Sexta-feira, 25 de Setembro de 2026

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Festa de Santa Madre Paulina atravessa gerações e mantém tradição viva em Faria Lemos

Almoço promovido pelo Clube de Mães Reunidas reuniu mais de 500 pessoas e mobilizou famílias que, há décadas, participam da organização da celebração na Comunidade São Paulo da Linha Paulina

A tradição iniciada há décadas na Comunidade São Paulo da Linha Paulina continua sendo construída pelas novas gerações. No domingo, 20 de setembro, o Clube de Mães Reunidas realizou mais uma edição do almoço festivo em honra a Santa Madre Paulina, reunindo mais de 500 pessoas em um encontro marcado pela fé, pela confraternização e, principalmente, pela participação de famílias que mantêm o compromisso com a comunidade ao longo dos anos.

A celebração surgiu a partir da devoção de integrantes do Clube de Mães Reunidas, que decidiram trazer para a comunidade uma imagem de Santa Madre Paulina após uma viagem a Nova Trento. A iniciativa deu origem a uma tradição que passou a ser realizada anualmente no mês de setembro. Embora a data dedicada à santa seja 9 de julho, a festa foi incorporada ao calendário da comunidade e permanece como um dos momentos de encontro entre moradores e famílias da região.

Mais do que preservar uma devoção, a festa também mantém vivo o trabalho iniciado pelas primeiras integrantes do clube. Muitas das mulheres que ajudaram a construir essa história já não estão presentes, mas o compromisso foi assumido pelas gerações seguintes.

Uma das fundadoras do Clube de Mães Reunidas e responsável pela cozinha, Anita Daros Marcolin participa da comunidade há décadas e acompanha de perto essa continuidade. Ela conta que a participação das mulheres mais jovens é fundamental para que o trabalho tenha sequência. “Estamos ensinando para as mais novas, porque nós estamos ficando velhas”, afirma Anita.

Segundo ela, a transmissão acontece dentro das próprias famílias. Filhas e outras mulheres mais jovens passam a integrar o grupo e aprendem, na prática, as tarefas necessárias para a realização da festa. O Clube de Mães Reunidas, fundado em 1984, reúne atualmente mais de 20 associadas e mantém atividades voltadas tanto à comunidade quanto à integração entre as famílias.

Uma tradição que começa dentro de casa

A história de Denize Salton também representa esse processo de continuidade. Moradora da comunidade há 35 anos, ela chegou ao grupo por influência da sogra, que ainda faz parte da história do Clube de Mães. Desde então, passou a participar das atividades e das festas realizadas na comunidade. “Eu digo, as gurias aqui, né? E aí a gente está sempre junta. A gente não vem trabalhar só pelo clube de mães; quando tem festa, a gente sempre está aqui”, relata Denize.

Para ela, a participação deixou de ser apenas uma atividade voluntária e passou a fazer parte da própria trajetória familiar. O envolvimento das mulheres e de suas famílias permite que o trabalho seja dividido e que as atividades continuem mesmo com a passagem dos anos.

A organizadora Luciane Beal também cresceu nesse ambiente. Ela relata que participa da comunidade desde criança, acompanhando os pais, que eram fabriqueiros. Mais tarde, passou a integrar o Clube de Mães e levou a mesma vivência para os filhos. “Minha mãe me levava desde pequena para a comunidade, eu dei continuidade a isso e sempre trouxe meus filhos junto”, explica.

A presença das novas gerações, segundo Luciane, é justamente um dos fatores que ajudam a manter a festa. Enquanto em outras comunidades existe dificuldade para encontrar voluntários, especialmente entre os mais jovens, na Linha Paulina os próprios filhos acompanham os pais nas atividades e aprendem as funções desde cedo. “Desde pequena, com 10 ou 11 anos, eu já participava e ajudava, assim como meus filhos ajudam hoje”, conta.

Preparação começa meses antes

Embora o almoço ocorra em um único domingo, a preparação se estende por vários meses. Conforme Luciane, a organização da edição deste ano começou ainda em setembro de 2025, quando o grupo encerrou a festa anterior já pensando nas mudanças para a próxima.

Em julho, começaram a ser confeccionados os ingressos. Em agosto, eles foram distribuídos entre as associadas, com cada integrante responsável pela venda de uma cota. A diretoria da comunidade participa das compras e da organização, enquanto outras pessoas auxiliam na cozinha, no atendimento e nas demais tarefas.

Neste ano, foram vendidos 472 ingressos, enquanto o público total, considerando também voluntários e demais participantes, ultrapassou 500 pessoas. Além das 28 sócias do Clube de Mães, a equipe contou com garçons, churrasqueiros e voluntários da comunidade.

