Adiar tarefas importantes, mesmo diante de prazos e consequências, é um comportamento cada vez mais comum no cotidiano. A procrastinação, muitas vezes associada à falta de disciplina, tem sido analisada por especialistas como um fenômeno mais complexo, ligado a fatores emocionais, ansiedade e dificuldade de gestão do tempo.
Com a rotina marcada por excesso de estímulos, especialmente no ambiente digital, manter o foco se tornou um desafio constante. O hábito de postergar atividades pode comprometer a produtividade, afetar a saúde mental e gerar um ciclo de culpa e estresse, dificultando ainda mais a execução das tarefas.
De acordo com o médico psiquiatra Roberto Nichetti, a prática é adiar algo, mesmo sabendo das suas consequências. “Do ponto de vista psiquiátrico, é um sintoma reflexo de alterações do funcionamento mental influenciado por fatores cognitivos, afetivos e sociais”, explica.
Todos procrastinamos?
O especialista ressalta que se trata de um comportamento comum, mas alerta que a repetição frequente, associada a prejuízos recorrentes, pode indicar a necessidade de atenção do ponto de vista da saúde mental. “Pode ser compreendida como um desbalanço entre aquilo que Freud diferenciou entre o Princípio do Prazer e o Princípio de Realidade. Vamos pensar no exemplo da criança que devora um prato com muito prazer, mas que reluta depois em querer lavar a louça… nós tendemos a preferir o que nos dá prazer ao que nos é trabalhoso, mas necessário. Estamos sempre no conflito entre o que nos agrada e a necessidade social de adiar o que nos agrada se socialmente for inaceitável”, menciona Nichetti.

Porque fizemos isso ?
O especialista explica que a procrastinação está relacionada a mecanismos internos de busca por conforto e evitação de desconforto. “Intrapsiquicamente falando, tem a ver com esse afeto que prefere o prazer e evita a dor”, afirma.
Segundo ele, o comportamento também pode ser influenciado por fatores externos. “Ela pode ser estimulada pelo próprio fator social, quando, por exemplo, a pessoa estima que o prejuízo por não cumprir uma obrigação não será tão grande, ou até mesmo em situações em que já se sabe que não haverá punição”, destaca.
O pesquisador acrescenta que o contexto social pode reforçar esse padrão. “Em ambientes onde valores podem estar invertidos e infratores acabam impunes, esse tipo de comportamento tende a se manter ou até se intensificar”, aponta.
Tipos
O médico destaca que adiar tarefas de forma pontual não deve ser encarado, por si só, como um problema clínico. “A procrastinação ocasional é comum e não necessariamente patológica, mas a procrastinação crônica tende a refletir o desbalanço acima descrito em pessoas com algumas características pessoais e modos de funcionar peculiares, como em pessoas com desatenção, distraibilidade, impulsividade, compulsividade, perfeccionismo, traços narcisistas ou sociopáticos, ou com processos de pensamento excêntricos e caracterizados por uma leitura da realidade que destoe da norma”, frisa Nichetti.
Transtornos mentais associados
O médico observa que a procrastinação tem sido frequentemente associada ao Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), sobretudo pelas características centrais do transtorno. “Essa associação se impõe principalmente porque se associa a desatenção, descontrole de impulsos, inquietude motora e mental, o que implica em impersistência (incapacidade de manter foco persistente sobre uma tarefa), distraibilidade (mudança de foco frequente com desvio da atenção para outros assuntos ou nuances do mesmo assunto com a perda da linha objetiva da sequência começo meio fim de um projeto)”, explica o médico.
No entanto, o especialista ressalta que a procrastinação não é exclusiva do TDAH e pode estar presente em outros contextos clínicos. “É comum na ansiedade (insegurança atrapalhando nas funções executivas), obsessividade (perfeccionismo que dirige o hiperfoco a detalhes com perda da linha objetiva e mais pragmática de um projeto, ou sensação de nunca estar perfeito que impele a pessoa a sempre querer refazer), bem como transtornos com déficit cognitivo (deficiência mental, demências), ou por alteração de modo de pensamento e interpretação da realidade, trazendo incapacidade cognitiva no dimensionar a importância do projeto e na compreensão dos parâmetros socialmente exigidos na execução de determinada tarefa”, menciona.
O médico acrescenta ainda que certos traços de personalidade podem influenciar esse padrão. “Características narcisistas e antissociais também podem contribuir para a procrastinação, especialmente quando há uma subestimação da importância das expectativas de outras pessoas em relação a uma entrega ou compromisso”, observa.
