O bairro Borgo, em Bento Gonçalves, tem perfil residencial e comercial e se destaca pela localização próxima ao centro da cidade. A região reúne a tranquilidade das áreas residenciais com uma ampla oferta de comércio e serviços, acompanhando o crescimento e a valorização do município ao longo dos anos.

Entre os moradores mais antigos da localidade, as lembranças mais marcantes remetem a uma comunidade pequena, unida e fortemente ligada à convivência entre as famílias. Aos 87 anos, a moradora Marlene Francisca Piccoli Turquete, nascida em Porto Alegre, chegou a Bento Gonçalves aos três anos de idade e desde então vive no Borgo. Segundo ela, durante sua infância o bairro contava com cerca de 15 famílias.

De acordo com ela, a convivência entre os moradores era intensa e fortemente ligada à religiosidade. “A gente se visitava, tinha a capelinha que ia de casa em casa. Um dia na do meu pai, outro em um vizinho, e todo mundo se reunia para rezar o terço”, conta.

Marlene também recorda que o pai, Eugênio Piccoli, teve participação ativa no desenvolvimento do bairro. Conforme relata, ele ajudou no asfaltamento de ruas e na chegada de serviços básicos, como água e energia elétrica. “Quem abriu essa rua aí foi meu pai. Ele que puxou luz e a água”, afirma.

Marlene Turquete ressalta a forte tradição religiosa da comunidade (Foto: Jornal Semanário)

Memória e religiosidade

Outro ponto marcante na memória da moradora é a forte devoção religiosa presente no Borgo. Ela relata que, na década de 1950, quando tinha cerca de 11 ou 12 anos, afirma ter visto uma aparição de Nossa Senhora das Graças junto da irmã e de uma amiga. Segundo Marlene, o episódio mobilizou moradores de diversas localidades e marcou profundamente a comunidade. “Veio gente de tudo quanto era lado. Muitas pessoas diziam que recebiam graças”, relembra. Ela afirma que, após os primeiros relatos, outras pessoas também disseram ter visto a imagem religiosa e que o local passou a receber visitantes frequentemente.

Segundo a moradora, a repercussão levou até mesmo membros da Igreja a investigarem os relatos. “Tinha um padre que entrevistava as pessoas separadas, para ver se todas falavam a mesma coisa, para saber se não era invenção”, conta. Conforme Marlene, os depoimentos eram semelhantes, o que aumentou ainda mais a repercussão do caso entre os fiéis.

Com o aumento das visitas, foi construído um pequeno capitel em homenagem à Nossa Senhora. Segundo Marlene, a estrutura ainda pemanece ao lado da igreja do bairro, embora tenha passado por melhorias ao longo dos anos. “Fizeram um capitelzinho. Tem até hoje lá”, afirma.

A moradora Jurema Fornasier, de 79 anos, também destaca a união entre os moradores como uma das principais características históricas do bairro. Natural de Pinto Bandeira, ela chegou ao Borgo aos três anos de idade e acompanhou as transformações da região ao longo das décadas. Costureira bastante conhecida na comunidade, Jurema construiu sua trajetória profissional no bairro ao mesmo tempo em que acompanhava seu crescimento. “Naquela época não tinha nada. Poucas casas, praticamente só um pequeno mercado”, recorda. Ela também ressalta a tradição religiosa da comunidade e cita a devoção à Nossa Senhora do Carmo, padroeira do bairro, além da participação nas festividades religiosas locais.

Jurema Fornasier é moradora do bairro desde a infância (Foto: Jornal Semanário)

Crescimento urbano e desenvolvimento comercial

O progresso do Borgo ao longo dos anos também aparece nos relatos dos comerciantes e empreendedores da região. Lisiane Ballé conta que o mercado administrado por sua família completa 62 anos em 2026 e acompanhou diretamente o desenvolvimento do bairro.
Segundo ela, o estabelecimento começou como um pequeno bar criado pelo avô, em uma época em que as ruas aindanão tinham calçamento. “Era estrada de chão, cavalo, coisas assim. Depois virou uma mercearia, um mercadinho maior, e foi crescendo junto com o bairro”, relata.

Lisiane afirma que o Borgo passou por forte expansão populacional e comercial nos últimos anos. “O bairro cresceu muito, tanto em comércio quanto em moradias. Tem praticamente tudo que as pessoas precisam”, destaca.

A comerciante Karen Atzler, de 38 anos, também acompanha essa transformação desde a infância. Moradora do Borgo desde que nasceu, ela afirma que a região deixou de ser um local com poucos serviços para se tornar um importante polo comercial e residencial. “Antes não tinha nada. Agora tem mercado, farmácia, lojas de vários ramos. Cresceu muito”, afirma. Para ela, o comércio de bairro ganhou força pela praticidade e pela facilidade de acesso, especialmente para famílias. “Hoje as pessoas procuram comodidade. Conseguem estacionar perto e resolver tudo aqui mesmo”, comenta.

O empreendedor Rejanir Fernandes, natural de Porto Alegre e morador de Bento Gonçalves há 13 anos, também avalia que o crescimento do Borgo acompanha a expansão da cidade como um todo. “Não foi só o bairro que cresceu, foi Bento Gonçalves inteira”, afirma. Segundo ele, o comércio local recebe clientes de diferentes regiões do município e até de fora da cidade.

