O aquecimento dos oceanos está reduzindo significativamente a quantidade de peixes em várias regiões do planeta. Um estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution aponta que o aumento da temperatura da água pode provocar uma queda anual de até 20% na biomassa de peixes, indicador que mede a quantidade total desses animais em um ambiente aquático.
A pesquisa, conduzida por cientistas do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha e da Universidade Nacional da Colômbia, analisou dados de 1993 a 2021 no Mar Mediterrâneo, Atlântico Norte e Pacífico Nordeste, abrangendo 34 mil populações de peixes.
O biólogo e professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Maurício Bettio, explica que águas mais quentes estressam os peixes, que gastam mais energia, crescem menos e têm maior risco de morte. “Algumas espécies simplesmente não conseguem viver fora da sua ‘temperatura de conforto’. Por isso, a quantidade total diminui”, diz.

Alimento
Bettio também aponta que há indícios de que o aumento da temperatura da água altera a disponibilidade de fitoplâncton e zooplâncton nos oceanos. Esses organismos microscópicos formam a base da cadeia alimentar marinha e são essenciais para a sobrevivência de diversas espécies. “São o alimento básico para organismos que vivem no oceano. Quando essa base diminui, faltam nutrientes para os peixes”, salienta.

Migração
Ele também destaca que, em regiões de águas mais frias, o estudo registrou aumentos temporários de até 176% na quantidade de peixes. Segundo Bettio, esse crescimento pode estar relacionado ao deslocamento de grupos em busca de temperaturas mais adequadas para sobreviver. “Isso mostra que muitas espécies estão migrando para áreas mais geladas. Isso pode mudar o equilíbrio dos ecossistemas e afetar atividades de pesca”, destaca.

Impactos econômicos
Em relação aos reflexos econômicos, Bettio ressalta que a redução na quantidade de peixes pode afetar diretamente a atividade pesqueira e as comunidades que dependem dela. “Em geral, onde há menos peixes, há queda do rendimento da pesca, aumentam os custos devido a viagens mais longas e muitas comunidades ficam economicamente vulneráveis. O estudo alerta que essa redução ameaça até a segurança alimentar em algumas regiões”, frisa.
A redução das populações de peixes não está ligada apenas ao aquecimento dos oceanos, mas também à combinação de outros fatores ambientais e humanos. “Sobrepesca, poluição e mudanças climáticas juntas deixam os peixes ainda mais frágeis. A combinação desses fatores acelera a queda das populações”, salienta.
Caso o atual ritmo de aquecimento dos oceanos continue nas próximas décadas, o biólogo alerta para um cenário preocupante para a biodiversidade marinha e para a segurança alimentar. A tendência é de queda contínua nas populações de peixes, com risco de colapso de algumas espécies e redução da diversidade nos ecossistemas marinhos. Esse cenário também pode afetar diretamente a atividade pesqueira e comprometer o abastecimento de alimentos para milhões de pessoas que dependem do pescado como principal fonte de proteína.

Rio Grande do Sul
Bettio destaca que, em nosso estado, os principais pescados são a sardinha e a tainha. Segundo ele, estudos já apontam mudanças no comportamento dessas espécies, como o deslocamento de cardumes, alterações nos períodos de migração e estoques mais irregulares em anos em que o mar apresenta temperaturas mais altas. Esses sinais indicam que o aquecimento das águas já começa a influenciar a dinâmica dessas populações na região.
No Rio Grande do Sul, iniciativas de proteção ambiental começam a ganhar força diante das mudanças observadas nas populações de peixes. O governo federal anunciou a criação do Parque Nacional Marinho do Albardão e da Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão, no município de Santa Vitória do Palmar, no litoral sul do estado. Com mais de 1 milhão de hectares, ele se tornará o maior parque marinho do Brasil, representando um passo significativo na conservação dos ecossistemas costeiros e marinhos.
O decreto foi publicado em edição extra do Diário Oficial da União, no dia 6 de março. Especialistas destacam que a criação dessas unidades de conservação é uma estratégia importante para proteger os estoques pesqueiros, como sardinha e tainha, que já apresentam alterações em seus padrões de migração e distribuição. Ao fortalecer áreas de preservação, o projeto busca oferecer refúgio para espécies marinhas e contribuir para a manutenção da biodiversidade e da segurança alimentar na região.
A soma total de áreas do Parque Nacional Marinho do Albardão, incluindo a Área de Proteção Ambiental (APA), chega a 1.618.488 hectares, consolidando-se como a maior unidade de conservação marinha do país. A gestão será responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que terá a função de implementar políticas de preservação, monitorar os ecossistemas e garantir a proteção da biodiversidade marinha na região.

Brasil
Em nível nacional, o país acompanha a relação entre aquecimento das águas, deslocamento de espécies e redução da produtividade pesqueira por meio de programas como o Programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva do Brasil (ReviZEE), que mapeia os estoques de espécies, define potenciais de pesca sustentável e gera dados essenciais para políticas de conservação e gestão pesqueira. Além disso, existem universidades e demais instituições federais e estaduais que realizam pesquisas científicas costeiras. As áreas mais vulneráveis incluem o Nordeste, onde as águas são mais quentes; o Sudeste e o Sul, onde sardinha e tainha reagem fortemente à temperatura; e a costa amazônica, devido à forte dependência da pesca artesanal.