Bento Gonçalves é conhecida nacionalmente pela cultura do vinho, pela herança italiana e por grandes eventos culturais. Mas a cidade também abriga uma cena musical diversa e pulsante. Para mostrar essa pluralidade sonora, começa hoje uma série especial de reportagens sobre os principais gêneros musicais presentes no município.

A primeira matéria mergulha no universo do pop, estilo marcado pela mistura de influências, pela conexão direta com o público e pela capacidade de atravessar gerações. Em Bento Gonçalves e região, artistas como Farina Brothers, Rodrigo Soltton e Tati Freitas representam essa vertente musical com trajetórias distintas, mas com um ponto em comum: transformar o palco em espaço de emoção, celebração e identidade cultural.

A série continua no próximo sábado, quando a reportagem irá abordar a cena do rock presente na cidade.

Pop que nasce em família

A banda Farina Brothers tem uma origem que mistura música, família e tradição. O grupo surgiu em 2010 a partir da união dos irmãos Diogo, Cassiano e Camila Farina, que já cantavam juntos desde a infância.

Segundo Cassiano Farina, integrante do grupo, o projeto nasceu de forma natural e evoluiu aos poucos. “A Farina Brothers surgiu quando decidimos agregar outros instrumentos à formação que já existia desde quando éramos crianças. No início tocávamos em bares e pubs e, com o passar dos anos, fomos migrando para o mercado de eventos corporativos, sociais e feiras”, explica.

Farina Brothers foi formada em 2010

A transformação de um trio acústico para uma banda completa, com bateria e teclado, foi um momento decisivo na trajetória do grupo. “Essa mudança foi a grande virada de chave e abriu muitas portas. Somado a isso, acredito que alguns shows especiais, como várias edições da Fenavinho, ExpoBento, e outras feiras regionais fizeram com que a banda atingisse um público maior em toda a região da Serra Gaúcha”, afirma.

Identidade

Musicalmente, o grupo sempre transitou entre estilos. No início, as referências vinham de nomes da MPB e do rock, como Elis Regina, Rita Lee, Marisa Monte, Secos e Molhados, Mutantes, além de artistas internacionais como The Beatles e Elvis Presley. A influência da cultura italiana também esteve presente, com destaque para Laura Pausini.

Com o tempo, novas sonoridades passaram a fazer parte da identidade musical da banda. “Outros artistas foram inspirando, como ABBA, Cyndi Lauper, Dua Lipa e Depeche Mode”, conta Farina.

A identidade partiu, principalmente, das coisas que gostam de fazer, da influência do pai (MPB e cultura italiana) e dos projetos anteriores, como por exemplo, a banda Blackbirds, com seu rock autoral rural. “A partir daí fomos estabelecendo uma conexão musical diferente do que acontecia na cena musical que tínhamos no início do grupo, o que por um bom tempo causava uma certa estranheza (como apostar em canções de MPB, italiana, e muito vocal), mas que com o tempo nos conferiu uma identidade e assinatura próprias”, evidencia.

Mesmo com tantas referências, o grupo evita rótulos. “Não temos essa preocupação de nos encaixarmos num rótulo específico. Gostamos de boas canções, com melodias, de todas as épocas, músicas dançantes e que levem alegria e descontração ao público. Nosso grande objetivo é levar diversão às pessoas”, frisa.

O desafio, segundo ele, é se estabelecer num cenário tão competitivo. “Com tantos músicos e bandas excelentes como é a cena musical da Serra Gaúcha. Nós acreditamos que esse ótimo nível é bom para o público que pode apreciar grandes artistas que são ‘cria’ da terra”, salienta.

Um diferencial da banda é a força vocal. “Um dos pontos é sermos uma banda formada por três irmãos e isso representa em termos de afinidade musical, uma ligação que vem desde que nascemos em Nova Prata. Destacamos também o fato de darmos muito destaque aos vocais, já que os cinco integrantes cantam e isso acaba sendo importante”, ressalta.

O futuro

O grupo ainda não lançou canções autorais, apesar de ter composições próprias com outros projetos musicais. “Nós temos sim um desejo de materializar nossas vivências, experiências e sonoridades em músicas autorais. Um dia isso vai acontecer de forma natural”, avalia, agradecendo de ano após ano manterem o público e expandir para as gerações mais novas. “Temos tocado em formaturas de filhos de pessoas que iam aos nossos shows quando ainda eram solteiros. É a parte legal de ter uma banda com longevidade”, diz.

Farina reforça que buscam evoluir sempre. “Crescer como banda, e isso inclui melhorarmos como músicos, cada vez mais o show, o repertório e a entrega em cada trabalho que fizemos. Também pretendemos lançar sim músicas nossas, que deem vazão a tudo que vivenciamos na música em todos esses anos de trajetória. É claro que nosso objetivo principal é manter a nossa essência, que é levar diversão e música boa a todos os lugares”, pontua.

Após mais de uma década de estrada, a banda segue com planos de crescimento e novos projetos. “Para 2026, a meta é consolidar ainda mais nossa presença no mercado de eventos e ampliar nossa atuação para cidades onde ainda não nos apresentamos, levando o show para novos públicos e novas regiões. Também queremos investir na produção de material autoral e em conteúdos audiovisuais, fortalecendo a marca da banda nas plataformas digitais. Acima de tudo, queremos seguir crescendo com consistência, mantendo nossa identidade e entregando espetáculos cada vez mais profissionais e envolventes”, projeta.

