Evandro Demari, banda Zelbra, Darwin e os Evoluídos e Malvina’s Rock são alguns dos representantes do gênero na região

A cena musical de Bento Gonçalves é marcada por diversidade de estilos e histórias. Depois da primeira reportagem da série dedicada ao gênero Pop, a segunda matéria mergulha no universo do rock, um estilo que há décadas faz parte da identidade cultural local e segue se reinventando por meio de diferentes gerações de músicos.

Do pioneirismo de artistas que ajudaram a consolidar o rock autoral na Serra Gaúcha até bandas mais recentes que buscam espaço em festivais e plataformas digitais, o gênero permanece vivo em Bento Gonçalves, com trajetórias que misturam paixão, desafios e persistência.

Uma história que começa nos anos 1980

Para o guitarrista Evandro Demari, a relação com o rock começou ainda na adolescência. Natural de Muçum, ele se mudou para Bento Gonçalves ainda criança e iniciou a trajetória musical em 1988, quando tocava em grupos musicais escolares e de amigos.

Foi em 1989 que recebeu o convite para integrar a banda A Elétrika Tribo, grupo que se tornaria um marco na cena local e precursora como um grupo que compunha suas músicas. “Eu tinha 16 anos e, quando entrei na banda, senti que ali poderia viver da guitarra”, relembra.

Na época, o cenário musical da cidade era dominado principalmente por bandas de baile. Mesmo assim, alguns artistas começaram a abrir caminho para composições autorais. Segundo Demari, nomes como a cantora e compositora Ana Maria Mazzotti, o guitarrista Renato Gabriel e músicos locais influenciaram diretamente sua formação.

Evandro Demari é um dos pioneiros na cena local

Entre outras referências estão nomes clássicos do rock e do blues, como The Rolling Stones, Led Zeppelin, The Beatles, Pink Floyd, Queen e Jimi Hendrix, este último, segundo ele, uma das maiores influências de sua trajetória. “Existe a guitarra antes de Jimi Hendrix e depois dele”, afirma.

Com a Tribo, posteriormente chamada Elétrika Tribo, Demari participou de um momento histórico para a música regional: a gravação, em 1990, do primeiro disco de vinil genuinamente de rock’n’roll da Serra Gaúcha, com dez faixas autorais, o “É muito mais Rock’n’roll”. “Na época não existia edição digital. Gravávamos em fita, todos tocando juntos. Era muito mais orgânico. Era mais comum as coletâneas com várias bandas, mas teve isso que foi um pioneirismo”, recorda.

Hoje, o músico se define como guitarrista de blues rock, mas diz buscar acima de tudo uma identidade própria. “Meu objetivo é tocar uma nota e as pessoas reconhecerem que sou eu. Meu foco no início era instrumental, mas me descobri cantor faz uns três anos”, destaca.

Para ele, os desafios são os mesmos. “Formar público, gerar renda com a arte”, frisa.

Depois de lançar discos instrumentais nos anos 2000, atualmente prepara um novo álbum com músicas cantadas e segue em uma fase criativa intensa. “Estar limpo e sóbrio me devolveu a música. Em três anos já compus cerca de 40 músicas”, conta o artista, que também celebra 15 anos sem álcool e quase quatro anos longe das drogas.

Outras bandas da primeira geração do rock de Bento Gonçalves são Rebeldes, Velliaria, Terra 4, Edzul e Sociedade Anônima.

A nova geração do hard rock

Se Demari representa a consolidação do rock na região, bandas mais recentes mostram que o gênero continua encontrando novos caminhos. Um exemplo é a Banda Zelbra, formada em Bento Gonçalves e voltada para o hard rock autoral.

A história começou com composições simples, criadas no violão pelo vocalista Jonathan Zelbrasikowoki, que depois foram desenvolvidas com o guitarrista Emerson de Quevedo (Teto). Após alguns anos de trabalho e lapidação das ideias, o grupo lançou o primeiro single em 2022.

