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Artistas se reinventam para manter viva a música gaúcha em Bento Gonçalves

A música gaúcha continua sendo uma das principais expressões culturais de Bento Gonçalves. Presente nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), nos rodeios, na Maria Fumaça, em festivais, escolas de música e eventos turísticos, o gênero atravessa gerações e busca novos caminhos para conquistar o público jovem sem perder a essência que marca a identidade do Rio Grande do Sul.

Em uma cidade reconhecida pela forte influência da imigração italiana, a cultura gaúcha também ocupa espaço de relevância, impulsionada por músicos, professores, grupos e jovens talentos que mantêm viva uma tradição construída ao longo de décadas.

Para Ricardo Adriano Noskoski, mais conhecido como Rick Gaiteiro, que atua profissionalmente desde a adolescência, a relação com a música começou ainda na infância. Aos três anos de idade, observava o irmão tocar gaita dentro de casa, ambiente onde a cultura gaúcha sempre esteve presente. “Meus pais sempre cultivaram essa cultura. Meu irmão tocava gaita e eu queria mexer no instrumento dele. Depois ganhei uma gaita de brinquedo e foi ali que nasceu essa paixão”, relembra.

O músico conta que, desde os 16 anos, integra as apresentações da Maria Fumaça, um dos principais atrativos turísticos da Serra Gaúcha, além de realizar shows em bailes, casamentos, eventos corporativos e apresentações em diversas cidades desde os 12 anos.

Ricardo Adriano Noskoski é mais conhecido como Rick Gaiteiro. Foto: Luis Cortelini.

Segundo ele, embora a música tradicional enfrente a concorrência de outros estilos, ainda desperta o interesse das novas gerações, especialmente daqueles que convivem com a tradição dentro das famílias e dos CTGs. “Vejo muitos jovens participando das invernadas. Acredito que o principal caminho é trabalhar essa cultura desde cedo, nas escolas, com oficinas e incentivo das famílias”, frisa.

Ritmos que contam a história do Estado

A diversidade dos gêneros gaúchos também ajuda a explicar a riqueza desse patrimônio cultural. Rick diz que, na Serra Gaúcha, a vaneira e o bugio são os estilos mais populares entre o público. “Em outras regiões predominam chamamé, valsa ou xote, mas a vaneira acaba sendo o ritmo mais presente em praticamente todo o Estado”, salienta.

Entre suas referências musicais estão grandes nomes da gaita, como Albino Manique, Luiz Carlos Borges, Edson Dutra, dos Serranos, integrantes dos Monarcas e João Luiz Corrêa.

Além de interpretar clássicos, Rick também investe em composições próprias. Atualmente possui dez músicas lançadas nas plataformas digitais. A mais recente, Rodeios da Vida, retrata o universo das campereadas, enquanto outra composição autoral, Saudade Serrana, foi gravada com o grupo de mesmo nome.

Ao longo da carreira, o músico também acumula conquistas importantes, como o título de campeão nacional e brasileiro de gaita piano e gaita ponto, além de participações em programas de televisão como Galpão Crioulo e o programa de João Luiz Corrêa, além de participações na SBT e Record.

Para quem deseja seguir essa carreira, Rick incentiva que não desistam. “O importante é nunca desistir, pois é uma cultura que fala do nosso povo e nosso chão. Não podemos deixar apagar essa chama, que ainda vive”, ressalta.

Formação de novos talentos

Quem também acompanha de perto a renovação da música gaúcha é o cantor e professor Lucas Contini. Sua trajetória começou ainda adolescente, no CTG Paisanos da Tradição, quando foi incentivado pelo músico Marcos Antônio Grando a participar de concursos e festivais.

Lucas Contini trabalha recebendo alunos de outras cidades também

Hoje, além dos palcos, Contini dedica-se à formação de novos artistas por meio do projeto La Casa Desenvolvimento Musical, criado em 2022.

