Há mais de cinco décadas, Vânia Kratz Mendes faz parte da história da Ação Social São Roque. Voluntária desde os 17 anos e presidente da entidade há 20 anos, acompanhou a transformação da instituição sem perder o princípio que aprendeu ainda na infância: servir ao próximo. “Eu nunca soube dissociar fé e ação. Desde criança aprendi que aquilo que a gente tem deve ser compartilhado com quem tem menos. A vivência do social sempre foi uma extensão da fé”, afirma.
Antes da presidência

A relação de Vânia com a entidade começou muito antes de ocupar a presidência. Filha de Valto Kratz (in memoriam) e Nilza Côvolo Kratz (in memoriam), ela cresceu acompanhando o trabalho voluntário realizado pelos pais junto às famílias vulneráveis.
Quando Nilza assumiu a presidência da Ação Social São Roque, em 1975, e Valto a vice-presidência, Vânia tinha 17 anos e passou a atuar como voluntária. O contato direto com as famílias, as visitas domiciliares e a rotina da entidade fizeram com que permanecesse no trabalho social pelas décadas seguintes.
Após o falecimento de Nilza, em 2006, a presidência da Ação Social São Roque ficou vaga. Em assembleia realizada pela entidade, o nome de Vânia foi indicado para assumir o cargo. A escolha ocorreu após quase 30 anos de atuação voluntária, período em que acompanhou de perto o funcionamento da instituição. “Eu já ajudava na parte administrativa da entidade. As pessoas entendiam que eu conhecia toda a infraestrutura e que poderia dar continuidade ao trabalho”, recorda.
O aprendizado
Ainda jovem, durante uma visita com a mãe, Vânia recebeu um café servido em uma xícara lascada. Mesmo com dificuldade, tomou a bebida e ouviu uma lição que nunca esqueceu. “Minha mãe me disse que aquela senhora provavelmente estava oferecendo o pouco que tinha. Se eu não aceitasse aquele café, como aquela família iria confiar na gente? Foi ali que aprendi que acolher também é saber receber”, recorda.
“A gente precisa ouvir as pessoas antes de querer oferecer qualquer solução. Quando alguém consegue colocar para fora aquilo que está vivendo, muitas vezes já começa a encontrar um caminho”, reflete.
O mesmo compromisso
Hoje, além de moradores de Bento Gonçalves, a instituição acolhe migrantes e pessoas que chegam à cidade em busca de oportunidades. Ela observa que, assim como os primeiros imigrantes que ajudaram a construir a região, quem chega atualmente também busca recomeçar. “Quando alguém vem de fora, geralmente chega cheio de sonhos e disposto a construir uma nova vida. Às vezes demora um pouco para conseguir se estabelecer. Nós estamos aqui para oferecer esse apoio inicial”, pontua.
Para ela, esse acolhimento exige respeito e ausência de julgamentos. “Precisamos seguir acolhendo quem chega sem preconceitos ou estereótipos”, ressalta.
Educação e voluntariado
Paralelamente à atuação na entidade, Vânia construiu uma trajetória na educação. Graduada em Letras pela FERVI, atuou como professora, vice-diretora e diretora em escolas estaduais, municipais e particulares. Na década de 1990, tornou-se mãe de Leonardo e Marcelo e seguiu conciliando a vida familiar, a carreira na educação e o trabalho voluntário iniciado ainda na juventude. Em 2018, foi cedida pela Prefeitura de Bento Gonçalves para atuar exclusivamente na Ação Social São Roque, encerrando a rotina em sala de aula.

Para ela, a sala de aula sempre foi um espaço de aprendizado coletivo e de formação humana. “A escola ensina que ninguém sabe tudo. A gente aprende junto com os alunos e com as famílias”, afirma.
Ao refletir sobre a educação, Vânia avalia que as oportunidades de acesso ao ensino superior são maiores atualmente, mas acredita que ainda é preciso incentivar os jovens a permanecerem estudando. “Nunca foi tão fácil ter acesso à educação, especialmente por meio do Enem. Quanto mais conhecimento a pessoa tiver, mais ferramentas terá para construir o seu futuro”, avalia.
Ela também defende um maior investimento nas escolas e considera que educação, saúde e assistência social precisam atuar de forma integrada no atendimento às famílias. “Nós somos uma coisa só. Não dá para separar a mente, o corpo, a parte espiritual e a parte social”, salienta.
O desafio de manter
Se a missão da entidade permanece a mesma, um dos maiores impasses mudou ao longo dos anos: encontrar pessoas que consigam manter um trabalho voluntário contínuo.
Vânia recorda que, durante a pandemia, cerca de 40 voluntários participavam das atividades da entidade, divididos em dois grupos que se reuniam à noite. Hoje, seis integrantes daquele grupo permanecem atuando regularmente. “Eu não acredito que tenha diminuído a vontade de ajudar. O que mudou foi o tempo disponível das pessoas. Hoje parece que os dias ficaram menores”, avalia.
Segundo Vânia, além do grupo que atua regularmente, a Ação Social São Roque também conta com empresas, grupos organizados e voluntários que se mobilizam em campanhas e ações específicas.
Do bairro para o mundo
O trabalho voluntário e a atuação na Igreja Metodista a levaram a participar de encontros nacionais e internacionais, onde representou comunidades brasileiras e atuou como tradutora e intérprete. “Fazer o bem vai fazendo bem. Quando você vai semeando coisas boas, não tem como colher aquilo que não é bom”, reflete.
Reconhecida por quem convive
A assistente social Vanusa Rodrigues Posso acompanha de perto o trabalho desenvolvido por Vânia desde que passou a integrar a equipe da entidade, em outubro de 2023. As duas, no entanto, se conhecem desde 2009, quando Vanusa era estagiária de Serviço Social no CRAS II. “A Vânia sempre foi uma pessoa muito humana, preocupada em ajudar quem estava ao seu redor. Lembro que, quando eu ainda era estudante e tinha poucas condições financeiras, ela pagou minha inscrição para um concurso público. É alguém que, muitas vezes, tira do que é seu para ajudar o outro”, conta.
Para Vanusa, essa postura se reflete diariamente na condução da entidade. “Ela acolhe as pessoas com respeito, escuta e dedicação. Quem convive com a Vânia percebe que esse compromisso com o cuidado faz parte da maneira como ela vive”, conclui.
Ao completar 20 anos na presidência, Vânia afirma que o desafio continua sendo preparar a entidade para atender às necessidades que surgem com o passar do tempo. Entre os projetos estão a ampliação das oficinas, novos espaços de convivência, o fortalecimento das ações voltadas às famílias e a possibilidade de oferecer alimentação pronta à comunidade.

Os próximos anos
Mesmo planejando a aposentadoria da carreira na educação, ela garante que não pretende deixar o trabalho voluntário. Pelo contrário, diz que deseja dedicar ainda mais tempo às causas sociais, especialmente às iniciativas voltadas ao acolhimento de migrantes e ao fortalecimento das ações comunitárias. “Nestes anos todos, a gente procurou estar aberto às necessidades das pessoas. O importante é olhar para o futuro sem ficar preso apenas ao que já foi feito”, afirma.
Para Vânia, a aposentadoria representa uma nova etapa para ampliar a atuação em projetos sociais. “Eu quero continuar servindo. Enquanto eu puder ajudar alguém, é isso que eu pretendo fazer”, projeta.





