A menos de um mês do início da Copa do Mundo de 2026, que será disputada entre 11 de junho e 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México, o clima do principal torneio do futebol mundial já começa a movimentar torcedores. Em Bento Gonçalves, duas histórias mostram como o Mundial ultrapassa as quatro linhas e se transforma em experiência de vida.

De um lado, o torcedor Vitor Marini, que aos 12 anos acompanhou de perto a Copa de 2014 no Brasil. Do outro, o fotógrafo esportivo Enio Bianchetti, que esteve no Catar em 2022, fotografou o Mundial de Clubes nos Estados Unidos em 2025 e agora se prepara para trabalhar novamente dentro dos gramados da competição mais importante do futebol.

“Parecia outro mundo”

A paixão de Marini pelo futebol começou cedo, mas a oportunidade de viver uma Copa do Mundo veio através da mãe, apaixonada pelo esporte e torcedora do Internacional. Em 2014, ela o levou para assistir Alemanha e Argélia, no Beira-Rio, em Porto Alegre. “Ela me fez uma surpresa. Foi bem legal”, relembra.

Mesmo jovem na época, Marini afirma que recorda com clareza de toda a experiência. Mais do que o jogo em si, o que ficou marcado foi o ambiente criado ao redor da partida. “Se eu pudesse voltar algum momento da Copa, sem dúvida seria o pré-jogo”, conta. “Tu vê diferentes povos ali num lugar, todo mundo animado e feliz. Futebol é feito de festa”, completa.

A caminhada até o estádio se tornou uma das lembranças mais vivas daquele dia. Segundo ele, o contato com torcedores estrangeiros transformou completamente a percepção que tinha do evento. “Havia gente falando árabe, alemão, inglês. Era uma atmosfera absurda”, recorda.

Para Marini, aquela experiência também reforçou a ideia do futebol como elemento de conexão entre pessoas de diferentes culturas e realidades. Mesmo sem conseguir conversar direito com os estrangeiros, ele afirma que existia uma aproximação natural entre todos que estavam vivendo aquele momento. “Eles tentavam conversar, davam risada, batiam foto com todo mundo. Era uma energia muito diferente”, afirma.

Vitor Marini e a mãe durante a Copa do Mundo de 2014, em Porto Alegre, ao lado de torcedores alemães (Foto: Arquivo pessoal)

Ele lembra especialmente dos torcedores argelinos, que chamaram sua atenção pela receptividade e disposição em interagir com os brasileiros. “A gente pedia para bater foto e eles paravam na hora. Mesmo sem conseguir se entender direito, todo mundo tentava conversar. Isso marcou muito”, relata.

Outro momento que ficou na memória foi perceber, ainda muito jovem, a dimensão que a Copa do Mundo tem para atletas e torcedores. Segundo ele, acompanhar jogadores que estava acostumado a ver apenas pela televisão mudou completamente sua visão sobre o torneio.“Todo mundo põe na cabeça que os europeus se importam mais com Champions League do que Copa do Mundo”, comentou. A percepção dele, porém, mudou ao observar a intensidade dos atletas dentro de campo. “Eu lembro do Neuer gritando com os gandulas porque a bola não chegava rápido. Ele chutava placa de publicidade, queria ganhar de qualquer jeito”, recorda.

Para ele, a Copa do Mundo revela justamente essa capacidade do futebol de unir culturas diferentes em torno de uma mesma paixão. “É um evento que consegue misturar culturas, festa e emoção. O futebol proporciona isso, e numa Copa do Mundo ainda mais”, ressalta.

Mais de uma década depois, Ele ainda guarda com clareza as imagens daquele dia em Porto Alegre. Apesar da eliminação traumática do Brasil na Copa, ele diz que a principal lembrança continua sendo a sensação de estar inserido em um evento mundial tão próximo da realidade dele. “Era como se o mundo inteiro estivesse ali”, resumiu.

