Sexta-feira, 16 de Outubro de 2026

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Reggae mantém força na Serra Gaúcha com bandas autorais

Em Caxias do Sul, a banda Por Natureza acompanha as transformações da cena regional desde meados dos anos 2000. O projeto começou a tomar forma em 2006 e se consolidou como banda no final de 2008, a partir do encontro de amigos que compartilhavam a paixão pelo reggae e o interesse em produzir músicas autorais.

Conforme o integrante Izac Zaccani, a região já teve períodos de maior movimentação, com o surgimento de bandas, eventos e apresentações internacionais. Após uma redução das atividades durante a pandemia, a cena voltou a apresentar sinais de recuperação. “Este ano a gente pôde ver que o público segue fiel. O que estava faltando eram as oportunidades dos rolês, festas, shows de reggae”, avalia. 

A Por Natureza procura construir uma sonoridade própria sem se afastar das raízes do gênero. O reggae é a principal referência do grupo, mas as composições incorporam elementos da música brasileira e latino-americana, presentes nos ritmos, nas melodias e nos arranjos. Para Zaccani, essa combinação permite aproximar diferentes públicos e expressar as características culturais de quem produz música no Sul do país. “A identidade do reggae produzido na Serra Gaúcha está muito ligada à nossa cultura aqui do Sul, talvez até à questão do frio. É só escutar um reggae feito no Norte do Brasil e escutar o reggae feito aqui no RS para perceber a diferença sonora”, compara.

Por Natureza: em pé, Aninha Sistah e Fábio Kalifa. Agachado Roger Risadinha; e sentados Izac Zaccani e Álvaro De Lazari

Com uma trajetória voltada principalmente à produção autoral, a banda lançou os trabalhos Entrei na Selva, de 2010, e o álbum Celebrando a Vida, de 2015. Atualmente, prepara o lançamento do álbum Acende a Vela para janeiro. As letras abordam consciência social, diversidade, amor, espiritualidade, natureza e relações humanas.

Entre o reggae e o ska

A conexão entre diferentes cidades também aparece na trajetória da Skaçulinhas, formada em 2020 por músicos de Carlos Barbosa e Garibaldi. O grupo surgiu da vontade de amigos de tocar juntos e, com a chegada de novos integrantes, chegou à formação atual, composta por nove músicos.

A sonoridade reúne ska, reggae, rock e ritmos latinos, resultado das diferentes referências musicais dos integrantes. Para Christian Gabriel Bioen, conhecido como Christian Pelika, o reggae e o ska são gêneros próximos, capazes de unir diversão e reflexão. “A gente enxerga o ska e o reggae como parte da mesma família, como se fossem pai e filho. São ritmos que trazem alegria e, ao mesmo tempo, levam mensagens de reflexão para a sociedade”, explica.

A banda lançou no ano passado o EP Os Caçulinhas d’Outrora, seu primeiro trabalho autoral, que teve boa recepção e permitiu que as músicas chegassem a ouvintes de outros estados e países por meio das plataformas digitais. O grupo também prepara novos lançamentos: a música “A Vovó”, um ska descontraído, tem previsão de lançamento para 28 de outubro, enquanto “Señor Pedro”, que mistura cumbia e reggae e é cantada em portunhol, está prevista para dezembro. “Nosso próximo objetivo a médio prazo é produzir um álbum inteiro de músicas autorais”, revela Pelika. 

Os atuais integrantes da Skaçulinhas são: Dener Sauthier Audibert, Márcio Sabei, Vinicius Furlanetto, Keler da Costa, Edemilson Demari, Christian Gabriel Bioen, Érica Sauthier Audibert, Heitor Conci e Henrique Morassutti.

Apesar dos planos, manter uma banda com nove integrantes exige organização e recursos financeiros. Segundo Pelika, conciliar as agendas, lidar com mudanças na formação e dividir os cachês são alguns dos obstáculos enfrentados pelo grupo. Em determinadas apresentações, o valor recebido não cobre os custos envolvidos.

A produção musical também depende de investimentos. O primeiro EP da Skaçulinhas só foi possível graças a políticas de incentivo à cultura, apoio que o músico considera fundamental para projetos que ainda estão construindo seu espaço.

Paz, amor e resistência

Também em Caxias do Sul, a Calmamente Reggae mantém uma proposta musical voltada à positividade desde 2008. Formada por amigos interessados em transmitir mensagens de paz e amor, a banda construiu sua identidade com referências de artistas brasileiros e internacionais, como Armandinho, Natiruts, Mato Seco, Tribo de Jah, Cidade Negra, Planta e Raiz e Bob Marley.

De acordo com Bruno Cavagnoli, guitarrista-base e vocalista do grupo, a intenção permanece a mesma ao longo da trajetória: utilizar a música para despertar sentimentos positivos e criar uma conexão com o público. “É sempre gratificante ver o sorriso no rosto das pessoas através da música”, afirma.

Em 2020, a banda lançou de forma independente o álbum Luz de um Novo Dia, trabalho que marcou o início de uma etapa dedicada à consolidação do repertório autoral. As canções abordam preservação da natureza, paz interior, amor, espiritualidade e cuidado com as crianças, além de trazerem reflexões sobre o futuro.

O grupo está trabalhando em novas músicas e pretende organizar uma festa para marcar o lançamento das composições. A expectativa é dar continuidade à produção e alcançar um público cada vez maior.

Neimar de Faria, Cleber Oliveira, Bruno Cavagnoli e Izac Rocha fazem a banda Calmamente

Entre os desafios, Cavagnoli aponta o preconceito associado ao reggae e a dificuldade de manter uma banda independente em atividade. Segundo ele, ainda existem julgamentos equivocados sobre o gênero, que desconsideram as mensagens transmitidas pelas canções. “Não fazemos apologia a nenhum tipo de droga ou coisas do tipo. O que buscamos é sempre a paz e o amor”, ressalta.

Para o músico, a persistência, a dedicação e a fé são essenciais para superar as dificuldades e manter o projeto ativo, mesmo diante das limitações do mercado.

Para quem está começando, ele dá uma orientação. “Nunca desista dos seus sonhos e objetivos. Pois quanto mais longas e árduas são as batalhas, mais longas e doces serão as vitórias”

Integração regional pode fortalecer a cena

Apesar das diferenças entre as propostas musicais, as bandas compartilham a avaliação de que existe espaço para ampliar a presença do reggae na Serra Gaúcha. A região conta com público interessado e artistas dispostos a produzir, mas ainda precisa de mais oportunidades para apresentações e circulação de trabalhos autorais.

Zaccani observa que a conexão entre músicos, produtores, casas de shows e público sempre fez parte da cena regional. Com a retomada dos eventos, contatos antigos foram reativados e novas parcerias começaram a surgir. Para ele, ampliar essa integração pode beneficiar tanto os artistas quanto os ouvintes.

A realização de festivais colaborativos e intercâmbios entre cidades como Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Carlos Barbosa e Garibaldi permitiria diversificar a programação e ampliar o alcance das bandas, segundo ele. O músico também defende mais políticas de incentivo e espaços destinados à música independente.

Na avaliação de Pelika, o reggae possui mais ouvintes na região do que o ska, mas ainda são poucas as bandas que representam esses estilos. Por isso, considera necessário incentivar novos projetos e valorizar a produção local, especialmente em um cenário de disputa pela atenção do público.

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