamente todas as famílias têm acesso”, explica Renê.

Apesar da presença da internet fixa, a falta de sinal de telefonia móvel continua sendo uma das principais reclamações dos moradores. Segundo Érica, a dificuldade interfere não apenas na comunicação do dia a dia, mas também na sensação de segurança de quem vive na localidade. “O que mais sentimos falta é de ter essa comunicação disponível quando precisamos. Muitas vezes estamos na propriedade, no caminho para a cidade ou em algum outro ponto da localidade e não conseguimos fazer uma ligação ou buscar ajuda rapidamente”, relata.

Ela explica que a situação se torna ainda mais delicada quando ocorre algum problema com outros serviços de comunicação. “Quando falta energia ou a internet apresenta algum problema, ficamos sem uma alternativa. Em uma situação de emergência, essa falta de sinal acaba trazendo uma preocupação maior para quem mora no interior”, afirma.

Márcio compartilha a mesma percepção. “ Hoje a internet ajuda bastante, mas quando ela falha a comunicação fica comprometida”, observa.

Coleta de lixo faz parte da rotina

Embora a localidade não conte com serviço de recolhimento domiciliar de resíduos, os moradores afirmam que desenvolveram formas próprias de organização para dar destino ao lixo produzido nas propriedades.
Renê explica que o material orgânico costuma ser reaproveitado nas próprias áreas de cultivo, enquanto os resíduos recicláveis são armazenados e levados periodicamente até os contêineres instalados na área urbana de Bento Gonçalves. “Não temos coleta de lixo aqui. O orgânico a gente aproveita na propriedade, e o reciclável nós guardamos e levamos para os contêineres da cidade. Ninguém joga lixo na natureza. Todo mundo se organiza dessa forma”, afirma.

Além dos resíduos domésticos, os agricultores também seguem procedimentos específicos para o descarte de embalagens de defensivos agrícolas. “As embalagens vazias são armazenadas em local adequado e devolvidas durante as campanhas de recolhimento, como determina a legislação. Os vidros também são levados para os pontos de coleta da cooperativa”, explica.

Para o produtor, como praticamente todas as famílias da Linha Buratti são cooperadas da Cooperativa Vinícola Aurora, a própria estrutura da cooperativa auxilia no encaminhamento correto de alguns materiais recicláveis.
Apesar da adaptação, Renê acredita que a instalação de um ponto de coleta mais próximo facilitaria o descarte durante eventos comunitários e reduziria os deslocamentos até a cidade. “Seria interessante ter um próximo, principalmente porque agora o acesso melhorou com o asfalto. Quando fazemos festas ou algum evento, acaba sendo uma facilidade a mais”, observa.

Desafios ambientais e marcas das enchentes permanecem na Linha Buratti

O esgoto da cidade foi canalizado para o riacho sem tratamento (Foto: Jornal Semanário)

Se por um lado os moradores da Linha Buratti reconhecem os avanços conquistados nos últimos anos, por outro apontam a situação do Rio Buratti como uma das maiores preocupações.

Segundo Renê Tonello, morador e produtor, grande parte do esgoto gerado na área urbana de Bento Gonçalves deságua na bacia que corta a localidade, comprometendo a qualidade da água e alterando uma realidade que, segundo ele, era bastante diferente décadas atrás. “Há muitos anos, era um espetáculo. Quando eu era criança, nós pescávamos ali, sempre tinha peixe. Faz muito tempo que ninguém mais entra naquela água porque ela está totalmente poluída”, lamenta.

O produtor explica que, durante os períodos de estiagem, o problema se torna ainda mais evidente. “No verão, quando passam muitos dias sem chuva, o esgoto desce praticamente in natura. É uma situação bastante complicada. Além disso, algumas vezes aparece um lodo que ninguém sabe exatamente de onde vem. Já fizemos denúncias e até enviamos água para análise, mas nunca tivemos uma resposta”, relata.

Além dos impactos ambientais, Renê chama atenção para os prejuízos causados ao potencial turístico da região. “Como vamos incentivar o turismo se o esgoto passa bem no meio da comunidade? Em determinadas épocas do ano é possível sentir o cheiro de esgoto na estrada”, afirma.

A engenheira ambiental e moradora da Linha Buratti, Érica Bellé, acompanha as discussões sobre a qualidade da água. “O nosso rio tem muito potencial e buscamos preservar esse espaço. Queremos um rio com menos poluição e com melhores condições para as próximas gerações”, aponta.