Mais do que ensinar música, o espaço busca desenvolver a carreira artística dos alunos, promovendo gravações, apresentações e preparação para festivais. “A ideia nunca foi apenas ensinar. Queríamos criar um ambiente onde os alunos também pudessem crescer artisticamente, gravar, se apresentar e construir sua identidade musical”, afirma.

Segundo ele, a procura vai além da música tradicionalista, mas a escola se tornou referência na preparação para festivais, recebendo inclusive alunos de outras cidades.

Contini observa que o gênero gaúcho vive um momento de transformação. “A música tradicionalista está buscando novas formas de chegar ao público jovem, principalmente através das plataformas digitais. Os festivais também continuam sendo fundamentais para despertar esse interesse”, indica.

Entre os estilos mais procurados pelos alunos estão a milonga-canção e o chamamé, ritmos ligados ao universo nativista, conhecidos pelas letras que retratam o campo, a história e a identidade do povo gaúcho.

Apesar das dificuldades de atuar em um segmento considerado de nicho, o artista acredita que ainda existe espaço para quem deseja construir carreira. “Existe mercado, mas é preciso persistência, estudo e dedicação. Não basta apenas talento. Eu tive uma música recente, inclusive, chamada ‘Encantos e Belezas’, com o grupo Sinfonia de Campo, que foi tema do concurso regional da 11ª Região Tradicionalista”, pontua.

Mulheres ampliam espaço na cena tradicionalista

Outro sinal da renovação da música gaúcha aparece na representatividade feminina. Formada por Paloma Trevisan (acordeon), Tainã Kalmon (voz), Luciane Beatriz Staub (bateria), Bibiana Moscoso Petek (guitarra) e Ariane Motta (baixo), a banda The All Pargatas aposta em releituras, músicas autorais e uma proposta contemporânea para aproximar novos públicos da cultura regional.

Segundo a baterista Luciane, conhecida como Miqüí, o cenário da Serra continua forte e ganha ainda mais visibilidade com o crescimento do turismo. “A música gaúcha segue unindo gerações e trazendo uma vivência que enaltece o passado de luta e coragem do povo. A cena tem passado por uma renovação importante na representatividade, e com o aumento do turismo, a cultura gaúcha é evidenciada em eventos e locais de entretenimento cultural”, ressalta.

No entanto, o ambiente tradicionalista ainda apresenta impasses para as mulheres. “O principal desafio é romper com o histórico machismo estrutural e a invisibilidade nos festivais nativistas e bailes. Artistas enfrentam a resistência de um meio dominado por narrativas masculinas, lutando por mais espaço nos palcos, destaque autoral e composições que retratem a mulher moderna para além do estereótipo da prenda em papel passivo ou subalterno”, evidencia.

O grupo The All Pargatas prepara atualmente a gravação de um EP. Foto: Leonardo Ribeiro e Fernando Costa

Segundo ela, há um distanciamento perceptível do público jovem, mas não se trata de um abandono total da identidade gaúcha, e sim de um choque geracional. “Enquanto muitos jovens demonstram orgulho de suas raízes, há um conflito direto com as normas engessadas e ritos tradicionais dos CTGs. Para aproximá-los novamente, é necessário adaptar costumes campeiros à contemporaneidade, focando na inclusão social, uso de plataformas digitais e diálogo com a diversidade, aproximando assim a nova geração para que haja o sentimento de pertencimento”, sugere.

Estilo próprio

O repertório é composto principalmente por releituras de músicas autorais, mostrando a visão que o grupo tem da cultura gaúcha e elas se apresentam em bailes em CTGs, rodeios, Semana Farroupilha, festas comunitárias, eventos municipais e particulares. “Percebemos que o público está mais aberto a diferentes movimentos e propostas dentro da música, e mudanças na questão audiovisual, na necessidade de estar presente nas plataformas digitais e na necessidade de estar conectadas com o público em geral. Nos nossos shows, a prioridade é transmitir alegria, amor pela nossa cultura e gratidão por poder exercer nossa profissão. Queremos que as pessoas se sintam representadas através de nós, valorizando a nossa história e a simplicidade do nosso povo, com o objetivo de proporcionar momentos de diversão e emoção aos que se propõem a prestigiar e conhecer nosso trabalho”, pondera.

