A doença, hoje frequentemente tratada como Transtorno de Ansiedade de Doença, é uma condição milenar descrita desde Hipócrates (século 4 a.C.), associando medos intensos de doenças a dores reais ou imaginárias. Historicamente, envolve uma fixação no corpo (frequentemente área abdominal) e ansiedade de autoconservação.
A dor de cabeça passageira vira sinal de tumor. Um desconforto no peito se transforma, na imaginação, em infarto iminente. Para quem convive com a hipocondria, o receio de estar com uma enfermidade grave é intenso e persistente, mesmo diante de exames e consultas que indicam que está tudo bem.
De acordo com o psiquiatra Roberto Nichetti, a principal característica do quadro é a interpretação catastrófica de sensações comuns do corpo. “É um medo intenso e persistente de estar com uma doença grave, mesmo quando exames e consultas médicas mostram que está tudo bem. Dores e sensações comuns do corpo passam a ser vistas como sinais de algo sério”, explica.
Não é “coisa da cabeça”
Embora muitas vezes seja tratado com descrédito, o sofrimento é real. Nichetti ressalta que a hipocondria não é igual a outros quadros em que emoções se manifestam fisicamente. Em alguns transtornos, sentimentos acabam se convertendo em sintomas corporais. Em outros, a pessoa tem dificuldade de reconhecer o que sente, e o corpo expressa esse mal-estar. “Na hipocondria, o problema central é o medo da doença. A pessoa imagina diagnósticos graves para sintomas que, na maioria das vezes, são simples”, afirma.

Segundo o especialista, o transtorno não está ligado a um gênero específico, mas é mais frequente em pessoas ansiosas, com dificuldade de lidar com dúvidas e incertezas. Também é comum em quem cresceu em ambientes onde a saúde era motivo constante de preocupação e, além disso, costuma aparecer com maior incidência na meia-idade.
Internet pode intensificar o medo
O acesso ilimitado a informações médicas tem um grande papel na intensificação do problema. A chamada “consulta ao doutor Google” pode alimentar um ciclo de ansiedade. “O excesso de informações pode piorar esse quadro. Isso acontece mais em períodos de epidemias, entre estudantes da área da saúde e em pessoas que passam muito tempo consumindo conteúdos sobre saúde e bem-estar online”, observa Nichetti.
Sinais de alerta
Entre os comportamentos que chamam atenção estão as visitas frequentes a médicos e prontos-socorros, a realização repetida de exames que não apontam alterações e a preocupação constante com a própria saúde. “Muitas vezes, a família percebe o problema antes do próprio paciente. É hora de procurar ajuda quando esse medo começa a atrapalhar o trabalho, o lazer e a vida social”, destaca.
A hipocondria pode surgir isoladamente ou associada a outros transtornos, como depressão, síndrome do pânico ou transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). O tratamento envolve acompanhamento psicológico e, em alguns casos, uso de medicação.
Como ajudar
Para familiares e amigos, o desafio é encontrar equilíbrio. “É importante evitar dois extremos: nem reforçar o medo investigando tudo o tempo todo, nem minimizar o sofrimento dizendo que ‘é coisa da cabeça’”, orienta o psiquiatra.
Segundo o médico, reconhecer que a preocupação está exagerada já representa um passo importante no processo de melhora. Com apoio adequado, informação de qualidade e tratamento especializado, é possível reduzir a ansiedade e recuperar a qualidade de vida.
Os dados
A doença afeta cerca de 4% a 9% da população mundial. Além disso, pesquisadores suecos acompanharam cerca de 42 mil pessoas (das quais 1.000 sofriam do distúrbio) ao longo de duas décadas e descobriram que as pessoas com o transtorno apresentaram maior risco de morte.
Em média, aqueles que se preocupavam mais com a saúde morreram cinco anos mais jovens do que aqueles que se preocupavam menos. Além disso, o risco de morte aumentou tanto por causas naturais quanto por não naturais.
Pessoas com o transtorno que morreram de fatores naturais apresentaram maior mortalidade por questões cardiovasculares, respiratórias e desconhecidas. Curiosamente, não foi observada uma mortalidade maior por câncer. O fato é interessante porque a ansiedade gerada pelo medo do câncer é muito disseminada nessa população.
A principal razão de morte não natural no grupo com o transtorno foi o suicídio, com uma taxa pelo menos quatro vezes maior do que a observada entre aqueles que não sofriam.