Em meio às transformações do mercado de trabalho e ao avanço da automação industrial, algumas profissões seguem indispensáveis para o funcionamento da indústria, mas enfrentam dificuldades para atrair novos profissionais. É o caso da profissão de torneiro, considerada essencial em diferentes segmentos da cadeia metalúrgica e industrial. Em Bento Gonçalves, município reconhecido pela força do setor metalmecânico, a escassez de mão de obra especializada tem se tornado um desafio crescente para empresas da região.
Com a redução do número de profissionais qualificados disponíveis no mercado, a procura aumenta a cada ano, principalmente em indústrias que dependem da fabricação e manutenção de peças técnicas e equipamentos. Empresários e representantes do setor apontam que a dificuldade em encontrar trabalhadores capacitados impacta diretamente a produção e reforça a necessidade de valorização e formação de novos profissionais para a área.
De acordo com Bárbara Glanert, gerente industrial da Sava Equipamentos Industriais Ltda, empresa localizada no município, o cenário é desafiador em relação à disponibilidade de trabalhadores. “Com uma oferta inferior às necessidades do setor, especialmente no que diz respeito às exigências técnicas e comportamentais da função”, aponta.
Segundo ela, o cenário se torna ainda mais desafiador quando se trata de funções diretamente ligadas aos processos produtivos, áreas em que há alta demanda por profissionais com conhecimentos técnicos e qualificação específica. “É um movimento gradual, que vem se intensificando ao longo dos anos, e hoje representa um dos principais desafios da indústria”, afirma.
Habilidades
Bárbara menciona que as habilidades técnicas são indispensáveis para estes casos. “Além de conhecimentos técnicos específicos, como a leitura e interpretação de desenhos, destacam-se competências comportamentais, como a proatividade, comprometimento e disposição para o aprendizado contínuo”, afirma.
Alexandre Julio Rossi, empresário na área da tornearia, conta que entrou na área da metalúrgica em 2014, aos 19 anos. “Tudo o que eu aprendi foi na prática. O único curso que eu tenho é de metalurgia. O resto aprendi trabalhando, batendo a cabeça, imaginando e testando”, conta.
Ele relata que passou por diversas empresas do setor em Bento Gonçalves, experiência que contribuiu para o aprimoramento técnico e profissional ao longo dos anos. Atualmente, ele atua com a própria empresa, prestando serviços terceirizados na área de torno no município.

O torneiro destaca que, ao longo dos anos de experiência na área, também contribuiu para a formação de novos profissionais. Segundo ele, a falta de mão de obra qualificada é tão significativa que empresas enfrentam dificuldades para preencher vagas por longos períodos. “Um dos guris que eu formei entrou numa das vagas da Mesal agora há poucos dias. Fazia mais de um ano que a vaga estava aberta e eles não achavam ninguém. Isso que o guri tem 20 anos”, afirma.
Ele acrescenta que, antes de qualquer conhecimento técnico, é fundamental gostar da profissão e ter interesse pelo trabalho realizado no dia a dia. Segundo o torneiro, a área proporciona desafios constantes, além da possibilidade de desenvolver criatividade e transformar diferentes materiais em peças e soluções para a indústria. “Eu gosto do que eu faço. A criatividade que coloca em prática ali é surreal. Pego um pedaço de ferro e transformo em qualquer coisa. Plástico, metal, algum material que consiga trabalhar. É muito gratificante ver o que sou capaz de fazer no dia a dia e, quando vem o reconhecimento, a satisfação é ainda maior”, relata.
Incentivos
A gerente industrial afirma que as empresas mantêm iniciativas voltadas à capacitação e ao desenvolvimento profissional, com divulgação e apoio em cursos. “Ainda assim, o engajamento dos colaboradores nessas iniciativas segue sendo um ponto de atenção”, esclarece.
Segundo ela, ainda existe um descompasso entre a formação técnica oferecida no mercado e as necessidades práticas da indústria. Ela explica que muitas vezes os profissionais chegam às empresas sem domínio completo das competências exigidas no ambiente fabril, o que torna indispensável o investimento em programas internos de capacitação, treinamento e integração. A estratégia, segundo ela, busca preparar os colaboradores para atender às demandas operacionais e acompanhar as constantes transformações do setor industrial.
Terceirização
Segundo Bárbara, a contratação de profissionais terceirizados desempenha um papel importante no suporte às demandas da produção e no funcionamento das operações industriais. “No entanto, a gestão de prazos de entrega e o alinhamento de expectativas são aspectos que demandam atenção constante para garantir a eficiência dos processos”, aponta.
Mudança no perfil
Tanto Rossi quanto Bárbara observam uma mudança no perfil dos jovens em relação ao mercado de trabalho, fator que impacta diretamente a disponibilidade de mão de obra na indústria. “ Há menos procura por funções industriais, especialmente aquelas vinculadas ao ambiente produtivo”, destaca Bárbara.
Rossi acrescenta que muitos jovens chegam inseguros e pouco preparados para enfrentar a rotina industrial. Segundo ele, existe uma percepção negativa sobre o trabalho nas áreas produtivas, o que acaba afastando novos profissionais. “Muitas vezes apavoram os guris. É claro que eles não querem trabalhar; se a pessoa está com medo de fazer aquilo, como vai querer encarar?”, relata. Ela afirma ainda que, entre os jovens que já treinou, poucos permaneceram na função devido às exigências físicas da atividade. “Começam a reclamar que se suja demais, que é pesado, que cansa e causa dores no corpo”, completa.
Diversos fatores contribuem para a redução de profissionais na área, entre eles as transformações no mercado de trabalho e as mudanças nas expectativas das novas gerações em relação à carreira. Segundo Bárbara, muitos jovens têm buscado profissões consideradas mais flexíveis, com rotinas menos rígidas e mais alinhadas aos novos estilos de vida, o que acaba reduzindo o interesse pelas funções industriais e operacionais.
O torneiro avalia que a escassez de profissionais não é um problema restrito à região, mas uma realidade observada em diferentes países. Segundo ele, funções técnicas e operacionais, como torneiro, fresador, soldador, mecânico de manutenção e de máquinas, enfrentam cada vez mais dificuldade na contratação de mão de obra qualificada. “Hoje em dia é um problema mundial não encontrar mais profissionais para essas áreas”, nota.
Projeção
Ross afirma que o pequeno empreendedor tem enfrentado cada vez mais dificuldades diante da redução de incentivos e do aumento dos impostos. Segundo ele, a alta nos custos de produção impacta diretamente os preços finais dos serviços e produtos, dificultando a competitividade das empresas. “Meu insumo aumentou 15%. Como é que eu vou repassar isso agora? Se antes custava 15, vou ter que cobrar 22. Daí o cliente não quer pagar”, relata.
Bárbara afirma que as perspectivas para os próximos anos ainda apontam para um cenário desafiador em relação à contratação e qualificação de mão de obra. Diante disso, segundo ela, a empresa pretende seguir investindo na formação interna de profissionais, no desenvolvimento de talentos e em estratégias voltadas à atração e retenção de colaboradores. “Reforçamos o compromisso com a capacitação e a busca por soluções que garantam a continuidade e a eficiência das operações”, conclui.