Do gramado ao clique perfeito

Enquanto Marini viveu a Copa como torcedor, Bianchetti acompanha o torneio através das lentes da câmera. A relação dele com a fotografia esportiva começou em 2007, quando realizou cursos em Novo Hamburgo e passou a atuar junto ao Clube Esportivo, em Bento Gonçalves.

A oportunidade de chegar a uma Copa do Mundo surgiu anos depois, quando uma agência de São Paulo conheceu seu trabalho e perguntou se ele teria interesse em atuar no Catar, em 2022. “Foi um processo longo. A FIFA pede praticamente toda a tua vida. Demorou cinco ou seis meses até a seleção final”, relembra.

Agora, em 2026, Bianchetti retorna ao Mundial após passar também pelo Mundial de Clubes nos Estados Unidos em 2025. Desta vez, a seleção ocorreu através de uma parceria entre Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a FIFA. “A CBF fez uma triagem com mais de 200 fotógrafos brasileiros e apenas 20 passaram para a fase final. Eu fui um dos selecionados”, destaca.

O fotógrafo Enio Bianchetti durante a cobertura da Copa do Mundo de 2022, no Catar (Foto: Arquivo pessoal)

A emoção registrada em imagem

Na Copa de 2022, ele fotografou a final entre Argentina e França, considerada por muitos uma das maiores decisões da história do torneio. Entre tantas imagens, algumas permanecem inesquecíveis. “A torcida da Argentina foi algo impressionante. O goleiro também, as expressões dos jogadores, a vontade deles de serem campeões”, recorda.

O fotógrafo também ressalta a responsabilidade de registrar momentos que podem entrar para a história do futebol mundial. Para ele, trabalhar dentro de campo durante uma Copa exige atenção permanente, já que uma comemoração, defesa ou reação dos jogadores pode durar apenas segundos. “Tu tem que enxergar o diferenciado dentro do campo”, afirma. Segundo o fotógrafo, a experiência de estar próximo dos atletas e das torcidas em um evento dessa dimensão transforma completamente a forma de enxergar o esporte. “É uma satisfação e uma gratidão muito grande estar presente numa Copa do Mundo”, comenta.

Além do trabalho dentro dos estádios, Bianchetti também destaca o contato com diferentes culturas como uma das grandes riquezas do evento. No Catar, ele afirma ter encontrado um ambiente extremamente organizado e pacífico entre torcedores de vários países. “Não teve problema de briga ou desavença. As culturas se uniam porque é um evento único”, explica.

Entre as torcidas que mais chamaram sua atenção, ele cita os argentinos, brasileiros e marroquinos. “A Copa reúne povos do mundo inteiro. A gente troca informações, experiências e vive algo muito diferente”, conclui.

Expectativa por mais uma edição histórica

Com cinco títulos mundiais, o Brasil segue alimentando a esperança dos torcedores para 2026, e Bianchetti não esconde a confiança. “Eu acredito no meu país. O Brasil tem cinco estrelas e só nós temos isso”

Mesmo reconhecendo a força de seleções como Espanha, França, Alemanha e Japão, ele espera acompanhar uma campanha histórica da Seleção Brasileira enquanto registra alguns dos momentos mais importantes do futebol mundial. “São poucos fotógrafos que conseguem estar dentro de campo numa Copa do Mundo. É uma essência maravilhosa”, ressalta.

A expectativa também cresce entre os torcedores. Apaixonado por futebol desde a infância, Marini afirma que a aproximação do Mundial reacende o entusiasmo de acompanhar não apenas os jogos do Brasil, mas também as demais seleções do torneio. “Agora chegando a Copa do Mundo me motiva cada vez mais assistir, parar para ver o Brasil e todas as outras seleções jogarem”, conta. Para ele, a competição mantém viva justamente a essência que mais marcou sua experiência em 2014: a capacidade do futebol de unir culturas, histórias e emoções em um mesmo lugar.