Crédito foto: Bruno zulian

Um equipamento desenvolvido pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), promete avançar na reabilitação de pacientes em estado grave. O dispositivo, batizado de Autofisio 500, foi projetado para auxiliar, de forma automatizada, a movimentação dos membros inferiores de pessoas acamadas, um procedimento que, até então, dependia de execução manual. A inovação busca ampliar o conforto e o bem-estar durante o tratamento. Segundo Fernanda Trubian, fisioterapeuta e Doutoranda em Ciências da Saúde, que participou do desenvolvimento do aparelho, o estímulo contribui para aumentar as chances de recuperação.
Segundo ela, a ideia surgiu a partir da experiência clínica do médico Alexandre Avino no ambiente hospitalar, onde identificou uma demanda recorrente relacionada à mobilização de pacientes com limitações motoras. A partir dessa vivência, evidenciou-se a necessidade de um recurso capaz de tornar o processo de reabilitação mais contínuo, padronizado e acessível.

Como funciona
Segundo Fernanda, na prática, o equipamento realiza o que é chamado de mobilização passiva. “Promove o movimento do membro inferior sem que o paciente precise fazer esforço ativo. Ele conduz essa mobilização de forma controlada, contínua e segura, simulando um padrão fisiológico, o que pode auxiliar na manutenção da mobilidade articular, estímulo circulatório e suporte ao processo de reabilitação”, conta.

Fernanda Trubian, fisioterapeuta e Doutoranda em Ciências da Saúde


Ela ressalta que o equipamento ainda se encontra em fase de pesquisa científica. “Com base no seu princípio de mobilização passiva, a expectativa é que ele possa beneficiar pacientes com limitações de mobilidade, especialmente aqueles acamados, hospitalizados ou com sequelas motoras decorrentes de condições neurológicas, como AVC, traumatismos ou outras doenças que comprometam os movimentos. Por reproduzir um gesto tradicionalmente realizado de forma manual pelo fisioterapeuta, o dispositivo apresenta potencial de aplicação em diferentes contextos clínicos, sempre mediante avaliação e indicação de um profissional habilitado”, relata.
Fernanda menciona que a forma como a mobilização automatizada dos membros inferiores contribui para a reabilitação neurológica é um dos principais pontos investigados na pesquisa. “Acreditamos que o movimento automatizado e repetitivo dos membros inferiores possa contribuir para estímulos motores importantes, favorecendo a mobilidade, a circulação, o padrão de movimento e a funcionalidade do paciente.
Nos dados preliminares, já observamos sinais positivos, como melhora na marcha e no desempenho funcional. No entanto, os testes ainda estão em andamento, e os resultados finais dependerão da conclusão de toda a pesquisa”, frisa.

Diferença entre métodos
A fisioterapeuta explica que o princípio do movimento é o mesmo, o que difere é que com o equipamento é possível manter uma amplitude de execução padronizada em velocidade constante e por períodos mais prolongados com grande repetibilidade. “Isso proporciona maior consistência na execução, algo que manualmente pode variar ao longo do tempo conforme fatores como fadiga ou pequenas adaptações naturais do terapeuta. Dessa forma, o equipamento surge como um recurso complementar para otimizar o atendimento fisioterapêutico”, afirma.

Utilização
Como mencionado anteriormente, ele está sendo aplicado em forma de testes. “O objetivo dessa etapa é avaliar de forma criteriosa aspectos como os possíveis benefícios clínicos, para que futuramente ele possa avançar para aplicações mais amplas em ambientes assistenciais, como hospitais e clínicas”, explica.
A fisioterapeuta afirma que os resultados são de forma preliminar, mas até o momento, foi possível observar efeitos positivos, especialmente melhora na marcha, além de ganhos funcionais. “No entanto, é importante reforçar que os dados finais dependerão da conclusão completa do estudo e da análise de todos os participantes”, salienta.
Fernanda afirma que de forma geral não há contraindicações ou limitações para o uso do equipamento seguindo os mesmos critérios clínicos já utilizados para a mobilização passiva convencional. Segundo ela, o fato de o movimento ser automatizado não altera, por si só, as indicações e contra indicações já reconhecidas na prática fisioterapêutica. Cada caso deverá ser avaliado individualmente pelo profissional responsável.

Desenvolvimento
O Autofisio 500 foi desenvolvido na Universidade de Caxias do Sul, por meio da UCSInova, em parceria com a empresa Zextec e com apoio financeiro da FINEP. Para viabilizar o projeto, foi estruturada uma equipe multidisciplinar, reunindo médico, fisioterapeutas e engenheiros, responsável por conduzir todas as etapas do desenvolvimento.
Essa integração entre diferentes áreas foi determinante para a criação de um equipamento tecnicamente seguro, funcional e alinhado às necessidades reais da prática clínica. Desde o início, o objetivo foi transformar conhecimento científico em uma solução aplicável, com potencial de uso em hospitais, clínicas e outros contextos de reabilitação. “Existe a perspectiva de ampliar o acesso ao equipamento e avançar para a comercialização em maior escala. Neste momento, o aparelho está passando pelas etapas necessárias de testes e processos regulatórios junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e ao Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO)”, salienta Fernanda.

Representação
Fernanda frisa que esse tipo de inovação representa uma nova forma de olhar para a reabilitação. “A tecnologia não substitui o fisioterapeuta, mas amplia possibilidades de cuidado, oferecendo recursos que podem tornar os atendimentos mais precisos, padronizados e acessíveis. No contexto brasileiro, isso é especialmente relevante, porque soluções desenvolvidas no próprio país podem ser mais viáveis economicamente e mais alinhadas às necessidades reais dos nossos serviços de saúde. Além disso, estimula a integração entre ciência, universidade e mercado, fortalecendo a fisioterapia baseada em evidências e abrindo caminhos para uma reabilitação cada vez mais moderna e eficiente”, conclui.