Trânsito, mobilidade e segurança

Apesar da avaliação positiva sobre o bairro, moradores e comerciantes apontam o trânsito e a mobilidade urbana como os principais desafios atuais do Borgo.

Lisiane afirma que o aumento do fluxo de veículos na Rua São Paulo trouxe mais riscos para motoristas e pedestres. “O bairro cresceu muito e o trânsito não acompanhou. Tem bastante acidente e atropelamento”, relata. Ela defende melhorias em sinalização, semáforos e organização do estacionamento.

Karen também observa que o intenso movimento, principalmente nos horários de pico, exige mais atenção do poder público. Segundo ela, o fluxo intenso de veículos na Rua São Paulo tem aumentado os riscos para motoristas e pedestres, especialmente no fim da tarde. “No final do dia o trânsito fica parado e já tivemos muitos atropelamentos aqui na rua. Agora no inverno escurece mais cedo, por volta das 17h30min, e a iluminação acaba ficando um pouco mais fraca, o que exige ainda mais cuidado”, comenta. Para ela, mais faixas de pedestres, reforço na iluminação pública e a instalação de câmeras de monitoramento poderiam contribuir para aumentar a segurança no bairro.

Rua São Paulo concentra intenso fluxo de veículos, sendo também apontada como ponto de atenção para a mobilidade (Foto: Jornal Semanário)

Fernandes critica a falta de sinalização adequada em alguns pontos e afirma que a organização urbana ainda apresenta problemas. Segundo ele, a localização de contêineres de lixo em determinados trechos prejudicava a visibilidade dos motoristas e contribuía para acidentes. O empreendedor relata, inclusive, que já se envolveu em uma colisão em uma esquina devido à dificuldade de enxergar os veículos que trafegavam pela via principal. Conforme explicou, na época os contêineres estavam posicionados próximos à esquina e acabavam bloqueando parte da visão dos motoristas, situação que, segundo ele, atualmente já foi corrigida com a realocação das estruturas. “Tem semáforos que abrem muito rápido e pontos onde a sinalização é precária”, afirma.

A moradora Jurema também menciona dificuldades relacionadas à infraestrutura viária. Segundo ela, algumas ruas seguem com problemas de manutenção. “A nossa rua vive esburacada”, relata.

Mesmo com as críticas relacionadas ao trânsito, os entrevistados classificam o bairro como relativamente tranquilo e seguro. Karen destaca a presença frequente de viaturas policiais na região, enquanto Lisiane afirma não enfrentar problemas recorrentes relacionados à criminalidade.

Serviços públicos e qualidade de vida

Os moradores ouvidos destacam que o Borgo possui boa oferta de comércio e serviços próximos, fator que contribui para a qualidade de vida da comunidade.

Na área da saúde, parte dos entrevistados cita atendimento na unidade do centro ou em bairros vizinhos. Marlene afirma utilizar atendimento público de saúde e elogia os profissionais. “Eles são muito bons”, comenta.

Sobre abastecimento e saneamento, Karen afirma que o bairro raramente enfrenta falta de água. Já a coleta de lixo foi considerada satisfatória pelos entrevistados, especialmente após a instalação dos novos contêineres.

Praças e áreas de convivência

Apesar da avaliação positiva sobre a infraestrutura, moradores apontam a necessidade de ampliação dos espaços públicos de lazer no Borgo, especialmente voltados às crianças e às famílias.

Karen afirma que a praça existente atende apenas parcialmente à demanda da comunidade. Segundo ela, muitos moradores sentem falta de estruturas mais amplas e modernas para o público infantil. “Poderia ter mais áreas verdes, parques e espaços melhores para as crianças”, defende. Karen também observa que o atual parquinho possui estrutura simples e que melhorias poderiam trazer mais segurança e conforto para as famílias.

Lisiane também cita a limitação dos espaços de lazer disponíveis atualmente no bairro. Conforme relata, a principal área utilizada pela comunidade é a pracinha localizada na região central do Borgo.

Educação e tradição no bairro

Além da forte ligação comunitária e histórica, o bairro Borgo também abriga um dos principais destaques educacionais de Bento Gonçalves. A Escola Municipal de Ensino Médio Alfredo Aveline, tradicional instituição da comunidade, alcança resultados significativos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) e em olimpíadas educacionais. Atualmente, a escola é a única da rede municipal da cidade a oferecer ensino médio, característica que faz da instituição uma referência local, estadual e nacional em educação pública.

O diretor Márcio Pilotti afirma que a relação entre o colégio e o Borgo foi construída ao longo de décadas. “A escola pertence ao bairro como o bairro pertence à escola”, resume.
Segundo ele, muitos pais de alunos também estudaram na instituição, fortalecendo o vínculo histórico com a comunidade. No próximo ano, a escola completará 85 anos de atuação.

Pilotti também destaca os resultados obtidos em olimpíadas educacionais, especialmente na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Conforme o diretor, o desempenho é resultado de um trabalho contínuo desenvolvido pelos professores ao longo dos anos. “Temos campeões, bicampeões, medalhas de prata, ouro e distinções. É um trabalho muito forte dos professores desde as séries iniciais até o ensino médio”, conclui.

Além do desempenho acadêmico, o diretor ressalta que a escola busca desenvolver valores ligados ao respeito, à convivência e à formação cidadã dos estudantes, por meio de projetos culturais e pedagógicos realizados junto à comunidade escolar.