O perfil religioso de Bento Gonçalves está passando por transformações graduais. Embora o município mantenha uma forte predominância católica, os dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam crescimento da população evangélica e refletem uma tendência observada em todo o Brasil nas últimas décadas.

Segundo o levantamento, 73,47% dos moradores de Bento Gonçalves se declararam católicos apostólicos romanos. Os evangélicos representam 16,69% da população, seguidos por pessoas sem religião (4,93%), outras religiosidades (2,14%), espíritas (1,55%) e adeptos da Umbanda e do Candomblé (1,22%).

A comparação com o Censo de 2010 evidencia a ampliação da participação evangélica no município. Naquele ano, Bento Gonçalves possuía 12.273 moradores que se declaravam evangélicos, o equivalente a 11,44% da população de 107.278 habitantes. Em 2022, a participação do grupo passou para 16,69%, um aumento de 5,25 pontos percentuais no período.

Embora os católicos sigam formando a ampla maioria da população, os números revelam mudanças na composição religiosa da cidade, historicamente marcada pela influência da imigração italiana e pela forte presença da Igreja Católica.

Diversificação religiosa

Para o sociólogo, mestre e doutor em Ciência Política e professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS), João Ignacio Pires Lucas, o crescimento da população evangélica não é um fenômeno restrito ao município nem ao Brasil. Segundo ele, pesquisas realizadas nas últimas décadas apontam diferentes fatores que ajudam a compreender essa transformação.

Entre eles está a própria diversificação das formas de vivenciar a religiosidade. O pesquisador destaca que o Brasil possui uma tradição marcada pelo sincretismo religioso e pela circulação de pessoas entre diferentes crenças ao longo da vida. “Existem pessoas que transitam entre diferentes religiões e buscam nessas experiências respostas para questões relacionadas ao sentido da vida, conforto emocional, trabalho, família e outras necessidades. Ao mesmo tempo, observamos o crescimento das pessoas que se declaram sem religião, o que não significa necessariamente ausência de espiritualidade. Isso mostra uma sociedade cada vez mais diversa”, afirma.

Segundo o pesquisador, o avanço dos evangélicos ocorre paralelamente à redução da participação católica registrada pelo Censo. “Há uma relação de soma zero entre esses grupos. A diminuição dos católicos implica também no aumento dos evangélicos. São religiões de matriz cristã, mas com estruturas e formas de organização diferentes”, explica.

O professor observa que o Brasil continua sendo um país com forte presença católica, ainda que o cenário religioso esteja se tornando mais plural. “Os indicadores mostram que não é possível afirmar que as pessoas estejam simplesmente perdendo a fé. O que existe é uma diversificação das formas de religiosidade. Algumas pessoas se aproximam de denominações evangélicas, outras se identificam como sem religião e muitas continuam vinculadas ao catolicismo ou a outras tradições”, explica.

Presença nos bairros

Embora não exista um levantamento específico que mapeie a distribuição das igrejas em Bento Gonçalves, a presença de congregações evangélicas em bairros periféricos é uma característica observada em diferentes regiões da cidade. De acordo com João Ignacio, pesquisas realizadas a partir de dados do próprio IBGE ajudam a compreender esse fenômeno.

O pesquisador relata que estudou a presença de equipamentos sociais em áreas classificadas pelo instituto como favelas ou aglomerações subnormais — territórios caracterizados por maior vulnerabilidade social e carência de infraestrutura urbana. “Em uma comparação que realizei, observei que existem mais equipamentos religiosos nesses setores do que de educação e saúde. Isso ajuda a compreender a presença dessas organizações em áreas de maior vulnerabilidade”, afirma.

Segundo ele, essa proximidade não significa que os evangélicos estejam restritos a uma determinada classe social. No entanto, há evidências de uma atuação significativa junto às populações de baixa renda. “Essas denominações estão mais presentes em setores periféricos e em áreas que enfrentam maiores carências. Isso cria uma aproximação com pessoas que possuem demandas materiais, sociais e também questões relacionadas ao acolhimento, ao conforto emocional e ao sentido da vida”, explica.

Para o sociólogo, a capacidade de estabelecer vínculos comunitários ajuda a explicar o crescimento contínuo observado nas últimas décadas. “Algumas dessas organizações possuem estruturas mais próximas da população e das necessidades cotidianas das comunidades. Se isso não fosse atrativo para as pessoas, dificilmente estaríamos observando esse crescimento há tanto tempo”, aponta.

