Quarta-feira, 12 de Agosto de 2026

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“Sem mobilidade não há acesso ao emprego”, afirma presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Bento

Na edição de sábado, o Jornal Semanário apresentou a primeira parte da entrevista com a presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Bento Gonçalves (SEC-BG), Orildes Maria Lottici, que abordou os desafios da representação sindical, a importância da negociação coletiva, a falta de mão de obra e a defesa de uma jornada de trabalho mais equilibrada. Nesta quarta-feira, a entrevista avança para temas que ultrapassam as relações entre empregados e empregadores e alcançam diretamente o desenvolvimento econômico e social da região, incluindo mobilidade urbana, infraestrutura e a chegada de novos empreendimentos.

Sindicato apoiou seleção de trabalhadores para a Havan

A instalação da unidade da loja, localizada na Garibaldina, contou com o apoio do SEC-BG durante o processo de recrutamento. A entidade disponibilizou sua sede em Bento Gonçalves e o espaço em Garibaldi para que candidatos entregassem currículos e participassem das entrevistas realizadas pela empresa, sem interferência na seleção.

Segundo Orildes, a parceria começou ainda durante a implantação do empreendimento. A Havan buscava selecionar cerca de 200 trabalhadores e mais de duzentos candidatos passaram pelos espaços disponibilizados pelo sindicato. Até a abertura da loja, aproximadamente 130 funcionários haviam sido selecionados. “Nós fomos muito parceiros com a empresa, abrindo as nossas portas para que os candidatos pudessem participar da seleção. Entendemos que o sindicato cumpriu um papel importante nessa parceria”, afirma.

As negociações entre a entidade e a empresa começaram em fevereiro de 2026 e resultaram em um acordo coletivo firmado em julho. Para a dirigente, a localização do empreendimento é um dos fatores que ajudam a explicar por que todas as vagas inicialmente previstas não foram preenchidas. “Nós não temos transporte público regular que passe por ali e não temos uma estrutura no entorno para que o empregado possa sair de casa às 8 horas da manhã e sair às 22 horas do trabalho, podendo se alimentar e descansar”, avalia.

Entre os resultados do acordo está a garantia de transporte para os empregados que precisam se deslocar até o empreendimento. “A gente também tem buscado negociar a garantia de transporte, que é o que conseguimos no acordo coletivo, e uma melhor proteção em relação aos empregados que precisam se deslocar para empreendimentos distantes,”, explica.

Transporte público e empregabilidade

A experiência com a Havan serve como exemplo para uma discussão mais ampla sobre a falta de mão de obra. Para Orildes, não é possível analisar a dificuldade de contratação sem considerar as condições que o trabalhador encontra para chegar ao emprego.

Um episódio recente reforça a preocupação. A presidente relata ter conversado com um trabalhador que mora no distrito de São Valentim e enfrenta restrições de horários no transporte coletivo. “Ele me disse: ‘Para eu sair do meu bairro tem um horário de ônibus às 8 horas da manhã e depois eu só vou ter às 14 horas’. Como é que eu chego até o local de trabalho se não existem políticas públicas?”, questiona.

A partir dessa realidade, a dirigente defende que os sindicatos sejam chamados para participar de debates sobre o transporte público e o desenvolvimento do município. “As entidades sindicais não têm sido chamadas para discutir projetos governamentais de cidade, aqueles que geram circulação, movimentação e investimentos no nosso município”, observa.

Presidente defende diálogo entre setores

A falta de participação nas discussões públicas está inserida, na avaliação da presidente, em um cenário no qual representantes dos trabalhadores ainda são associados a posições políticas específicas. Orildes critica essa classificação e afirma que o sindicato não atua para se opor ao empresariado. “Taxam todos os representantes dos trabalhadores como esquerdistas e querem atrapalhar o andamento do município, do empreendedorismo. Nós, aqui do SEC-BG, não temos essa visão. Defendemos políticas governamentais municipais, estaduais e federais que sejam investimentos para a nossa cidade e para que o nosso trabalhador tenha mais potencial de renda”, afirma.

