As ferrovias do Rio Grande do Sul operam hoje com redução de capacidade, em meio aos danos causados pelas enchentes de 2024 e por um histórico de perda de extensão ao longo das últimas décadas. Com a concessão da Rumo Logística, atual operadora dos trens gaúchos, prevista para encerrar em 2027, o futuro do sistema entra em fase de definição. A expectativa é de uma nova licitação, já anunciada pelo governo federal para setembro de 2026. Outra possibilidade em discussão é o ingresso de uma ação judicial por danos morais e materiais contra a concessionária.
Enquanto o debate sobre o modelo de concessão avança, entidades do setor produtivo apontam para um quadro de deterioração da infraestrutura ferroviária, agravado pelas enchentes de 2024.
Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), Claudio Bier, a situação atual é resultado de um processo histórico de perda de capacidade. “A Federação avalia que a malha ferroviária do estado se encontra em uma situação crítica, marcada por décadas de abandono, sucateamento e perda contínua de capacidade operacional”, afirma.
De acordo com ele, a extensão da malha ativa caiu de cerca de 3,15 mil quilômetros em 1997 para aproximadamente 1,65 mil quilômetros ao longo dos anos. Após as enchentes, o sistema teria sido ainda mais impactado, com apenas cerca de 921 quilômetros efetivamente operacionais.
Entre os pontos mais afetados estão trechos estratégicos para a economia. Bier cita, por exemplo, a destruição do segmento entre Passo Fundo e Roca Sales, considerado essencial para o escoamento de grãos e biocombustíveis, além da desconexão do Polo Petroquímico em Triunfo com o restante do país. “A ausência histórica de investimentos e de manutenção preventiva levou ao sucateamento de ramais e equipamentos, colocando a ferrovia gaúcha em um ponto de inflexão entre a necessidade urgente de reconstrução e o risco de colapso logístico no estado”, diz.
Impactos na competitividade
A redução da malha e a paralisação de trechos têm reflexo direto sobre o setor gaúcho. Conforme Bier, a perda de capacidade ferroviária aumentou a dependência do transporte rodoviário, inclusive para longas distâncias e grandes volumes. “A deterioração e a interrupção de trechos têm impactado diretamente a competitividade das indústrias gaúchas ao elevar custos logísticos e reduzir a eficiência do transporte de cargas”, afirma. Segundo ele, isso compromete o escoamento de insumos e produtos, reduz a previsibilidade das operações e afeta a confiabilidade logística.
O dirigente também aponta reflexos na atração de investimentos. “Há uma enorme insegurança quanto ao futuro da malha, a qual pode ser essencial para a implementação de novos negócios”, diz. Nesse cenário, a indústria do estado perde competitividade fora do mercado interno, ao enfrentar condições logísticas inferiores às de outras regiões.
Risco de fragmentação
Um dos pontos de preocupação levantados pela entidade é a possível divisão da chamada Malha Sul em diferentes lotes na próxima concessão. “Representa riscos significativos para o RS, especialmente pela possibilidade de inviabilização econômica dos trechos localizados no estado”, afirma Bier.
Segundo ele, a fragmentação pode reduzir a atratividade da concessão e levar ao abandono de trechos menos rentáveis, ampliando o isolamento logístico gaúcho. “A ausência histórica de investimentos e de manutenção preventiva levou ao sucateamento de ramais e equipamentos, colocando a ferrovia gaúcha em um ponto de inflexão entre a necessidade urgente de reconstrução e o risco de colapso logístico”, afirma.
Integração como estratégia
A manutenção de uma malha integrada é apontada como fator central para a viabilidade do sistema. “Isso é estratégico porque garante escala, eficiência e viabilidade econômica ao sistema logístico”, diz o presidente da FIERGS.
Ele aponta que a integração permite conectar o estado aos principais corredores logísticos, portos e mercados internacionais, especialmente no contexto do Mercosul, além de contribuir para uma matriz de transporte mais equilibrada.
Nova concessão em debate
Com o fim do acordo atual se aproximando, a entidade defende mudanças estruturais no modelo. “O encerramento do atual contrato representa uma oportunidade decisiva para redefinir o modelo ferroviário no Sul do país”, afirma Bier.
Entre os pontos considerados fundamentais estão a preservação da unidade da malha, a garantia de viabilidade econômica e operacional, e a realização de investimentos robustos em infraestrutura. A FIERGS também defende que os valores da outorga sejam reinvestidos diretamente na própria malha ferroviária. “A vinculação desses recursos a investimentos em infraestrutura é vista como uma medida essencial para garantir a sua recuperação efetiva”, explica.
Cenário de risco
A falta de investimentos e de um modelo considerado adequado pode levar à redução ou até à inviabilização do transporte ferroviário regional. “Há uma preocupação concreta de que, sem investimentos consistentes e um modelo de concessão adequado, o transporte ferroviário regional possa ser progressivamente reduzido ou até inviabilizado”, afirma.