Comunidade e acolhimento

Pastor da Igreja Casa do Pai BG, localizada no bairro São Roque, Volnei Marques da Silva acompanha a realidade religiosa do município há duas décadas. Natural de São Borja, ele vive em Bento Gonçalves há cerca de 20 anos e considera que a expansão das igrejas evangélicas está relacionada à busca das pessoas por pertencimento e convivência comunitária. “O que leva muitas pessoas a se aproximarem das igrejas é o desejo de conhecer mais sobre Deus, mas também de fazer parte de uma comunidade. A igreja não é apenas um lugar para frequentar, mas um espaço onde as pessoas encontram vínculos e convivência”, afirma.

Segundo o pastor, a atuação das congregações vai além dos cultos e inclui ações voltadas ao apoio de famílias em situação de vulnerabilidade. “Temos um departamento social que busca auxiliar pessoas com maiores necessidades. Muitas famílias chegam à cidade em busca de trabalho sem estrutura ou rede de apoio. Nesses casos, procuramos ajudar para que consigam se estabelecer e encontrar oportunidades”, explica.

Volnei também observa a presença significativa de migrantes entre os frequentadores das igrejas. “Muitas pessoas que chegam a Bento Gonçalves já participavam de comunidades religiosas em suas cidades de origem. Quando se mudam, costumam procurar uma igreja para reconstruir essa rede de convivência e apoio”, observa.

Tradição católica

Apesar do crescimento evangélico, a cidade continua apresentando uma realidade diferente de várias regiões do país. Para o pesquisador, a herança cultural deixada pela imigração italiana ainda exerce influência importante na composição religiosa da Serra Gaúcha. “As cidades da região mantêm uma predominância católica bastante significativa. O crescimento evangélico existe, mas ocorre em intensidade menor do que a observada em outras partes do Rio Grande do Sul e do Brasil”, observa.

Segundo ele, fatores históricos ajudam a explicar essa característica. “A colonização italiana foi muito forte e contribuiu para a manutenção de tradições religiosas ao longo de gerações. Em muitos casos, essas práticas continuam presentes na vida comunitária e familiar, mesmo quando a frequência às atividades religiosas já não é a mesma de décadas atrás”, explica.

Ao mesmo tempo, o pesquisador destaca que a cidade também vem sendo influenciada por movimentos migratórios e por transformações sociais mais amplas. “Hoje as populações são mais diversas. Pessoas de diferentes regiões do país chegam à cidade trazendo suas experiências culturais, religiosas e modos de vida. Isso acaba se refletindo também na composição religiosa do município”, frisa.

O pastor compartilha percepção semelhante ao relacionar as mudanças observadas em Bento Gonçalves à chegada de moradores vindos de outras localidades. “Bento Gonçalves recebe pessoas de muitos lugares que vêm trabalhar e construir suas vidas aqui. Cada uma traz consigo suas crenças, suas experiências e a forma como vive a fé. É natural que essas pessoas procurem espaços onde possam manifestar suas convicções e participar de uma comunidade”, salienta.

Papel social

Além da dimensão religiosa, o pesquisador destaca que organizações religiosas historicamente desempenham funções sociais relevantes em diferentes áreas da sociedade.

Segundo ele, instituições ligadas a diversas tradições religiosas mantêm parcerias com o poder público e participam de iniciativas voltadas à assistência social, educação e acolhimento de populações vulneráveis. “Muitas políticas sociais contam com a participação dessas organizações. Elas atuam em diferentes áreas e, além dos serviços prestados, oferecem espaços de convivência e apoio para as comunidades”, aponta.

O pesquisador ressalta que uma das funções centrais dessas instituições está relacionada justamente ao acolhimento e ao suporte oferecido às pessoas diante das dificuldades cotidianas. “São organizações que procuram dar respostas para questões relacionadas ao sofrimento, à esperança e ao sentido da vida. Essa dimensão subjetiva também ajuda a compreender por que continuam exercendo influência em diferentes grupos sociais”, afirma.

Questões relacionadas ao sofrimento emocional também aparecem entre as demandas relatadas pelas lideranças religiosas. Segundo o pastor, situações envolvendo problemas emocionais e dificuldades pessoais estão entre os motivos que levam muitas pessoas a procurar orientação e acolhimento nas congregações. “Percebemos que muitas pessoas chegam enfrentando problemas relacionados à ansiedade, depressão e à busca por paz e sentido para a vida. São situações que aparecem com frequência no contato diário com a comunidade”, finaliza.