Durante muitos anos, moradores batalham para melhorar ainda mais o bairro que escolheram para residir. O avanço é visível no local, com empreendimentos imobiliários e gastronômicos
A religiosidade e o espírito comunitário sempre estiveram presentes no bairro São Bento. A Praça Achyles Mincarone, onde se encontra a igreja da comunidade, é um dos espaços mais marcantes do local e, também, um ponto turístico de Bento Gonçalves. Além disso, moradores observam a evolução da região, que cada vez mais está se verticalizando e comercializando-se.
Igreja e comunidade
Em 30 de outubro de 1982 foi lançada a pedra fundamental da igreja. A construção foi projetada em formato de pipa pela arquiteta Francesca Fenochio e erguida pela equipe do construtor Silvino Olivotto, como uma forma de homenagear aos imigrantes italianos que colonizaram a região da Serra Gaúcha e sua principal atividade, a vinicultura. Naquela época, o morador Getúlio Stefani organizou um almoço para reverter em recursos para as obras.
O aposentado José Lírio Panizzi fez parte da diretoria da comunidade do bairro por alguns anos e esteve presente durante um período em que a praça se encontrava abandonada. Ele conta que todas as melhorias feitas ao longo do tempo foram em conjunto com moradores e apoiadores. “Vim morar na localidade em 1990 e participava das missas que aconteciam na igreja. Dez anos depois, me convocaram para fazer parte da direção, mais para o lado financeiro. Naquela época não tínhamos caixa e havia poucas condições, então resolvi pedir apoio de companheiros, um deles foi o colunista do Jornal Semanário, Itacyr Giocomello, que juntamente comigo e outras lideranças, lutou pela evolução do São Bento”, recorda.

A partir disso, a ideia era tornar o espaço um dos pontos turísticos da Capital Nacional do Vinho, renovando a praça e reativando a associação para trabalhar em conjunto com a prefeitura. “Primeiramente, o padre Wagner, responsável pelas missas daquele ano, nos pediu para colocarmos os bancos na igreja. Eu disse que em 90 dias iriámos inaugurá-los. Fizemos uma campanha e até o então prefeito Darcy Pozza ajudou fazendo a doação do primeiro banco”, ressalta.
Com isso, a missão de trazer o turismo para o bairro foi crescendo com a inauguração de uma loja para venda de objetos religiosos. “Além ser usada para melhorias na praça, o lucro também funcionou como forma de pagar a funcionária que atuava na ocasião. O local está aberto até hoje”, salienta.
Outro benefício conquistado foi a construção da guarita, obra concretizada a partir de muito empenho da comunidade. “Solicitamos ao prefeito e vice, alguns profissionais para atuarem nas cabines, fazendo a segurança neste espaço. Então a prefeitura liberou os guardas para nós, 24 horas por dia”, diz. Segundo Panizzi, os moradores se uniram para pagar a mensalidade dos agentes. “Inclusive, realizamos uma rifa que foi importante para também manter a organização do bairro. O Giacomello se encarregou de vender todos os números em empresas da cidade, com sucesso”, completa.
De acordo com Panizzi, teve um momento de preocupação há alguns anos, em que os bancos da praça eram soltos e, recorrentemente, estavam sendo arrastados para outros locais. “Algumas pessoas vandalizavam à noite, na manhã do dia seguinte tínhamos que retirar os objetos do meio da rua. O zelador da época nos propôs comprar materiais para prender no chão e não ter mais problemas”, conclui.
O avanço visto pelos moradores
A família da costureira Marlene Rosetti Boeira, 60 anos, chegou no São Bento quando era apenas um bebê. Conforme foi crescendo, o bairro evoluiu em grandes proporções, com prédios e comércios no local de várias casas de sua época de infância. “Naquele tempo, as crianças tinham mais espaço físico para brincar, pois existiam poucas residências. Todos os vizinhos se conheciam e sabiam quem era filho de quem, nos visitávamos e fazíamos o filó”, recorda.