Ela lembra que o tema já foi levado ao Ministério Público e acompanha iniciativas voltadas ao tratamento do esgoto, mas prefere aguardar o avanço dos projetos antes de fazer avaliações.

Água preocupa moradores

A localidade é atendida por um poço artesiano comunitário que, atualmente, permanece sob administração do poder público. No entanto, devido a questões relacionadas à legislação, a expectativa é que a gestão passe para uma associação formada pelos próprios moradores, que deverá assumir a responsabilidade pelo sistema.

Segundo Renê, o abastecimento voltou à normalidade após os danos provocados pelos deslizamentos registrados em 2024, mas a futura transferência da gestão gera preocupação. “Essa é uma questão que preocupa porque envolve manutenção constante. Aqui é uma região bastante acidentada e seguidamente acontecem rompimentos de canos, problemas com bombas e outros reparos. Quem assumir terá uma responsabilidade muito grande, porque não se pode deixar as famílias sem água”, afirma.

Muitas residências dependem exclusivamente do sistema comunitário. “Antigamente a maioria das famílias tinha acesso direto às vertentes. Hoje muitas dependem 100% do poço artesiano. Por isso é um serviço que exige atenção permanente”, explica.

Márcio também cita a reorganização da gestão como um dos temas que vêm sendo discutidos pelos moradores. “É um assunto que está sendo tratado. Existe uma conversa entre comunidade e prefeituras para organizar uma associação e tornar esse sistema autossustentável”, relata.

Marcas do desastre climático permanecem

Mais de dois anos após os fortes eventos climáticos que atingiram diversas regiões da Serra Gaúcha, os moradores da Linha Buratti afirmam que ainda convivem com reflexos do desastre.

Renê conta que a propriedade sofreu danos provocados por deslizamentos de terra, exigindo a reconstrução de parte dos vinhedos. “Tivemos um deslizamento que atingiu uma área dos parreirais e foi preciso refazer tudo. O plantio foi refeito no ano passado e essas plantas ainda não começaram a produzir. Temos vizinhos que vão levar mais alguns anos até conseguirem voltar à produção normal”, relata.

Segundo ele, algumas consequências permanecem visíveis na paisagem. “Ainda existem rachaduras em alguns terrenos e dificuldades em alguns acessos por causa dos deslizamentos. Aos poucos tudo vai sendo recuperado, mas é um processo demorado”, explica.

O produtor lembra que os moradores permaneceram isolados durante vários dias. “Ficamos presos aqui durante vários dias. Depois do resgate, permanecemos cerca de um mês fora de casa. Ficamos sem energia, sem estradas e com problemas no abastecimento de água. Hoje já recuperamos boa parte da estrutura, mas o psicológico ainda leva mais tempo”, afirma.

A lembrança também permanece presente para Érica. Durante o resgate da família, sua avó passou mal e faleceu, deixando uma marca profunda para os familiares. “2024 foi um ano muito difícil para todos nós. É uma situação que a gente não esquece, porque deixou marcas na família e cicatrizes que permanecem até hoje”, relata.
Segundo ela, a tragédia passou a influenciar até mesmo decisões relacionadas ao futuro da propriedade. “Quando pensamos em investir ou construir alguma coisa, sempre vem aquele receio: será que vale a pena? Será que pode acontecer de novo? Esse medo ainda existe”, afirma.

Márcio Tonello também considera que os danos emocionais superaram os prejuízos financeiros. “Na minha propriedade tivemos um investimento de mais de R$ 100 mil para recuperar os estragos. Mas, para mim, o maior prejuízo foi o psicológico. Quando começa a chover forte, a preocupação volta imediatamente”, relata.

Beleza natural impulsiona debate sobre futuro turístico

As características da Linha Buratti fazem com que muitos enxerguem potencial para o desenvolvimento do turismo rural.

Para Renê, a região possui atributos suficientes para atrair visitantes, embora ainda falte estrutura para receber turistas. “O potencial existe. Muitas pessoas passam por aqui nos fins de semana para conhecer a paisagem e fazer passeios. Mas ainda não temos pousadas, restaurantes ou uma estrutura preparada para receber visitantes. Hoje é um turismo de passagem”, afirma.

Ele acredita que, no futuro, o turismo poderá representar uma fonte complementar de renda para os produtores. “Se for desenvolvido de forma planejada, respeitando a comunidade, pode ser mais uma oportunidade para as famílias da região”, observa.

Érica também considera que a paisagem é um dos principais patrimônios da Linha Buratti. “A nossa propriedade é muito bonita. Cada estação do ano transforma a paisagem. Agora, por exemplo, as videiras estão sem folhas e criam um cenário completamente diferente. Existe muito potencial para um turismo ligado à experiência das famílias e à vida no campo”, afirma.