A movimentação na cozinha começou dias antes do almoço. As cozinheiras trabalharam desde a quinta-feira que antecedeu a festa para preparar o cardápio, que incluiu lasanhas de carne e brócolis, pien, torta fria de frango e legumes, maionese, saladas, galeto, churrasco, pão, vinho, refrigerantes, água e sobremesas.

Entre os pratos, a lasanha se tornou uma das marcas do almoço e ajuda a explicar a fidelidade do público. De acordo com a organização, muitos participantes retornam todos os anos e chegam a reservar os ingressos antecipadamente. “É o nosso carro-chefe. Todo mundo, onde você vai, a gente pede: ‘Lá da Paulina tem aquela lasanha lá’”, brinca Anita.

A procura faz com que a organização mantenha um público recorrente. Segundo Luciane, em alguns casos os participantes já procuram informações sobre a próxima edição meses antes da realização da festa.

Trabalho voluntário que retorna para a comunidade

A missa foi celebrada pelo pároca da São Roque, Moacir Canal

O valor arrecadado com o almoço fica com o Clube de Mães Reunidas. Parte dos recursos é destinada às atividades do próprio grupo e parte retorna para a comunidade por meio de ações e melhorias.

Atualmente, entre as iniciativas está a manutenção do Capitel de Santo Antônio e o auxílio em necessidades do salão comunitário, como restaurações e substituição de itens. A atuação do clube também inclui doações a pessoas que precisam de auxílio, aquisição de utensílios para a capela e outras ações realizadas ao longo de sua trajetória.

A festa, portanto, mobiliza a comunidade em duas frentes: na organização do próprio evento e no trabalho voluntário que permanece durante o restante do ano.

A cozinha também reúne pessoas que participam há muitos anos. É o caso de Norberto Guggan, que atua como churrasqueiro há cerca de uma década e se tornou o integrante mais antigo da equipe atual nessa função. Ele aprendeu o trabalho com o antigo responsável e, posteriormente, assumiu a função. “Eu acabo participando das festas de umas três ou quatro comunidades, então já estou acostumado com eventos grandes”, relata.

Na Linha Paulina, ele trabalha ao lado de uma equipe que já conhece as funções de cada integrante. Enquanto alguns ficam responsáveis pelo frango, outros cuidam das carnes assadas, permitindo que o serviço seja dividido entre os voluntários.

Para Norberto, a participação também está relacionada ao vínculo com o local. Morador da comunidade e devoto de Santa Madre Paulina e de Nossa Senhora do Caravaggio, ele afirma que o trabalho se torna mais leve pela convivência entre os voluntários.

Uma história construída por muitas gerações

A trajetória do Clube de Mães Reunidas começou em meados de 1984, com Issolina Scarton, Clarice Moro, Emília Dall’Oglio, Terezinha Casanova, Maria Zaccaron, Aide Poloni, Maria Zortéa e Ilda Cusin. Desde então, o grupo passou por diferentes gerações e manteve sua atuação baseada no voluntariado, na amizade, na fé e no auxílio à comunidade.

A própria festa de Santa Madre Paulina nasceu dessa continuidade. Anita recorda que, durante uma viagem a Nova Trento, surgiu entre algumas integrantes a ideia de levar uma imagem da santa para a Linha Paulina. A proposta foi apresentada às demais integrantes e acabou sendo aprovada.

A imagem foi trazida para a comunidade e passou a ocupar um espaço na praça, onde permanece como local de oração, reflexão e agradecimento. A partir daí, o grupo passou a realizar anualmente uma celebração para manter viva a devoção e também a memória das mulheres que participaram do início da iniciativa.

Hoje, mães, filhas e netas assumem as tarefas que antes estavam nas mãos de outras gerações. A continuidade não acontece apenas na organização da festa, mas também na forma como os mais jovens aprendem a participar da vida comunitária.

No fim do trabalho, apesar do cansaço de dias de preparação, permanece a sensação de que o esforço valeu a pena. Para Luciane, que cresceu participando das atividades e atualmente vê os filhos ajudando, essa continuidade representa a recompensa pelo trabalho realizado. “É uma sensação maravilhosa. É cansativo e às vezes dá algum aborrecimento, mas a sensação no final é de recompensa”, afirma.

Assim, a cada setembro, a festa de Santa Madre Paulina renova uma história que começou com um grupo de mulheres e hoje continua pelas mãos de outras gerações. Entre panelas, mesas, orações, voluntários e famílias reunidas, a tradição segue sendo ensinada e vivida dentro da própria comunidade.

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