A votação nas eleições de domingo, 4 de outubro, servirá como prova de vida para os segurados e pensionistas do INSS. Embora a medida facilite a vida dos beneficiários, as autoridades policiais alertam sobre o golpe da falsa prova de vida, onde os criminosos utilizam aplicativos de mensagens e ligações telefônicas se passando por servidores públicos para tentar capturar dados pessoais e senhas das vítimas
A digitalização dos serviços públicos, idealizada para trazer conforto e agilizar a rotina dos cidadãos, transformou-se em um terreno fértil para uma das modalidades mais cruéis de fraudes financeiras no país. O alvo preferencial é o bolso e a tranquilidade dos segurados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Nas últimas semanas, delegacias especializadas em repressão aos crimes cibernéticos no Rio Grande do Sul registraram um aumento expressivo nas denúncias de estelionato digital envolvendo a chamada “falsa prova de vida”. Os criminosos utilizam o medo dos idosos na suspensão do benefício do INSS para capturar dados pessoais, senhas bancárias e até registros fotográficos das vítimas.
Paralelamente à escalada dos golpes, as autoridades federais correm contra o tempo para informar a população sobre os meios oficiais e seguros de validação cadastral. Uma das principais apostas para frear a ação dos golpistas e esvaziar os balcões de atendimento está nas seções eleitorais. No próximo domingo, 4 de outubro, o simples ato de comparecer às urnas para votar funcionará, de maneira automática, como a comprovação de vida oficial exigida pelo órgão previdenciário. O cruzamento de dados com a Justiça Eleitoral tenta blindar os mais de 40 milhões de beneficiários ativos no Brasil.
A anatomia do golpe
O roteiro do crime é meticulosamente planejado. De acordo com investigações da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, os golpistas não buscam mais invadir sistemas complexos por meio de ataques de hackers tradicionais. Em vez disso, eles atacam o lado mais vulnerável do processo: o fator humano, por meio da Inteligência Artificial (IA).
Como ocorre?
O contato inicial costuma ocorrer por chamadas telefônicas ou mensagens de texto no WhatsApp e SMS. O criminoso do outro lado da linha se apresenta como funcionário do INSS ou operador da Central 135. Para dar veracidade à abordagem, os estelionatários frequentemente recitam dados reais do aposentado, como nome completo, CPF e, em alguns casos, até o número do benefício, informações vazadas ou compradas no mercado ilegal de dados.
De acordo com a Polícia Civil, o golpista cria um senso de urgência artificial. Ele afirma que o sistema detectou uma pendência na prova de vida anual do segurado e que, se o procedimento não for regularizado nas próximas 24 horas, o pagamento da aposentadoria ou pensão será imediatamente bloqueado.

Em uma das variantes mais comuns da fraude apurada pela Polícia Civil gaúcha, os criminosos enviam mensagens SMS ou conversas pelo WhatsApp contendo links fraudulentos, como falsos endereços de portais na internet criados especificamente para coletar dados. Ao clicar no endereço eletrônico indicado, o beneficiário é redirecionado para uma página visualmente idêntica ao portal oficial do Governo Federal. Lá, é solicitado o preenchimento de senhas bancárias e, o que é mais grave, a realização de uma selfie (uma foto que uma pessoa tira de si mesma) para suposto “reconhecimento facial”. Com essa foto e os dados bancários na mão, os criminosos conseguem abrir contas correntes, contratar empréstimos consignados e desviar os recursos da própria vítima.
13 milhões de segurados na zona de risco
O avanço dos golpes se aproveita de um cenário de desinformação gerado por uma mudança nas regras de funcionamento da autarquia. A responsabilidade de comprovar que o beneficiário continua vivo passou a ser do próprio INSS, e não mais do cidadão. O órgão passou a utilizar o cruzamento de dados de bases governamentais. Atividades como renovação de carteira de motorista (CNH), emissão de passaporte, registros de vacinação e os atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) passaram a computar pontos automáticos de validação no sistema.
No entanto, o processo automático possui falhas de cobertura, eis que hoje 13 milhões de beneficiários ainda não tiveram a prova de vida confirmada em 2026 por meio desses cruzamentos convencionais de dados. Isso equivale a cerca de 32% do total de segurados sob a cobertura da Previdência Social.
Segundo a assessoria de Comunicação da Polícia Civil, é justamente essa parcela da população, que não realizou transações civis ou médicas recentes monitoradas pelo governo, que os golpistas concentram sua artilharia pesada.
A urna como segurança previdenciária
É dentro desse cenário de vulnerabilidade digital e necessidade de checagem em massa que as eleições gerais deste ano assumem um papel técnico que vai muito além da escolha de representantes políticos. O Ministério da Previdência Social e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) firmaram uma parceria operacional para que o comparecimento às seções eleitorais seja computado de forma direta como prova de vida.
No dia da eleição, quando o eleitor registrar sua presença junto aos mesários e posicionar o dedo no leitor biométrico da urna, a informação de presença será coletada pela Justiça Eleitoral. Posteriormente, esses arquivos consolidados de comparecimento serão compartilhados com o sistema de dados da Previdência Social.
O que diz o INSS?
Segundo o superintendente regional Sul do INSS, Alberto Carlos Freitas Alegre, o cidadão não precisa levar nenhum papel ao banco, não precisa tirar cópia do comprovante de votação e não deve ir às agências do INSS para avisar que votou. O processamento sistêmico é inteiramente automático. “O sistema reconhece o comparecimento independentemente das opções políticas registradas na urna; votos nominais, brancos ou nulos geram exatamente o mesmo efeito de validação de vida perante o Estado”, explica.