Potencial local
Na Serra Gaúcha, a ferrovia é vista como peça-chave para ampliar a competitividade regional. A região concentra cerca de 18,10% das indústrias do estado, com destaque para setores como metalmecânico, moveleiro, automotivo, vinícola e de plásticos. Segundo Bier, uma malha modernizada permitiria melhorar o escoamento da produção e fortalecer a conexão com o Porto de Rio Grande e com mercados internacionais. “Para que esse potencial se concretize, no entanto, é essencial que a infraestrutura logística, em especial o modal ferroviário, esteja preparada para suportar o aumento da demanda”, afirma.
O dirigente também relaciona o tema ao cenário internacional, destacando que acordos comerciais, como o entre Mercosul e União Europeia, podem ampliar os fluxos e reforçar a importância estratégica do estado como hub logístico, desde que haja estrutura para sustentar esse crescimento.
Impactos
Os reflexos da deterioração das ferrovias também são percebidos no dia a dia dos municípios da região. A prefeita de Santa Tereza, Gisele Caumo, avalia o cenário com preocupação. “A malha ferroviária da Serra Gaúcha e do Vale do Taquari é um patrimônio histórico e estratégico para o desenvolvimento regional, mas hoje enfrenta um cenário de fragilidade, com trechos desativados, retirada de trilhos em algumas localidades e falta de manutenção adequada”, afirma. Segundo ela, o contexto exige mobilização conjunta entre municípios e governos estadual e federal para a construção de soluções.
Assim como Bier, a prefeita também ressalta que os danos causados pelas enchentes agravaram ainda mais a situação. “Comprometeram estruturas, acessos e trechos importantes da ferrovia, ampliando a dificuldade de retomada das operações”, diz. De acordo com a prefeita, os impactos vão além das perdas materiais, atingindo também o turismo, a mobilidade regional e a preservação de um patrimônio histórico.
Ausência da ferrovia afeta traço cultural
Em Santa Tereza, a ausência da ferrovia tem reflexos diretos na identidade local. “Imagina para nós o tamanho vazio sentido pela falta do apito diário da passagem do trem, que simbolizava progresso e desenvolvimento. A paralisação ou precariedade da malha representa uma perda de potencial turístico e de integração regional. Mesmo não estando atualmente inseridos no trajeto do Trem dos Vales, entendemos que a preservação da ferrovia é essencial para ampliar oportunidades futuras e fortalecer a identidade cultural e econômica do município”, ressalta.
A prefeita aponta que a ferrovia pode desempenhar papel importante no desenvolvimento da região. “Tem potencial para fortalecer a economia local e integrar municípios da Serra Gaúcha e do Vale do Taquari em roteiros consolidados. Além disso, representa uma oportunidade de valorização do patrimônio histórico e cultural, com reflexos diretos na geração de renda e no fortalecimento das comunidades”, frisa.
Problemas operacionais e indefinições na concessão
Entre os principais desafios para a manutenção da ferrovia na região, Gisele aponta uma série de fatores. “Os principais entraves passam pela complexidade técnica da recuperação dos trechos danificados, pela necessidade de altos investimentos estruturais e também pelas definições relacionadas à concessão ferroviária. É fundamental avançarmos no diálogo com órgãos como a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a concessionária Rumo, especialmente em relação à manutenção da malha e à renovação contratual”, diz.
A prefeita também defende uma articulação regional para tratar o tema. “Porque a ferrovia não pertence a um único município, ela é um patrimônio regional. Quando tratamos essa pauta de forma integrada, ampliamos nossa capacidade de diálogo institucional e fortalecemos a construção de soluções conjuntas. A união entre municípios como Guaporé, Dois Lajeados e Santa Tereza demonstra que estamos comprometidos com um projeto regional de desenvolvimento, que ultrapassa limites territoriais e beneficia toda a região”, ressalta.
O diálogo com o poder público, conforme a prefeita, já está em andamento. “Já realizamos reuniões importantes e teremos novos encontros com equipes técnicas para compreender com mais precisão quais são os caminhos necessários para a recuperação dos trechos. Também estamos buscando interlocução com os órgãos federais competentes para garantir que esse processo avance”, esclarece.
Para Caumo, o potencial da ferrovia segue relevante. “Com planejamento, articulação institucional e investimentos adequados, ela pode se consolidar como um importante vetor de desenvolvimento regional, preservando a memória ferroviária e criando oportunidades para nossas comunidades”, conclui.
Rumo aponta diálogo com governo
Procurada pela reportagem, a Rumo Logística informou que mantém diálogo com o Ministério dos Transportes, poder concedente da Malha Sul, para avaliar alternativas para o futuro da ferrovia após os impactos das enchentes de 2024. Atualmente, segundo a empresa, o corredor ferroviário entre Cruz Alta e Rio Grande segue em operação. As definições sobre eventuais encaminhamentos, ainda conforme a Rumo, estão no âmbito do Governo Federal. Em relação a novos projetos ferroviários, afirma que avalia oportunidades na carteira de concessões com base na viabilidade técnica, regulatória e econômica.
Foto: Grupo Aventureiros