Os primeiros mil dias de vida, período que vai da gestação até aproximadamente os dois anos de idade, são considerados decisivos para o desenvolvimento físico e cognitivo de uma criança. Nesse intervalo, a alimentação exerce papel central na formação de hábitos e na prevenção de doenças. É justamente nesse contexto que o consumo de açúcar tem despertado preocupação crescente entre especialistas em saúde pública. Apesar de amplamente presente em produtos industrializados e até em alimentos voltados ao público infantil, o açúcar não é recomendado nos primeiros anos de vida.
Segundo o Ministério da Saúde, as crianças menores de dois anos não devem consumir açúcar, seja ele branco, mascavo, cristal, demerara, açúcar de coco, xarope de milho, mel, melado ou rapadura.
De acordo com Nicole Mussi de Araujo, nutricionista especialista materno infantil e neonatal, nos primeiros 1.000 dias de vida do bebê, o corpo passa por uma ampla programação metabólica e comportamental que influencia toda a vida da criança. “Durante esse período, o organismo aprende como lidar com a energia no metabolismo, o que chamamos de programação metabólica. Por essa razão, o que acontece nesse período vai determinar aumento ou diminuição do risco de doenças crônicas não transmissíveis, o desenvolvimento do cérebro, a formação da microbiota intestinal, as reações do sistema imunológico, o crescimento físico e a formação do comportamento alimentar dessa criança”, explica.
Aumento de doenças
Segundo a especialista, nesse estágio inicial da vida, o organismo da criança ainda está em processo de adaptação e aprendizado. Por isso, a introdução precoce de açúcar pode provocar impactos significativos, como a alteração na formação do paladar, favorecendo a preferência por sabores mais doces, e interferências nos mecanismos naturais de saciedade. Esses fatores, ao longo do tempo, aumentam o risco de desenvolvimento de obesidade ainda na infância e também na vida adulta. “Algumas dessas doenças são a Obesidade Infantil, Diabetes Tipo 2, Cárie Dentária, Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica, Síndrome Metabólica, Hipertensão Arterial, Dislipidemia”, menciona.

Alimentos que costumam ter açúcar
Muitos alimentos infantis, que parecem inofensivos, contém sacarose em sua composição. “Biscoito de Maizena e outros biscoitos infantis, iogurte sabor morango (ou bebida láctea), tipo grego, Mucilon e outros espessantes de leite, papinhas industrializadas (sempre é necessário checar o rótulo, têm de boa qualidade, mas também há as que contém açúcar, amido modificado, entre outros ingredientes não indicados para crianças), bisnaguinha e outros pães industrializados, cereais matinais, sucos de caixinha e barrinhas de cereal”, conta Nicole.
Recomendação
A nutricionista explica que ao completar dois anos de vida, o açúcar não deve ser tratado como algo liberado para a criança, ela recomenda que se deve evitar ao máximo expor a criança ao alimento. “Não é como se ao completar dois anos virasse uma chave no corpo da criança e ela estivesse liberada para consumir todo o açúcar que quiser, totalmente pelo contrário. O corpo continua em pleno desenvolvimento e, ao mesmo tempo, o paladar segue sujeito a grandes alterações”, recomenda.
Segundo a especialista, oferecer açúcar à criança uma vez por semana não caracteriza um consumo esporádico, mas sim um hábito regular. Nesse sentido, ela ressalta que os alimentos doces podem fazer parte da rotina, desde que sejam reservados para ocasiões específicas e consumidos em pequenas quantidades, contribuindo para a formação de hábitos alimentares mais equilibrados ao longo da vida.
Hábito familiar
Ela orienta que os pais evitem ao máximo manter doces em casa, já que a ausência desses alimentos reduz o estímulo ao consumo: se a criança não tem contato, tende a não desenvolver o desejo nem sentir falta. Nesse contexto, a especialista destaca a importância de a família adotar uma alimentação equilibrada, baseada em alimentos naturais, criando um ambiente no qual a criança esteja inserida e aprenda.
Nicole destaca que os hábitos dos pais exercem forte influência na forma como a criança se relaciona com o doce. “Existem crianças que não têm tanta preferência por alimentos açucarados, e isso está diretamente ligado aos hábitos construídos desde cedo. No entanto, quando o consumo já faz parte da rotina, é fundamental buscar o equilíbrio da alimentação como um todo, além de cuidar da microbiota intestinal. A partir disso, é possível estabelecer combinados sobre quantidades e momentos adequados para o consumo”, explica.
Ela ressalta ainda que esse processo não deve ser conduzido com proibições rígidas ou alarmismo, mas com orientação e exemplo. “O mais importante é ensinar a criança a conviver com o açúcar de forma consciente, desenvolvendo uma relação saudável que ela levará para a vida adulta”, frisa a nutricionista.
Paladar
De acordo com Nicole, as pessoas nascem com uma preferência natural por alimentos doces, isso vem da evolução, onde alimentos amargos e azedos poderiam representar uma ameaça à vida. “Por essa razão, desde a gestação, a alimentação da mãe é importante para a formação do paladar, pensando sempre em não exacerbar o gosto do bebê por alimentos muito doces”, destaca.
A nutricionista alerta que a adição precoce de açúcar pode impactar diretamente a forma como a criança se relaciona com a alimentação ao longo da vida. “Com a introdução de açúcar adicionado, o cérebro passa a elevar o limiar de percepção do doce, levando à busca por sabores cada vez mais intensos. Quando esse consumo ocorre de forma precoce, há ainda a ativação do sistema de recompensa, o que estimula a criança a querer consumir alimentos açucarados com maior frequência. Como consequência, ao longo do tempo, a preferência tende a se voltar para alimentos mais palatáveis e prazerosos, geralmente mais doces, enquanto preparações naturais, feitas com alimentos in natura, podem parecer menos atrativas”, explica.
Diante da busca frequente por alternativas ao açúcar, a nutricionista chama atenção para a necessidade de refletir sobre o motivo de adoçar os alimentos oferecidos às crianças. “Devemos sempre nos questionar por que estamos tentando adoçar ou tornar aquele alimento mais atrativo. Se a ideia for reeducar o paladar, no caso de crianças que já consomem muito açúcar adicionado, é possível recorrer a opções como frutas secas, suco de maçã e banana para preparar versões mais saudáveis. No entanto, quando falamos de crianças que estão iniciando a alimentação, entre um e dois anos, e ainda formando o paladar, não há indicação de adoçar os alimentos”, explica.
Segundo ela, respeitar o sabor natural dos alimentos é fundamental nesse processo. “Se um bolo tem menos açúcar, por exemplo, a criança tende a se acostumar com esse padrão, e isso vale para toda a alimentação. Esse não é, de forma alguma, um hábito ruim, mas sim um caminho importante para a construção de uma relação mais equilibrada com o doce”, orienta.
Ela menciona, que frequentemente vê familiares e cuidadores com pena das crianças por não consumirem açúcar, ou outros alimentos nos quais não são indicados para elas, mas deve-se lembrar que ela não conhece o sabor, portanto, não sente falta. “Nós, como adultos, gostamos e sentimos falta do açúcar porque já temos o costume de consumi-lo, mas uma criança é sempre uma página em branco. Devemos aproveitar essa vantagem para escrever nela bons hábitos, nos quais queiramos que elas tenham como adultas”, finaliza a especialista.