Segunda-feira, 17 de Agosto de 2026

ÚLTIMA HORA

Móveis do Rio Grande do Sul buscam novos mercados após tarifaço

Segundo a Movergs, o setor moveleiro no Estado enfrenta um novo e duro desafio no comércio exterior. Uma tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre os produtos brasileiros promete reduzir drasticamente a competitividade das empresas gaúchas, acelerando a necessidade de diversificação de mercados. O impacto direto atinge um polo que reúne mais de 2,6 mil empresas e gera cerca de 34 mil empregos diretos no RS

O presidente da Associação das Indústrias de Móveis do Rio Grande do Sul (Movergs), Vitor Agostini, demonstrou forte apreensão ao analisar o cenário atual do setor. Segundo o dirigente, embora a falta de dados consolidados impeça uma quantificação exata dos prejuízos neste momento, o tamanho do impacto negativo é inegável. “Ainda enfrentamos dificuldades técnicas para mensurar a extensão real dos danos econômicos, mas temos a plena certeza de que o resultado será profundamente significativo para toda a cadeia produtiva”, alertou.

O polo moveleiro gaúcho concentra um ecossistema com mais de 2,6 mil companhias operantes, sustentando cerca de 34 mil postos de trabalho formais. Em 2025, o faturamento global do setor atingiu a marca de R$ 14 bilhões, obtendo US$ 256,5 milhões por meio de vendas para 128 nações. Desse montante exportado, aproximadamente US$ 30 milhões cruzaram a fronteira em direção aos EUA. Já no balanço inicial deste ano, os embarques para o território norte-americano somaram US$ 3,9 milhões. Segundo Agostini, o país deixou de ocupar o topo do ranking de compradores do mobiliário do Rio Grande do Sul e hoje figura apenas na quinta colocação entre as praças parceiras da economia gaúcha.

Novos mercados

A oscilação nos índices reflete ajustes anteriores de taxas e impulsionou indústrias a reforçarem as transações com vizinhos da América do Sul e do bloco do Mercosul. Diante do histórico recente de barreiras semelhantes, diversas corporações anteciparam movimentos de diversificação comercial, dividindo-se entre marcas consolidadas em novas praças e outras que dão os primeiros passos na transição. O fechamento parcial dos EUA deve funcionar como um catalisador desse redirecionamento estratégico, embora a substituição da clientela americana apresente entraves complexos devido às especificidades de certificação, regulação técnica e design exigidas por cada federação. Na perspectiva institucional da Movergs, o imposto extra reduz severamente a competitividade industrial do estado. “A tarifação aumenta a dificuldade de acesso ao mercado norte-americano e tende a pressionar os resultados das empresas que ainda têm forte dependência desse país. Os Estados Unidos já deixaram de ser o principal mercado externo do polo moveleiro gaúcho e passaram à sexta posição no primeiro semestre deste ano. A capacidade de cada empresa para negociar com seus parceiros e ajustar suas margens será determinante. De modo geral, a tendência é de queda nas vendas e na rentabilidade.

Rio Grande do Sul reúne mais de 2,6 mil empresas do setor, com 34 mil empregos. Foto: Jeferson Soldi/Movergs

Outros continentes

Agostini salienta que o setor esgotou as possibilidades internas de suportar novos custos de operação sem repasses. As margens para absorver as variações tributárias são praticamente inexistentes no atual cenário econômico. Embora as despesas da taxação possam ser negociadas e partilhadas entre fornecedores e compradores estrangeiros, um acréscimo de 25% inviabiliza grandes concessões, ameaçando a continuidade de contratos ativos. A Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) reforçou que a maior fatia das peças corporativas, residenciais, estofados e componentes plásticos ou de madeira sofrerá o impacto direto da sobretaxa. A entidade prevê que os custos de entrada nos Estados Unidos esfriarão os negócios e abrirão espaço para concorrentes globais de outros continentes. “O principal mercado da indústria moveleira gaúcha continua sendo o interno, formado pelas vendas realizadas dentro do Brasil. Entre os mercados internacionais com maior potencial de compra estão Uruguai, Peru, Chile e Argentina. Paraguai, Colômbia, Equador e Venezuela também aparecem como mercados promissores”, explica.

Sem isenção

A nova política protecionista dos Estados Unidos promete desestabilizar a cadeia produtiva da madeira no Rio Grande do Sul. Ao taxar em 25% o produto estrangeiro, a administração americana atinge diretamente o principal comprador do setor madeireiro gaúcho. Em 2025, o mercado norte-americano movimentou US$ 97,1 milhões em negócios com o Estado, o que representou mais de um terço (36%) de toda a receita de exportação do segmento. O impacto deve ser severo devido ao desenho das regras de isenção estabelecidas por Washington. Embora o governo dos EUA tenha divulgado uma lista de produtos livres da sobretaxa, o alívio fiscal ignora a realidade econômica do Sul do Brasil. O benefício fiscal foi direcionado quase que exclusivamente para artigos derivados de madeiras nativas da região amazônica. Essa linha de corte penaliza os estados sulistas, cujas exportações são baseadas no manejo de florestas plantadas. No Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, a força do setor está no cultivo e processamento de pinus, eucalipto e acácia. Sem o benefício da exceção fiscal, as indústrias locais perdem competitividade de preço no mercado internacional, o que pode forçar uma revisão nas metas de produção e colocar postos de trabalho em risco nos próximos meses.

Valor agregado

Os produtos de maior valor agregado, como madeira serrada e molduras, devem ser os mais afetados. No conjunto da Região Sul, também estão entre os segmentos mais expostos chapas compensadas, cercas residenciais e portas. “Para as empresas, as estratégias dependem de cada caso. Algumas tinham produtos desenvolvidos especificamente para o mercado norte-americano e concentravam nele seu principal destino de exportação. Essas indústrias precisam buscar parceiros com perfil semelhante em outros mercados ou adequar seu mix de produtos para novas oportunidades. Em ambos os casos é necessário estudar e investir”, conclui o presidente.

O que diz o Estado?

O Jornal Semanário ouviu o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Sul, Leandro Evald, sobre a tarifa que ameaça o mercado gaúcho, e ele informou que as análises da Receita Estadual já captaram uma desaceleração anterior em segmentos como madeira e produtos minerais não metálicos, mas o impacto tende a se espalhar. “Atualmente, a preocupação se estende a áreas vitais como siderurgia, produtos metálicos, calçados, móveis, fumo e o agronegócio. Embora o Piratini ainda não consiga calcular o tamanho exato do prejuízo financeiro ou o tombo na balança comercial, a extensão dos danos dependerá diretamente da duração das taxas e da capacidade de resiliência das indústrias locais em diversificar mercados e encontrar novos compradores. É preciso atrair novos investimentos para fortalecer a competitividade da indústria gaúcha”, frisou.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ANUNCIE CONOSCO

Sua marca em destaque para milhares de leitores