Como o cérebro funciona quando isso acontece
O médico explica que a procrastinação também pode ser compreendida sob a ótica da neurociência, especialmente em quadros como o TDAH. “Como há uma hiperatividade cerebral em regiões parietais motoras e uma hipoatividade no córtex pré frontal, há uma predisposição para o cérebro em funcionar com menos previsibilidade, permanência, adiamento de impulsos, com maior tendência a ação, e sob a influência do sistema límbico, hierarquizar sua conduta com tarefas com maior predomínio de prazer e adiamento de tarefas cansativas e enfadonhas”, cita o psiquiatra.
No caso da depressão, o cenário é diferente, mas também favorece o adiamento de tarefas. “Com a redução da atividade de neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e dopamina, há menor ativação dos centros cerebrais ligados ao prazer. Isso leva à desatenção ao ambiente, perda de interesse e diminuição da motivação, o que impacta diretamente no empenho para realizar tarefas”, explica.
Ele acrescenta que a busca pela perfeição, comum em perfis obsessivos, também pode contribuir para a procrastinação. “O perfeccionismo e o apego exagerado a correção e impermeabilidade ante a erros faz com que o obsessivo procrastine ou refaça atividades, atrasando a finalização das mesmas, por não atingimento das próprias altas expectativas”, menciona.
Já em quadros como psicose e em algumas formas de autismo, o comportamento pode ter outra origem. “O adiamento de tarefas ou não execução das mesmas pode-se dar por problemas de pensamento ou comunicacionais, pois há uma mudança na forma da interpretação da realidade e compreensão linguística, podendo haver falhas executivas ou má compreensão dos objetivos a serem obtidos por determinada tarefa que se impôs executar”, aponta o especialista.
Impactos
Segundo Nichetti, eles tornam-se mais evidentes à medida que o comportamento passa a interferir diretamente no cumprimento de responsabilidades. O adiamento constante de tarefas pode resultar em atrasos, despreparo em avaliações, falhas em entregas e até consequências mais graves, como advertências, prejuízos financeiros, perda de oportunidades e demissões. Em contextos mais amplos, esse padrão pode comprometer o andamento de projetos, gerar desvantagens competitivas e, quando ocorre de forma coletiva, afetar o desempenho de setores inteiros.
Ele destaca ainda, que em uma escala maior, a procrastinação pode refletir características do próprio ambiente social. Em sociedades marcadas pela abundância de estímulos, lazer e gratificações imediatas, há uma tendência de enfraquecimento do chamado princípio de realidade, ou seja, da capacidade de lidar com limites, esforço e adiamento de recompensas. Esse cenário pode favorecer o surgimento de comportamentos como desatenção, dificuldade de persistência, baixa tolerância à frustração e uma percepção distorcida da realidade, na qual o esforço necessário para alcançar objetivos acaba sendo subestimado.
Estratégias que ajudam
Ele recomenda que pessoas que sofrem com isso, podem realizar tarefas em que ajudam na organização das mesmas. “Montagem de agenda, cronograma, pré-planejamento escrito pode auxiliar a pessoa a revisitar seu desempenho em alguma tarefa que requeira um cronograma mais rígido”, orienta.
Para quem estuda, por exemplo, ele sugere o método Pomodoro. “Ele permite o cumprimento adequado do cronograma proposto, organizando e possibilitando pausas necessárias à mente para se recompor (em muitos pacientes com TDAH há uma predisposição maior à fadiga mental quando o cérebro é exigido em tarefas que demandem maior foco e persistência)”, salienta.
Ajuda e tratamento
O especialista menciona, que isso deve acontecer quando há nítido prejuízo em cumprir tarefas individuais e socialmente exigidas, e quando sintomas característicos dos transtornos acima indicam a suspeita da pessoa ser portadora de um deles. “As psicoterapias cognitivo comportamentais mostram-se eficazes na maioria dos casos”, salienta.
O tratamento da procrastinação pode envolver abordagens medicamentosas e psicoterápicas, utilizadas de forma isolada ou combinada, conforme a necessidade de cada caso. A definição da estratégia mais adequada segue protocolos personalizados, levando em consideração as características individuais do paciente e o contexto clínico apresentado.
Culpa e autocrítica
O médico destaca que existe um nível adequado de autoavaliação diante de tarefas atrasadas ou não realizadas. Esse ponto de equilíbrio está associado ao senso de responsabilidade, em que a pessoa reconhece o problema, assume sua parcela de responsabilidade e busca corrigi-lo dentro do possível. “O excesso de culpa, ou o seu oposto, a indiferença negligente, são indicativos de que fatores da personalidade possam estar concorrendo com a adequada correção do problema, o que pode demandar abordagens extra, como a psicoterapia psicanalítica de inspiração psicodinâmica, como complemento às abordagens farmacológicas e da psicoterapia cognitivo comportamental nesses pacientes”, finaliza.