A deficiência auditiva é uma condição que se torna mais comum com o avanço da idade e pode impactar diretamente a autoestima, a convivência social e a qualidade de vida dos idosos. O receio de não conseguir acompanhar diálogos, a sensação de isolamento e o constrangimento em ambientes públicos fazem com que muitos deixem de participar de atividades que antes faziam parte da rotina.
De acordo com a médica geriatra Caroline Sbardellotto Cagliari, a perda auditiva relacionada ao envelhecimento é chamada de presbiacusia. “É uma condição muito comum e resulta de alterações progressivas do sistema auditivo ao longo da vida, predominantemente para sons agudos. Apesar de frequente, não deve ser interpretada como algo normal, pois ignorar a presença de redução auditiva pode trazer consequências graves à saúde e funcionalidade do indivíduo”, menciona.
A presbiacusia, já figura entre as cinco condições crônicas mais prevalentes na população idosa brasileira, chegando a afetar até 70% das pessoas com mais de 75 anos, segundo dados destacados em uma revisão sistemática publicada pela revista Archives of Health.
Impactos da condição
Segundo a psicóloga Tuani Bertamoni, qualquer condição que limite a autonomia pode dificultar o processo de adaptação na terceira idade. “Os idosos precisam reaprender a pedir ajuda para realizar atividades que antes faziam parte da rotina e eram executadas de forma independente, mas que hoje apresentam limitações”, explica.
Ela afirma que muitos idosos passam a interpretar as dificuldades auditivas como parte do envelhecimento, o que pode gerar negação e atrasar a busca por ajuda. “O receio de perder independência, de precisar utilizar aparelho auditivo ou de ser visto como alguém fragilizado pode retardar a procura por avaliação médica e favorecer sentimentos de negação”, relata.
A geriatra também destaca que a perda auditiva costuma se desenvolver de forma lenta e progressiva, o que dificulta sua percepção inicial. Muitas vezes, as dificuldades são atribuídas a fatores externos, como ambientes ruidosos ou à forma de fala dos interlocutores. “Há a crença de que não escutar bem é algo normal do envelhecimento, o que dificulta a decisão em buscar auxílio”, afirma.
Segundo a especialista, a condição afeta não apenas a audição, mas também a compreensão das conversas, podendo comprometer a comunicação e favorecer o isolamento social. “Isso reduz a participação em atividades familiares e comunitárias e está associada a maior risco de sintomas depressivos, incluindo irritabilidade. Tudo isso gera redução significativa na qualidade de vida. Além disso, já é estabelecida a associação entre perda auditiva não tratada e maior risco de declínio cognitivo e demência”, ressalta.
Sinais e percepção familiar
A geriatra destaca que alguns sinais podem ser percebidos pelos familiares. “Incluem pedidos frequentes para repetir frases, dificuldade para compreender conversas em grupo ou em ambientes barulhentos, respostas inadequadas às perguntas feitas ao idoso, aumento do volume da televisão ou do celular e tendência ao isolamento”, relata.
Tuani acrescenta que também podem surgir o uso de estratégias como leitura labial. Segundo ela, é comum que o idoso atribua a dificuldade de comunicação aos outros, o que contribui para a negação do problema.
Papel da família
Para a psicóloga, o incentivo ao tratamento deve ocorrer de forma acolhedora. “É fundamental não infantilizar o idoso, não associar a perda auditiva à incapacidade e evitar abordagens que gerem vergonha ou constrangimento. O diálogo respeitoso e empático costuma ser mais eficaz”, afirma.
Ela destaca ainda que o acolhimento familiar é essencial para a adaptação ao diagnóstico. “Uma rede de apoio que oferece escuta, incentivo e paciência reduz sentimentos de vergonha, medo ou solidão, favorecendo a adaptação às mudanças e aumentando a adesão ao tratamento”, afirma.
Diagnóstico e tratamento
Tuani reforça que a busca por ajuda profissional deve ocorrer logo nos primeiros sinais. Isso permite identificar precocemente a causa da dificuldade e iniciar intervenções adequadas, reduzindo impactos na rotina do idoso e prevenindo sofrimento emocional. “Dessa forma, o cuidado precoce contribui significativamente para a saúde emocional, o bem-estar e a qualidade de vida”, afirma.
Caroline destaca que quanto mais cedo a perda auditiva é identificada, maiores são as chances de adaptação aos aparelhos auditivos e de preservação da autonomia. “Eu diria que ouvir bem não é um luxo, é uma necessidade para envelhecer com autonomia. Entender que isso não é uma consequência inevitável do envelhecimento, nem um problema sem solução. Buscar avaliação especializada precocemente é valorizar a própria independência”, finaliza.