Segundo ela, a pavimentação representa um passo importante para esse processo. “O turista não está acostumado com estradas de chão, principalmente quem vem de grandes cidades. O asfalto era um dos primeiros passos para começar a pensar em turismo aqui”, reforça.

Já Márcio apresenta uma visão mais cautelosa. Formado em Turismo, ele reconhece o potencial da região, mas alerta para a necessidade de preservar a identidade local. “O Buratti tem capacidade turística de sobra, talvez até maior que outras regiões. Mas eu tenho um pouco de receio porque moro aqui e sei como funciona. O turismo movimenta a economia, mas também modifica o cotidiano das pessoas”, pondera.

Segundo ele, é preciso encontrar um equilíbrio. “Tenho medo da descaracterização do meio rural. Com o asfalto, naturalmente aumenta o interesse pela região e pode surgir uma especulação imobiliária. É importante que esse crescimento aconteça sem perder aquilo que faz do Buratti um lugar especial”, afirma.

O interior como escolha de vida e negócio

Rene Tonello valoriza a qualidade de vida no interior e a autonomia da vida no interior (Foto: Jornal Semanário)

Após décadas vivendo na Linha Buratti e também a partir de experiências fora da comunidade, o ex-presidente da Cooperativa Vinícola Aurora, Renê Tonello, afirma que passou a reconhecer ainda mais o valor da vida no interior. Para o agricultor, a rotina proporciona uma liberdade que, segundo ele, é difícil de encontrar nos centros urbanos. Morar na cidade e retornar ao interior permitiu compreender de forma mais clara as diferenças entre os dois estilos de vida. “Conhecendo os dois lados, eu diria que são realidades totalmente diferentes. Na cidade tudo depende de horário: trabalho, consultas, compromissos. Aqui nós temos liberdade para organizar o nosso dia conforme a necessidade”, afirma.

Essa autonomia, explica Renê, permite adequar o ritmo de trabalho às condições do clima, às demandas da propriedade e aos compromissos pessoais. “Se faz frio pela manhã, a gente pode começar um pouco mais tarde. Se falta pouco para terminar um serviço, continua mais algum tempo e depois fica livre. Existe essa flexibilidade que a cidade não oferece”, relata.

Ao mesmo tempo, ele ressalta que a atividade agrícola exige planejamento constante. “São meses bastante corridos. A gente trabalha praticamente todos os dias porque depende da natureza. Mas, mesmo assim, conseguimos organizar os horários. Se preciso ir ao médico ou resolver alguma coisa na cidade, programo o manejo da propriedade antes. Essa liberdade faz muita diferença”, explica.

Outro aspecto apontado pelo agricultor é a possibilidade de produzir boa parte dos alimentos consumidos pela própria família. “Aqui conseguimos plantar frutas, verduras e outros alimentos. Sabemos exatamente como eles foram produzidos, respeitando todos os cuidados necessários. Algumas coisas ainda conseguimos produzir de forma orgânica”, afirma.

Além da alimentação, ele acredita que o contato diário com a natureza contribui diretamente para a qualidade de vida. “O ar puro, a tranquilidade e o ambiente fazem diferença. Eu já conheci outros países e lugares muito bonitos, mas para morar eu continuo escolhendo aqui”, resume.

Agricultura exige gestão e adaptação constante

Renê observa que administrar uma propriedade rural exige planejamento semelhante ao de qualquer empresa. Para ele, a agricultura moderna vai muito além do trabalho manual e envolve decisões financeiras, planejamento e gerenciamento diário. “Hoje a propriedade rural é uma microempresa. Nós somos funcionários, administradores, compradores e vendedores ao mesmo tempo. Precisamos cuidar das entradas e das saídas e ainda trabalhar com uma empresa que está totalmente exposta ao clima”, explica.

O produtor lembra que fatores como excesso ou falta de chuva, granizo e deslizamentos podem comprometer anos de investimento. “A nossa empresa é a céu aberto. Dependemos da natureza e nem todos os anos conseguimos uma safra cheia. Faz parte da atividade conviver com esses altos e baixos”, afirma.

