O mês de março é marcado por diversas campanhas de conscientização ao redor do mundo e uma delas, o Março Azul-Marinho, chama atenção para uma causa urgente: a luta contra o câncer colorretal. Durante este período, organizações de saúde e especialistas se unem para informar e alertar a população sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento dessa doença, que está entre as mais comuns e fatais no Brasil e no mundo.
O câncer colorretal afeta o cólon e o reto e, muitas vezes, seus sintomas iniciais podem ser silenciosos ou confundidos com outras condições menos graves. Por isso, a conscientização sobre os fatores de risco, como alimentação inadequada, sedentarismo e histórico familiar, além da realização de exames regulares, é essencial. Especialistas alertam que, quando diagnosticado precocemente, as chances de tratamento eficaz e cura aumentam significativamente.
De acordo com o médico gastroenterologista e especialista em cirurgia do aparelho digestivo e endoscopia digestiva, Carlos Alberto Magalhães Castilla, a campanha tem abrangência nacional e é apoiada por entidades médicas representativas das especialidades que tratam das doenças do aparelho digestivo.

Dados
O câncer colorretal consolida-se como uma das maiores preocupações de saúde pública no Brasil. Segundo projeções do Instituto Nacional do Câncer (Inca), a doença deve atingir mais de 53 mil pessoas em 2026. Excluindo os tumores de pele não melanoma, este já é o segundo tipo de câncer mais frequente no país, atingindo homens e mulheres de forma equilibrada e causando cerca de 20 mil óbitos por ano.
Um levantamento do A.C.Camargo Cancer Center revela um cenário preocupante: o avanço contínuo da enfermidade no país ao longo das últimas duas décadas, com crescimento significativo entre as gerações mais jovens. Ao analisar mais de 5,5 mil diagnósticos registrados entre 2000 e 2023, os pesquisadores identificaram que o grupo de 30 a 39 anos é o mais afetado pela tendência, com uma alta anual média de 8,5%.

Carlos Alberto Magalhães Castilla, médico gastroenterologista

Principais causas
Segundo Castilla, o desenvolvimento da doença está fortemente ligado a hábitos de vida e predisposições genéticas. Entre os principais fatores de risco estão:

  • Genética e hereditariedade: histórico familiar de pólipos ou câncer colorretal aumenta a necessidade de rastreamento precoce;
  • Sedentarismo: a falta de atividade física regular contribui para o surgimento de diversas neoplasias;
  • Obesidade: o excesso de gordura corporal gera um estado inflamatório crônico que favorece o crescimento de tumores;
  • Padrão alimentar: consumo elevado de alimentos ultraprocessados, como embutidos, conservas e industrializados com excesso de corantes;
  • Tabagismo e etilismo: o consumo de tabaco e a ingestão frequente de bebidas alcoólicas também aumentam o risco da doença.

Exames
O especialista ressalta que o rastreamento preventivo é indispensável para homens e mulheres a partir dos 45 anos. De acordo com Castilla, as ferramentas diagnósticas variam conforme a necessidade clínica, mas a precisão é o fator determinante. “Os exames utilizados para rastrear o câncer de cólon são pesquisa de sangue oculto nas fezes e a colonoscopia, que é o exame endoscópico para avaliar a mucosa do intestino e reto”, recomenda.
Para pessoas com histórico familiar da doença, a vigilância deve começar mais cedo e ser ainda mais rigorosa. A orientação médica é que o rastreamento se inicie aos 40 anos ou, em alguns casos, dez anos antes da idade em que o familiar foi diagnosticado.
O médico explica que a colonoscopia é o exame de escolha como método mais eficaz para o diagnóstico precoce. “Este exame endoscópico, se popularizou em virtude de seus benefícios e também pelos protocolos de segurança que se desenvolveram nos últimos anos, facilitando a sua realização com eficácia, conforto e precisão. Estes novos métodos de realização permitiram a execução de novos exames com maior aceitação da população”, frisa.

Sintomas
Embora a prevenção seja fundamental, é importante estar atento aos sinais que podem indicar a presença da doença. Entre os principais sintomas estão:

  • Sangramento ao evacuar;
  • Alteração do hábito intestinal;
  • Perda de apetite;
  • Perda de peso.

Diagnóstico precoce
Identificar a doença em estágios iniciais é o principal objetivo das campanhas de rastreamento, já que o prognóstico é significativamente melhor quando o tratamento começa cedo.
Segundo Castilla, as chances de cura são altas nesses casos. “O diagnóstico precoce do câncer colorretal possibilita a cura de até 90% dos pacientes”, menciona.

Tipos
Embora o câncer colorretal seja frequentemente tratado como uma doença única, ele pode se manifestar em diferentes tipos de tumores, dependendo das células de origem.

  • Adenocarcinomas (o tipo mais comum): representam a maioria dos casos e surgem nas glândulas responsáveis pela produção do muco que lubrifica o cólon e o reto. Alguns subtipos, como o mucinoso ou o de células em anel de sinete, podem apresentar comportamento mais agressivo;
  • Tumores carcinoides: têm origem em células especializadas na produção de hormônios no trato intestinal;
  • Linfomas: embora sejam mais conhecidos por afetarem os linfonodos, também podem surgir no tecido linfático presente nas paredes do cólon e do reto;
  • GIST (tumores estromais gastrointestinais): começam nas células nervosas que controlam os movimentos do intestino. São mais frequentes no estômago e raros na região colorretal;
  • Sarcomas: tumores que se iniciam em tecidos estruturais, como vasos sanguíneos ou músculos da parede intestinal. São extremamente incomuns nessa localização.

Tratamentos
O sucesso no combate ao câncer de intestino está diretamente ligado à rapidez da intervenção. Segundo diretrizes das sociedades médicas que lideram a campanha, a cura é uma realidade, principalmente quando o tratamento começa nas fases iniciais.
Nesses casos, a principal estratégia é a cirurgia. Em cerca de 95% dos diagnósticos precoces, o procedimento permite a remoção completa do segmento afetado do cólon ou do reto, além dos gânglios linfáticos próximos, eliminando o foco da doença.
Quando o tumor é identificado ainda na forma de pólipo durante a colonoscopia, a retirada pode ser feita no próprio exame, evitando intervenções mais invasivas. “Por meio da colonoscopia, podemos realizar ressecções endoscópicas, cirurgias minimamente invasivas, como polipectomias, mucosectomias e dissecações submucosas (ESD). O intuito é a retirada de lesões precoces para obter a cura sem a necessidade de cirurgia tradicional. Esta tecnologia, baseada na precocidade do diagnóstico, aumenta a perspectiva de cura, além de proporcionar melhor qualidade e maior tempo de vida”, finaliza o médico.