A dirigente também questiona a falta de articulação entre empresários e trabalhadores na discussão de medidas econômicas que afetam diretamente o setor produtivo. “O empresariado tanto diz que os impostos são altíssimos. Quando é que chamou a classe que representa os trabalhadores para discutir políticas e projetos de enfrentamento diante dos governos, de redução da taxa de juros, de redução do encargo da folha de pagamento e de redução de impostos sobre produtos que circulam pela nossa região?”, questiona.

Para ela, as diferenças de posicionamento não deveriam impedir a construção conjunta de propostas. O diálogo precisa substituir a lógica de enfrentamento entre grupos com interesses distintos. “Há muito o que se discutir e, para isso, a gente precisa abrir os nossos olhos e as mentes de que o diálogo é necessário. Precisamos mudar de opinião e não querer combater quem pensa diferente de você”, defende.

Bento cresce, mas enfrenta desafios estruturais

A relação de Orildes com o município ultrapassa a atuação profissional. Moradora do município desde os 15 anos, ela afirma considerar a cidade como seu lugar e já recebeu o título de cidadã bento-gonçalvense. “Bento Gonçalves é a cidade do meu coração. É uma cidade que eu adotei como minha desde minha adolescência”, afirma.

A dirigente reconhece a força econômica e empreendedora do município, mas aponta que o crescimento populacional não foi acompanhado na mesma velocidade pela estrutura pública. “É uma cidade próspera, com pessoas que veem no empreendedorismo uma capacidade muito grande, com empresas grandes e um desenvolvimento que avança rápido. Mas ainda vejo que, apesar de ser receptiva, não está preparada para a quantidade de pessoas que chegam à cidade”, avalia.

Entre os pontos que considera insuficientes estão vagas em creches e escolas, atendimento de saúde e mobilidade urbana. A combinação desses fatores, segundo ela, produz desigualdades no acesso aos serviços. “Por isso vejo que ainda é socialmente excludente”, afirma.

As preocupações se estendem para além do município. Na atuação sindical, Orildes aponta justiça social, paridade e equidade como pautas permanentes, incluindo questões relacionadas à valorização das mulheres e à igualdade salarial. “São pautas constantes de município, Estado e de país”, ressalta.

A presidente também defende que políticas sociais sejam formuladas para alcançar a população de maneira ampla. Na avaliação dela, investimentos públicos precisam ser executados de acordo com os objetivos para os quais foram destinados. “O que a gente não pode desprezar é que, historicamente, vivemos num país injusto. Fala-se em políticas sociais, mas não se cumprem políticas sociais que beneficiem não só a população de baixa renda, mas a população como um todo”, argumenta.

Atividade estadual e nacional amplia representação

A atuação de Orildes não se limita ao SEC-BG. A dirigente também ocupa funções em entidades de representação sindical nos âmbitos estadual e nacional. Na União Geral dos Trabalhadores (UGT) Nacional, é diretora de Políticas Sociais, participando de discussões e projetos relacionados à área em âmbito nacional. Na UGT-RS, exerce a função de tesoureira e atua em debates voltados à realidade do Estado.

A experiência também se estende ao SESC-RS, onde ocupa uma cadeira no conselho da instituição desde 2012. Os conselhos do Sistema possuem composição tripartite e são responsáveis por decisões relacionadas à gestão, investimentos e prestação de contas.

Embora a entidade tenha atualmente cerca de 200 associados, Orildes considera que o número mais relevante para dimensionar a atuação do SEC-BG é o total de trabalhadores abrangidos pela representação sindical. “Juntando as bases de atuação, temos mais de 8 mil trabalhadores”, afirma. A presidente explica que essa diferença entre associados e trabalhadores representados está diretamente relacionada à abrangência das negociações coletivas, cujas conquistas não ficam restritas aos profissionais filiados.

E ressalta o papel da entidade, valorizando a contribuição dos comerciários para a economia local: “O sindicato dos empregados do comércio tem muito orgulho de ser a entidade que representa as pessoas que fazem o comércio acontecer”, conclui.

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