Nesse contexto, ele reforça a importância do seguro. “Hoje trabalhamos com mais tranquilidade porque existe o seguro. Ele não cobre tudo, mas oferece uma segurança para recomeçar quando acontece um desastre”, observa.
As características naturais da região também influenciam diretamente o tipo de cultivo desenvolvido na Linha Buratti. De acordo com Renê, a umidade e a localização em vale favorecem principalmente a produção de uvas destinadas à elaboração de sucos. “Aqui produzimos muito bem variedades como Bordô e Isabel, além de algumas uvas brancas. Já as viníferas encontram mais dificuldade justamente por causa da umidade”, explica.

Jovens encontram novas oportunidades para permanecer

Assim como em outras localidades do interior, a sucessão familiar também faz parte das discussões na Linha Buratti. Embora alguns jovens optem por seguir carreira em áreas urbanas, os moradores observam um movimento de retorno ao campo.

Para Renê, esse cenário é diferente daquele vivido há cerca de duas décadas, quando dificuldades enfrentadas pelo setor agrícola estimularam a saída de muitas famílias do interior. Segundo ele, uma das iniciativas que contribuíram para mudar essa realidade foi a criação do Programa Aprendiz Cooperativo do Campo, desenvolvido pela Cooperativa Vinícola Aurora para incentivar a formação de sucessores nas propriedades rurais. “O jovem estuda pela manhã e participa do programa à tarde. Durante quinze dias ele permanece na cooperativa e, nos outros quinze, aplica esse conhecimento na propriedade da família. Isso ajudou bastante na permanência dos jovens no interior”, explica.

Renê aponta que diversos moradores retornaram às propriedades após concluírem a formação universitária. “Aqui temos jovens que estudaram Agronomia, Enologia, Viticultura, trabalharam em empresas e depois decidiram voltar. Eles perceberam que a propriedade rural não é apenas um lugar de trabalho, mas uma empresa com possibilidade de crescimento”, afirma.

Na avaliação do agricultor, a forma como as novas gerações enxergam a agricultura mudou significativamente. “Hoje eles entendem que são donos do próprio negócio. Se quiserem ampliar a produção, diversificar ou investir em novas atividades, essa decisão depende deles”, observa.

Ele ressalta, entretanto, que cada pessoa segue um caminho diferente. “Tenho dois filhos. Um voltou para a propriedade e o outro está se formando e trabalha em Porto Alegre. Cada um faz a escolha que considera melhor para sua vida”, comenta.

Infraestrutura influencia

Márcio Tonello relata que para ele, os avanços na infraestrutura registrados nos últimos anos contribuíram para tornar a permanência no interior ainda mais atrativa. “Se fosse dar uma nota, diria que a qualidade de vida aqui está entre nove e nove e meio. Não dou dez porque nada é perfeito, mas viver aqui é muito bom”, afirma.

Para a moradora Érica Bellé, melhorias como a expansão da internet e a chegada do asfalto facilitaram a qualidade de vida. Embora trabalhe em regime de home office para uma empresa localizada na cidade, ela afirma que pretende manter o vínculo com o interior. “O meu desejo é continuar morando aqui. O asfalto facilita muito essa possibilidade porque permite trabalhar na cidade ou de forma remota sem precisar abrir mão da vida no interior”, relata.

Tecnologia transforma

Além da melhoria da infraestrutura, os entrevistados apontam que a evolução tecnológica também tem tornado a agricultura mais atrativa para as novas gerações.

Renê lembra que a rotina nas propriedades mudou completamente nas últimas décadas. “No passado a uva era transportada com mulas e carroças. Depois vieram os motores, os pulverizadores, os tratores e agora temos drones, internet e equipamentos cada vez mais modernos”, afirma.

Segundo ele, a mecanização reduziu significativamente o esforço físico exigido dos trabalhadores. “Hoje praticamente ninguém precisa carregar caixas pesadas como antigamente. A tecnologia facilitou muito o trabalho e aumentou a produtividade”, observa.

Para o agricultor, esse avanço exige uma nova formação profissional. “Antigamente diziam que quem não estudasse ficaria na colônia. Hoje é exatamente o contrário. Para permanecer na agricultura é preciso estudar, entender de tecnologia, de internet, de drones e de equipamentos eletrônicos. O campo exige cada vez mais conhecimento”, afirma.

Márcio compartilha dessa visão e acredita que investir na formação dos jovens é uma das principais necessidades da comunidade. “Apostar na educação é fundamental. Independentemente de o jovem trabalhar na agricultura ou em outra profissão, aprender nunca deixa de ser importante. Quanto mais oportunidades de qualificação existirem, melhor será para toda a comunidade”, conclui

Márcio Tonello afirma que as melhorias na infraestrutura reforçaram a qualidade de vida no interior (Foto: Jornal Semanário)

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