Para ela, os grupos regionais têm extrema importância para a divulgação da cultura local e sua preservação. “Somos nós que levamos a nossa música, os costumes e tradições para diversos movimentos, eventos, comunidades e outros, tornando possível a vivência gaúcha em qualquer lugar do mundo, podendo trazer o pertencimento e lembrança até pra quem não está mais no seu lugar de origem”, declara.

O grupo prepara atualmente a gravação de um EP com videoclipes e pretende ampliar sua atuação para além da Serra Gaúcha.

Talento mirim chama atenção e fortalece o gênero

O futuro da música tradicionalista também encontra representantes cada vez mais jovens. Um exemplo é o gaiteiro Lucas Lorenzet Andreolla, de apenas nove anos, de Garibaldi.

Segundo a mãe, Deloíze Lorenzet, o interesse pela música surgiu ainda aos dois anos, durante visitas à Estação da Maria Fumaça. “Ele ficava encantado com os músicos, geralmente gaiteiros: Valmor Marasca, Beto Malheiros, Paloma Trevisan. Era uma sintonia nata e criava amizade. Com essa idade ganhou uma gaita bem simples, de 8 baixos, e começou a reproduzir melodias como Parabéns a você, La Bella Polenta, Bella Ciao, sempre com muita naturalidade e alegria. Os músicos sempre o acolheram muito bem”, conta.

Lucas Lorenzet Andreolla e seus pais, Deloíze Lorenzet e Felipe Andreolla. Foto: Gabriela Amaro.

Com apenas três anos iniciou aulas de música e rapidamente chamou a atenção do professor Valmor Longhi, que identificou um desenvolvimento incomum. “Primeiramente o professor falou que precisava de uma gaita profissional e logo percebeu que o meu filho ouvia e reproduzia os acordes com talento. Fez aula de gaita para entender a posição correta dos dedos, junção de teclado e baixos. Ouve e reproduz acordes, toca sem partituras. O professor Longhi emitiu um parecer relatando que o meu filho tem ouvido absoluto e que o que ele aprende em cada semestre um adulto levaria 10 anos de estudo e execução”, revela.

Hoje, Lucas estuda gaita, violão, técnica vocal e participa de coral, conciliando os estudos escolares com apresentações em eventos.

A família faz questão de manter a educação como prioridade, mas reconhece que a música se tornou parte essencial da vida do menino. “Sempre estamos muito presentes e o incentivamos, levando, buscando, orientando e colocando que a prioridade são os estudos, sendo que a música na sua vida é um complemento. Geralmente as aulas na área da música são à noite e as apresentações, quando é convidado, são em finais de semana”, evidencia.

Para auxiliar na divulgação de seu talento musical, Andreolla possui redes sociais administradas pelos pais: Instagram, Facebook, Tik Tok e YouTube com o perfil @gaiteirolucasoficial.

Sobre ver o filho representando a música tradicional, ela revela que o sentimento como pais é de acompanhá-lo, protegê-lo, orientá-lo e, ao mesmo tempo, é muito gratificante reconhecer seu potencial. “Ele tem um apreço por músicas gaúchas e da cultura italiana. Na música tradicionalista, admira muito a arte de Os Serranos, Os Monarcas, Borghettinho, Albino Manique, entre outros. Já se apresentou para Os Serranos e para o Borghettinho de modo informal. Já subiu ao palco e teve participação em shows com Tchê Barbaridade e Portal da Serra para público mais expressivo”, conclui a mãe.

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