O ser humano é incrível. Para o bem e para o mal com forças semelhantes. Na Idade Média, muito bem documentado em nossa Europa, grandes epidemias de doenças veiculadas pelos ratos atormentaram a humanidade, como a conhecida Peste Negra. Estimativas históricas tradicionais e contemporâneas apontam que a Peste Negra dizimou entre 30% e 60% da população da Europa durante o surto mais severo, ocorrido entre 1347 e 1351. Em termos absolutos, esse colapso demográfico representou a morte de 50 a 75 milhões de pessoas apenas no continente europeu. Muito mais do que a nossa moderna pandemia do COVID, sobretudo se levarmos em conta o contingente de população naquela época e nos tempos modernos. Peste negra ou peste bubônica, que se utiliza de pulga e rato para atingir os humanos, atualmente preocupa menos pelo advento do antibiótico que consegue acabar com a Yersinia pestis (bactéria causadora da Peste bubônica ou peste negra).
Nossa região está enfrentando um aumento observado na população de ratos, como tem sido amplamente divulgado pelos meios de comunicação de massa. Isto deve nos preocupar? Sim. E muito. Não tanto pelo risco de peste bubônica ou peste negra, mas sim porque o rato é vetor de inúmeras doenças tais como:
- Peste Bubônica: Transmitida pela picada da pulga do rato. Causa febre e inchaço nos gânglios linfáticos.
- Salmonelose: Transmitida por alimentos contaminados com fezes de rato. Provoca diarreia, vômito e cólicas.
- Tifo Murino: Transmitido pelas fezes da pulga do rato na pele. Causa febre e erupções identificadas.
- Febre por Mordedura: Transmitida pela mordida ou arranhão do rato. Causa febre, dores e feridas.
- Leptospirose: causada pela bactéria Leptospira, presente na urina dos ratos infectados.Esse tipo de infecção acontece mais frequentemente em épocas de muita chuva, pois as enchentes, poças e solos úmidos podem ter a urina de ratos contaminada com a bactéria.Sintomas: febre alta e repentina, dor de cabeça e no corpo, vômitos ou diarreia. Tivemos muitos casos na época das enchentes.
- Hantavirose: é uma doença transmitida pelo hantavírus presente em fezes, urina ou saliva de ratos silvestres. Sintomas: febre, vômitos, dor de cabeça, dor no corpo, tosse com catarro ou sangue, falta de ar, hematomas e petéquias pelo corpo.. O hantavírus pode ser transmitido pela inalação de partículas do vírus suspensas no ar, em locais contaminados com urina, fezes ou saliva de ratos.
São as principais. Existem outras menos comuns ou conhecidas. Mas o perigo para a saúde humana é real e cresce na medida que nossa população fica mais e mais exposta ao convívio com os roedores, que encontram alimento e locais para sobreviverem e se reproduzirem acima da média.
O aumento da população de ratos nas cidades ocorre por exemplo devido a abundância de alimentos, água, abrigo e ausência de predadores naturais.
O que fazer para melhorar a situação?
Seria importante verificar os princípios aplicáveis do Manejo Integrado de Pragas (MIP), combinando ações públicas, infraestrutura e participação popular|:
- Eliminação de Fontes de Alimentação e Abrigo
- Limpeza de terrenos baldios: Remove entulhos, mato alto e lixo acumulado em áreas públicas e privadas.
- Poda de vegetação: Mantenha galhos longos de telhados e fiações para evitar vias de acesso para os roedores.
- Infraestrutura e Saneamento Básico
- Instalação de barreiras: Fixar telas metálicas em bueiros, ralos e saídas de ventilação.
- Controle Populacional Direto
- Desratização química: Aplicar raticidas de forma estratégica em bueiros e áreas críticas.
- Controle biológico moderno: Implementar métodos alternativos, como o uso de iscas anticoncepcionais para reduzir a reprodução.
- Gestão Pública e Legislação
- Fiscalização rigorosa: Identificar, multar e educar quem não descarta o lixo corretamente.
- Mapeamento de denúncias: Implementar canais digitais para que a população notifique focos de infestação em tempo real.
- Equipes especializadas: Manter técnicos de vigilância sanitária em vistorias constantes nas zonas vermelhas.
- Engajamento Comunitário
- Campanhas de conscientização: Educar os moradores sobre a importância de não deixar alimentos, resíduos e reações expostos.
- Mutirões de limpeza: Organizar ações comunitárias para revitalizar bairros e conscientizar sobre o descarte correto de resíduos.
Cuide de sua casa, de seu terreno, dificulte a vida para os ratos. Cuide de sua cidade.
DR. EDUARDO GARCIA, Pneumologista.
Professor de Clínica Médica da UFCSPA
Contato: eduardog@ufcspa.edu.br
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