O presbítero foi uma figura histórica fundamental no município, atuando como pároco por 36 anos a partir de 1932. Ele foi o idealizador da atual Igreja Matriz São Francisco de Assis, sendo celebrado até hoje por sua dedicação à comunidade, fé e pela construção da imponente igreja. Após sua morte, tornou-se uma figura de veneração local, conhecido por bênçãos e por ter batizado e casado muitos moradores.

O local de seu repouso na igreja é destino de fiéis que pedem milagres e deixam agradecimentos, com direito a um caderno de orações. A praça principal da cidade, onde ocorrem grandes eventos como o Polentaço e o Vieni Vivere la Vita, leva o seu nome. A comunidade realiza, tradicionalmente, celebrações de fé em sua memória, incluindo missas e bênçãos da saúde.

A memória do Padre Ferlin é um pilar da identidade cultural e religiosa de Monte Belo do Sul, ligando a história da imigração italiana à vida comunitária atual.

Na lembrança de moradores mais antigos do município, como Giorge Norberto Eccher, o sacerdote não foi apenas uma liderança religiosa, mas uma figura cercada por acontecimentos que marcaram profundamente a comunidade local. Os relatos, transmitidos de geração em geração, ajudam a construir a imagem de um padre cuja atuação ultrapassava os limites tradicionais da vida paroquial.

Um exorcismo que marcou uma geração

Um dos episódios mais impactantes lembrados por Eccher remonta a meados da década de 1960, quando ele ainda era criança. Segundo o relato, o padre anunciou durante uma missa que, no domingo seguinte, precisaria realizar um “trabalho” e pediu que ninguém permanecesse dentro da igreja após a celebração.

A curiosidade, no entanto, falou mais alto para alguns jovens, que decidiram observar de fora. Foi quando um carro vindo de Santa Catarina chegou ao local trazendo uma família e uma menina de cerca de 12 anos, que, de acordo com o depoimento, apresentava comportamento agitado e resistência ao entrar na igreja.

Levando a jovem com dificuldade até o altar, os familiares a deitaram conforme orientação do padre. O sacerdote, então, iniciou um ritual que durou poucos minutos. “Ela gritava, se debatia, mas de repente parou completamente, como se estivesse dormindo”, recorda Eccher.

Ao final, o padre ajudou a menina a se levantar e caminhar normalmente. A orientação foi simples: que a família lhe desse comida. O gesto seguinte reforçou a imagem de desapego material atribuída ao religioso. Ao ser oferecido pagamento, recusou. Disse que, se quisessem, poderiam ajudar a igreja, mas ele não aceitaria dinheiro. “Foi uma surpresa geral. Do jeito que ela entrou e como saiu, aquilo ficou marcado”, relembra.

A fé diante da tempestade

Outro episódio narrado pelo morador envolve um forte temporal durante a construção da igreja local, obra que mobilizou toda a comunidade em sistema de mutirão.

Parte interna da Paróquia São Francisco de Assis, onde está o túmulo

Em meio a ventos intensos que ameaçavam a estrutura, trabalhadores acionaram o padre. Ele teria ido até a frente da igreja, debaixo de chuva, portando objetos litúrgicos, e iniciado orações. “Parecia que o tempo se abria em forma de cuia”, descreve Eccher. Segundo ele, enquanto o vento seguia forte nas redondezas, a área em frente à igreja ficou protegida, com apenas chuva leve. Após alguns minutos, a tempestade cessou.

A morte e os sinais que ficaram

O padre faleceu em 28 de fevereiro de 1968, com quase 70 anos. Em vida, recusou a ideia de ser enterrado dentro da igreja, desejo defendido por lideranças locais e religiosas da época. Foi sepultado no cemitério comunitário.

Anos depois, em 1975, a comunidade decidiu transferir seus restos mortais para a torre da igreja, um espaço externo ao templo principal. Durante a exumação, outro fato chamou atenção: apesar das condições adversas do túmulo, uma de suas mãos, a que realizava os benzimentos, teria sido encontrada preservada. “Todo mundo ficou perplexo”, conta Eccher.

O traslado também ficou marcado por um detalhe incomum. Mesmo com um caixão leve, os carregadores relatavam dificuldade extrema durante o percurso de cerca de um quilômetro. “Parecia chumbo”, descreve.

Entre o conflito e a reconciliação

As histórias envolvendo o padre também incluem episódios do cotidiano paroquial. Em um deles, um desentendimento com um morador sobre o dízimo terminou de forma inusitada.

Após uma discussão, o homem tentou deixar o local a cavalo, mas, segundo o relato, o animal se recusava a seguir adiante, empinando repetidamente. A situação só teria sido resolvida quando ele decidiu retornar para conversar novamente com o padre, desta vez chegando a um entendimento.

Entre relatos de exorcismo, fenômenos naturais e episódios interpretados como sinais de fé, a figura do padre José Ferlin permanece viva no imaginário de Monte Belo do Sul. “O seu legado é a religiosidade, como ser cristão. Só tenho gratidão, fui batizado, fiz a primeira comunhão e a crisma. Ele é uma referência, é difícil encontrar pessoas assim que fizeram tanto. É só ir em Monte Belo e olhar a Igreja. São raros os que hoje teriam coragem de começar projetos assim. Era muito correto”, conclui Eccher.