A formação atual conta com cinco integrantes, vocal, guitarristas (Teto e Cauã Guaragni Almeidaz), baixo (William Ongaratto) e bateria (Jonatan da Silva) e, mesmo com menos de um ano de atuação como banda completa, o grupo já soma cinco singles lançados.

A Zelbra ganhou destaque recentemente ao participar do Arde Rock Fest, em Santa Maria, um dos principais festivais de música autoral do país. Entre 76 bandas inscritas, apenas dez foram selecionadas e o grupo de Bento conquistou o segundo lugar. “Criamos o quinto single especialmente para o festival e ficamos muito felizes com o resultado. Também recebemos o prêmio de melhor instrumentista para o nosso baixista”, relata o vocalista.

O som da banda mistura hard rock com influências de grunge, blues e folk. Entre as referências estão Led Zeppelin, Whitesnake, Guns N’ Roses, Aerosmith e Deep Purple. “É uma sonoridade que mistura peso e intensidade com uma essência mais crua e verdadeira do rock. A identidade da banda é marcada pelos vocais, com presença forte e agudos que trazem personalidade e emoção às músicas, pelas guitarras com riffs intensos e marcantes e, principalmente, pelo sentimento que buscamos transmitir ao público. Cada música é construída com atenção aos detalhes, com a intenção de passar algo verdadeiro, aquele tipo de energia que arrepia e conecta em cada momento”, destaca Zelbrasikowoki.

Banda Zelbra se apresentou pela primeira vez no Arde Rock Fest

Segundo ele, as músicas carregam pressão e energia, mas ao mesmo tempo se misturam com harmonias mais leves e cheias de sentimento. “As letras trazem mensagens positivas e a proposta é transmitir força, daquelas músicas que provocam já na primeira ouvida”, ressalta.

O processo de composição é bastante intuitivo. “É bem direto e verdadeiro. Eu, como vocalista, geralmente começo criando um verso, umas notinhas simples no violão. Faço uma base simples mesmo, duas, três notinhas. Quando eu percebo que soou algo legal, começo a trabalhar na primeira frase e como nossas letras são sempre em inglês (foi uma escolha nossa, até por combinar mais com a essência do hard rock original), já vou pensando nessa construção. Às vezes surge uma frase que puxa um sentimento específico, que combina com aquele momento, e aí naturalmente vem a segunda, a terceira e a música começa a nascer”, revela.

O principal desafio, conforme relata o vocalista, sempre foi conciliar tempo, rotina e responsabilidades com a dedicação que a banda exige. “Cada um tem sua vida, seus compromissos, e fazer tudo acontecer exige organização, disciplina e muita vontade. Outro desafio é construir algo do zero, de forma independente, acreditando na própria visão mesmo quando o caminho ainda não está claro. Manter a constância, continuar criando, gravando e lançando material sem perder a essência também é um desafio constante. Cada lançamento e evolução sonora se tornam significativos. Encaramos tudo como construção, não como obstáculo”, enfatiza.

O próximo projeto da banda é a conclusão do primeiro álbum. “Estamos atualmente no quinto single, já preparando o sexto, e ainda temos mais quatro ou cinco estruturas praticamente prontas para finalizar esse trabalho. A ideia é fechar esse ciclo com um álbum forte, coeso e que represente bem a nossa identidade. O objetivo é seguir lançando um single por vez, mantendo o movimento constante, enquanto algumas faixas podem ficar como surpresa para serem reveladas junto com o álbum completo. Podem surgir novos clipes e muitas novidades bacanas nos próximos meses. Depois de conquistarmos o segundo lugar no festival, isso nos deu ainda mais confiança para avançar. Agora começamos também a montar um repertório mais completo, incluindo alguns covers junto com as nossas autorais. Nada precipitado e sem pressa, é um processo estratégico. Estamos preparando o terreno”, afirma.

Mais uma novidade é que agora foi adicionado um novo guitarrista, o Cauã. “A banda passa a contar com duas guitarras trabalhando juntas, buscando ainda mais aquela harmonia marcante que combina muito com o hard rock. Essa nova formação amplia as possibilidades sonoras e fortalece ainda mais nossa identidade.