O espetáculo do piano

Se a Farina Brothers representa o pop em formato de banda, o músico Rodrigo Soltton construiu sua identidade artística com um elemento central: o piano.

Nascido em Novo Hamburgo em 1979, Rodrigo iniciou sua relação com a música ainda na infância. “Ganhei um cavaquinho do meu avô Walter quando era criança. Foi o primeiro instrumento da minha vida e despertou algo muito especial em mim”, pondera.

A formação musical se aprofundou quando ele entrou para o Instituto dos Meninos Cantores de Novo Hamburgo, os tradicionais Canarinhos. “Durante oito anos tive uma formação muito intensa. Estudei piano, violino, cello, flauta, teoria musical, composição, regência e canto coral”, reitera.

Rodrigo Soltton é natural de Novo Hamburgo

Com o tempo, Bento Gonçalves se tornou o centro de sua carreira. A ligação com a cultura italiana da região também influenciou o repertório. “Minha mãe é descendente de italianos e essa cultura sempre esteve muito presente na minha família. Quando comecei a trabalhar em Bento Gonçalves, percebi que essas canções criavam uma conexão muito forte com o público”, avalia.

Assim, clássicos italianos passaram a fazer parte do espetáculo, ao lado de músicas internacionais e brasileiras.

Rodrigo define hoje sua identidade artística como a de um “pianista-showman”. “Meu espetáculo mistura performance musical, interpretação, energia de palco e interação com o público. O piano está sempre no centro da experiência”, revela.

Por isso que suas influências condizem com isso. “Sempre admirei artistas que conseguem transformar um show em uma experiência completa. Um dos nomes que mais me influenciou foi Elton John. A maneira como ele cria uma conexão direta com o público sempre me impressionou muito. Também fui muito influenciado por artistas como Beatles, Elvis Presley, U2, Eros Ramazzotti, Tim Maia e Jorge Ben Jor. Todos eles têm algo em comum: conseguem unir qualidade musical, emoção e presença de palco. Isso sempre me inspirou a construir um espetáculo que vai além da música e se torna uma experiência”, salienta.

Ao longo da carreira, ele também participou de projetos de grande porte, como a trilha sonora do espetáculo A História Cultural do Vinho, da Fenavinho, e da Ópera do Vinho, produção que reuniu orquestra, banda, coral e centenas de figurantes.

As apresentações também ultrapassaram fronteiras. “Já tive a alegria de levar minha música para países como Portugal, Itália, Uruguai, Paraguai e Angola”, afirma.

Um dos momentos mais marcantes da carreira surgiu durante a pandemia, com o projeto Música a Domicílio. “Colocamos um piano em cima de um caminhão e percorremos as ruas das cidades levando música diretamente para as pessoas. Foram mais de cem apresentações e foi um momento muito emocionante”, conta.

Hoje, Soltton segue desenvolvendo novos projetos, incluindo a banda SIR e espetáculos que combinam música, performance e experiências visuais. “Continuar levando música para as pessoas sempre será o meu maior objetivo. Também tenho o desejo de levar minha música para cada vez mais lugares dentro e fora do Brasil. A música tem um poder incrível de unir as pessoas, e continuar criando experiências que despertem emoção e alegria é algo que me motiva todos os dias”, finaliza o cantor.

Conectando gerações

A cantora Tati Freitas também integra esse cenário musical, levando ao público apresentações que transitam entre gêneros. Com presença constante em eventos, bares e festivais da região, ela representa uma geração de artistas locais que utilizam repertórios versáteis e grande proximidade com o público como marca do trabalho.

Fluminense natural de Barra Mansa, interior do Rio de Janeiro, ela encontrou sua verdadeira identidade musical na Serra Gaúcha, onde vive atualmente, na cidade de Garibaldi. A história de Tati é repleta de paixão pela música e, principalmente, pela capacidade de reinvenção. Tati comanda seu próprio projeto, o contagiante “Balada da Tati”, que é sucesso na região.

Tati Freitas foi entrevistada no Podcast do Jornal Semanário

Ela conta sobre seu primeiro contato com a música. “Fui da Igreja evangélica dos 12 até os 19 anos, onde montei minha primeira banda. A música gospel foi um berço para mim, onde aprendi muito”, lembra Tati.
Após esse início, ela se juntou à banda Marauê e, ao lado de seu ex-marido, viajou pelo Brasil, apresentando-se em grandes palcos, chegando até a participar de programas de TV como o “Caldeirão do Huck”. “No entanto, com a ascensão do sertanejo em 2009, a música alternativa enfrentou desafios, o que levou a banda a novos rumos. Quando o pai do meu marido ficou doente, a gente veio de mudança para o Rio Grande do Sul”, conta.

Foi nessa mudança que a vida de Tati passou por uma virada. Ao se separar, ela escolheu ficar na Serra Gaúcha, fascinada pela qualidade de vida que encontrou na região. “Aqui eu consigo dar para minha filha o que eu não teria no Rio de Janeiro. A segurança, a educação, a tranquilidade. Não tem comparação”, conta.

Garibaldi tornou-se seu lar, e foi onde ela trilhou sua carreira musical solo. “Comecei do zero, fui construindo meu trabalho aos pouquinhos em busca de quem eu era”, finaliza.