Durante muitos anos, a tranquilidade e os diversos locais de lazer tomavam conta dos dias de Marlene e seus amigos. “Íamos, principalmente, brincar no mato do Sandrin, bem conhecido aqui da região. A gente se machucava e ia para casa sem reclamar, pois sabíamos que se falássemos algo para nossas mães, acabávamos levando uma ‘surra’ daquelas”, conta.
Além disso, havia o campo de aviação, localizado onde agora é o Clube São Bento e se estendia até a região atrás do Dall’Onder Grande Hotel. “Tinha um galpão onde ficavam os aviões pequenos, conhecidos como ‘teco teco’. Era muito divertido, eles passavam toda hora e corríamos pelo local”, revela.
De acordo com a costureira, agora não existe mais essa liberdade, pois tem diversos prédios e ruas mais movimentadas. “Onde tem um terreninho, que são poucos os vagos por aqui, compram para fazer edifícios. É o progresso e temos que nos acostumar com isso. Observo e, aparentemente, a nossa rua ainda conserva muito daquela época, é uma das poucas que ainda tem tranquilidade, além de ter várias casas antigas”, observa.
Com essa evolução, Marlene também analisa que em outras partes do bairro, as residências históricas já estão sendo demolidas. “Nos 59 anos que estou aqui, tudo está diferente e quase não reconheço mais a região. Agora está mudando muita a estrutura, se tornou empresarial e comercial, com várias lanchonetes, pizzarias e lugares voltados para o turismo”, completa.
Para ela, a segurança está boa em alguns locais, porém sempre há incidências na parte mais frequentada. “Vejo o policiamento passar, mas acredito que o foco deles seria mais na praça da Igreja São Bento, que normalmente é movimentada e acontecem alguns assaltos. Já aqui na minha rua é mais calmo e o pessoal se cuida. Quando a gente ouve barulhos, a vizinhança sai na janela para verificar”, afirma.
A saúde, segundo a moradora, possui um bom atendimento através do Sistema Único de Saúde (SUS). “Não tenho plano particular, então vou me consultar no ‘postinho’ da Fenavinho. Adoro ir lá e sou sempre muito bem recebida pelas gurias. Há dez anos que eu não realizava um check up, lá consegui todos os exames básicos”, finaliza.
Em 1983, quando a professora aposentada, Antônia Moresco Selbach, 80, veio morar no São Bento, já haviam várias casas e indústrias na região. Ela conta que apenas faltava calçamento nas ruas e que agora há muitas construções novas e prédios altos. “Não entendo como as pessoas vivem tão enclausuradas. Sempre residi em casa, nunca vou entender como a população consegue morar uma em cima da outra. Está tudo verticalizando”, diz. Um dos motivos de Antônia escolher este bairro, foi a possibilidade de construir seu lar em um local calmo. “Comprei um lote com meu marido e estamos aqui até hoje. Apesar de ter mudado muito, é ótimo estar neste endereço”, menciona.

A professora começou a lecionar em Vila Flores, depois fez parte do corpo letivo de algumas escolas de Bento Gonçalves. “Durante anos fui alfabetizadora, educadora da 1ª a 5ª série, do ginásio, de língua portuguesa e de italiano”, comenta. Durante uma visita ao educandário que estudava quando jovem, na qual brincava com seus amigos de um jogo de roda, onde ela cantava uma canção em italiano, viu que sua tradição havia sido passada de geração em geração. “Cheguei lá e era hora do recreio, de repente escutei frases conhecidas sendo entoadas, era uma letra comprida e difícil de se aprender. Fiquei muito feliz pela cultura da minha família ter permanecido na vida de outras pessoas”, agradece.
Conforme Antônia, a prefeitura está fazendo um bom trabalho no bairro. “Recentemente aumentaram a calçada na rua ao lado da igreja e colocaram vários postes de luz, achei bonito. Em questão de segurança, aqui é uma rua mais calma, mas sempre é preciso ter cuidados e não deixar a casa toda aberta”, salienta.
O aposentado, Luiz Santinon, conta que o pai se mudou para o São Bento há mais de 60 anos e que muita coisa mudou desde aquela época. “Não havia rua, somente terra para todo o lado. As mulas sofriam para passar por aqui”, recorda.

Santinon conta sobre quando construíram o campo de aviação e de como era extenso. “Ocupava toda essa área que agora tem casas e prédios, era completamente diferente. Mas meu pai não gostava de ter os aviões aqui perto, pois a poeira que eles geravam invadia nossa casa”, frisa.
O aposentado observa algo em sua rua que, segundo ele, aconteceu por causa do avanço econômico no local. “Deste lado tem as casas mais simples e do outro, estão localizados os moradores mais ricos. A diferença é vista por dois angulos”, analisa.
Um ponto que o aposentado destaca é a segurança, que antigamente era menos preocupante. “Não tinham cercas nas residências, era muito tranquilo e sem ocorrencias. Agora temos que nos cuidar bastante e as grades são necessárias”, lamenta.
Fotos: Cláudia Debona