À medida que a tecnologia digital avança e a lógica do consumo rápido se consolida, profissões tradicionais passam a perder espaço, entre elas, a de relojoeiro. O ofício, que exige precisão, paciência e domínio técnico apurado, enfrenta a escassez de novos profissionais e a diminuição na procura por consertos, em um contexto marcado pela popularização de relógios eletrônicos e dispositivos inteligentes. Aquilo que já foi um serviço essencial para prolongar a vida útil de peças duráveis hoje se torna cada vez mais raro, levantando questionamentos sobre a continuidade desse saber artesanal e seu papel nas próximas gerações.
Apesar desse cenário, o desaparecimento da profissão não é absoluto. Mesmo com a redução no número de relojoeiros, a demanda por especialistas qualificados segue presente, sobretudo para a manutenção e o reparo de peças mais sofisticadas. Paralelamente, o mercado de relógios mecânicos e automáticos de alto padrão permanece aquecido, reforçando a importância de um conhecimento técnico que, embora mais escasso, continua sendo indispensável.
Tradição
De acordo com Airton Milesi, proprietário da Relojoaria Casa Milesi juntamente com seu filho Bruno Milesi, ele conta que a trajetória no ramo começou ainda no ambiente familiar, sendo transmitida de geração em geração. “Meu avô já tinha uma relojoaria em Farroupilha, que existe até hoje e segue com familiares. Ele iniciou o negócio em 1923. Na época, meu pai chegou a se preparar para a guerra, mas o conflito terminou antes. Anos depois, em 1948, ele se mudou para Bento Gonçalves, onde decidiu abrir o próprio empreendimento”, relembra.
Bruno conta que o universo dos relógios sempre fez parte da sua vida. “Desde criança, eu já me interessava, ficava pedindo relógios para desmontar. No ensino médio, no colégio Itália, quando não estava estudando, passava o tempo aqui na relojoaria. Depois que terminei a escola, comecei a trabalhar e acabei indo para Porto Alegre. Foi lá que tudo realmente começou e que me firmei de vez na profissão”, afirma.

Novo caminho
Outro relojoeiro conhecido no município, Lucio Rene Brandt, que trabalha na Tanti Ótica, conta que iniciou sua trajetória profissional no Vale do Rio Pardo, em Santa Cruz do Sul. Na época, trabalhava em uma fábrica de doces, mas, ao perceber que o negócio não ia bem, decidiu mudar de rumo e aceitou uma nova oportunidade. “Meu cunhado, de Encantado, me convidou para ser relojoeiro. Tive 19 dias de férias e fui fazer um teste com eles, para ver se eu me adaptava e se eles também iam gostar de mim”, relembra.
Mudança
Brandt ressalta que, no início da carreira, trabalhava principalmente com relógios de corda e automáticos, realidade bem diferente da atual. “Hoje praticamente não existe mais, quer dizer, até tem, mas é raro. O pessoal procura mais relógios de pilha. É mais conveniente, vamos dizer assim. Mudou muita coisa”, afirma.

Milesi segue na mesma linha e observa que, com o passar dos anos, a profissão passou por mudanças significativas. “Por exemplo, no caso dos despertadores: antigamente, só existiam os de corda. Hoje é tudo a pilha e, muitas vezes, descartável. Estragou, a pessoa joga fora e compra outro. Nos relógios a pilha, em grande parte dos casos, nem se faz mais o conserto, se troca toda a máquina interna. Claro, ainda há peças que exigem desmontagem, revisão e manutenção mais detalhada, e isso ainda acontece bastante. Mas, na maioria das vezes, é substituição”, explica.
Bruno ressalta que essas mudanças também influenciaram o comportamento de consumo, impulsionando a procura por relógios mecânicos, que exigem desmontagem e revisão especializada. “Mudou bastante, principalmente em relação aos relógios mecânicos de hoje”, observa.
Milesi destaca que quando a era digital entrou em vigor, em primeiro momento achou-se que os relógios iriam desaparecer. “Até deu uma boa queda nos consertos. Só que hoje aumentou, porque é um acessório, muita gente prefere usar um relógio do que ficar olhando no celular ”, afirma.
Ambos os relojoeiros observam que o uso do relógio segue presente no dia a dia, mas o perfil de consumo mudou significativamente. “Tem muito relógio importado de baixo custo. O pessoal compra por 20, 30 reais e acha que vai durar para sempre. Lá atrás já se falava em mandar fabricar tudo na China, e eu dizia: vamos acabar entregando de mão beijada algo que poderia permanecer aqui. Porque, depois que passa para outros, são eles que definem o preço”, afirma Brandt.
Perfil
Milesi afirma que a procura por consertos de relógios continua elevada, mas destaca um desequilíbrio no mercado de trabalho. “O que acontece é que os relojoeiros estão saindo da área e quase não entram novos profissionais. Então, tem bastante serviço”, explica.
Brandt afirma que mantém uma relação transparente com os clientes e faz questão de ser direto quando o conserto não é viável. “Tem casos que eu consigo resolver e outros em que não, aí recorro ao Milesi. Eu faço aquilo que gosto e procuro trabalhar com cuidado. Se a pessoa chega com um relógio e o conserto não compensa, eu digo: é melhor comprar outro, vai te incomodar menos e eu também evito um serviço que não vai ter bom resultado”, explica.
Realização
Bruno destaca que dar continuidade à profissão da família vai muito além de consertar relógios. “Muita gente enxerga o relógio apenas como algo para marcar a hora, mas é muito mais do que isso. Existe toda uma engenharia, um nível de dificuldade e de precisão envolvido, é a busca pela perfeição. Uma peça mecânica, com engrenagens delicadas, conseguir medir o tempo com exatidão ao longo de dias, meses, anos… então vai muito além de simplesmente marcar as horas”, afirma.
Ele conta que nunca se viu fora da relojoaria. “Como já fazia parte da minha família, isso sempre esteve muito presente. Eu olhava para outras profissões, para a ideia de fazer faculdade, e via muita gente formada sem um rumo definido. Então percebi que eu tinha algo concreto nas mãos, uma oportunidade que poucos têm. E quis aproveitar”, relata.
Brandt reforça que o mais importante é seguir a própria vocação e atuar com dedicação. “Eu sempre digo que cada um deve fazer aquilo que tem vontade, com carinho e responsabilidade. Principalmente sem passar ninguém para trás, às vezes até se tem a chance, ou se erra sem querer, mas procuro trabalhar com honestidade. O ideal é fazer o que gosta, não apenas pensando no dinheiro. É preciso sempre raciocinar sobre o que é melhor fazer. Não faça para os outros aquilo que não quer que façam para você”, conclui.