Rock que reinventa clássicos

Outra vertente presente na cidade é a releitura de clássicos do gênero. A banda Darwin e os Evoluídos, criada há cerca de dez anos, nasceu de forma despretensiosa em Garibaldi, com a proposta inicial de tocar às segundas-feiras no Bar do Joe, mas começou a tocar em outros bares e cresceu.

O nome surgiu de uma brincadeira com o vocalista Darwin Gerzson e a ideia de evolução ligada ao cientista Charles Darwin.

A banda tem como proposta apresentar versões próprias de músicas conhecidas do rock e do pop internacional. “A gente não toca igual aos artistas originais. Se tocamos Beatles ou Led Zeppelin, fazemos a nossa versão”, explica Gerzson. Além disso, há músicas autorais e regravações (como da banda Rebeldes, onde ele atuava também), disponíveis no Spotify.

O repertório percorre diferentes décadas do rock, desde os anos 1950 até os anos 1990, passando por estilos como blues, rockabilly e rhythm and blues.

Para Gerzson, o maior desafio da música atualmente é o comportamento do público. “As pessoas estão muito imediatistas e querem ouvir só o que já conhecem. Muitas vezes tratam a banda como um aparelho de música, pedindo as que querem. No entanto, os grupos sempre têm um estilo e um repertório pronto”, comenta.

Apesar disso, ele destaca que a Serra Gaúcha sempre revelou bons músicos e bandas importantes no cenário regional e nacional.

Resistência cultural

A banda Malvina’s Rock, formada em 2007, também integra a cena local e aposta em composições próprias com uma sonoridade mais pesada.

O grupo surgiu com os irmãos Diego Soligo (vocal) e Darlan Soligo (atual baixista), inicialmente tocando covers em festivais e encontros de carros antigos e motos na Serra Gaúcha. O nome da banda é uma homenagem à música “Malvina’s (O Pessoal do Rock)”, da banda brasileira Made in Brazil, lançada em 1985.

Entre outras influências do grupo estão nomes como Garotos da Rua, Pink Floyd, Celso Blues Boy, AC/DC, Black Sabbath, Ramones, Guns n’ Roses, Raul Seixas e Camisa de Vênus.

As composições do grupo surgem tanto de forma coletiva quanto a partir de ideias individuais. “Cada integrante coloca seu tempero para dar mais sabor à música. O público pode esperar um som autêntico e com letras que vão direto ao ponto”, explica o guitarrista do grupo, Darlan Macedo (Pipo).

Malvina’s Rock foi formada em 2007

A música autoral é um desafio. “Sabemos que o Rock já não é um estilo musical com tantos ‘holofotes’ como foi nas décadas passadas. Mas seguimos firmes, tentando criar o nosso espaço e obter reconhecimento pelo trabalho autoral. Existe espaço, mas é bem limitado, por isso destacamos a importância das leis de incentivo à cultura e às artes”, enfatiza. As letras costumam abordar reflexões sobre sociedade, meio ambiente e relações humanas.

Sobre a recepção do público, Macedo frisa que nos shows conseguem sentir mais esse calor e perceber que a mensagem foi transmitida.

Entre os momentos marcantes da trajetória está o lançamento do primeiro álbum, “Poder e Ganância”, em 2018. Agora, em 2026, a banda prepara o segundo disco, “Andarilho”, contemplado pelo Fundo Municipal de Cultura de Bento Gonçalves.

O novo trabalho terá oito faixas e dois videoclipes e será apresentado oficialmente no dia 19 de abril, na Casa das Artes. “O público presente irá conferir na íntegra dois clipes musicais do álbum”, revela.

Para quem ainda não conhece a Malvina’s Rock, o integrante da banda ressalta por que vale a pena ouvi-los. “Eu diria que compensa conferir sempre que um novo trabalho autoral surge, novas ideias são colocadas na mente, e assim expandimos nossa consciência e modo de consumir e fazer cultura. E também é importante conferir para contribuir com a valorização dos músicos que produzem conteúdos inéditos na Serra Gaúcha”, finaliza.