Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026

ÚLTIMA HORA

E a chuva voltou

Eu vejo o futuro repetir o passado e isso me assusta.

As chuvas de setembro chegaram com tudo. Em algumas cidades do Rio Grande do Sul, foram mais de 100 milímetros em poucas horas. E, mais uma vez, rios subiram, estradas foram interrompidas, pontes ficaram ameaçadas e famílias olharam para o céu com um medo que, há alguns anos, não fazia parte da nossa rotina.
Penso nos meus avós paternos, que viveram quase 90 anos. Eles atravessaram secas, temporais, geadas, perdas e recomeços. Mas nunca tinham visto pontes caírem como vimos, água passar por cima delas, morros desmoronarem ou cidades inteiras pararem pela força da chuva. Se eu pudesse contar a eles tudo o que vivemos desde 2023, talvez custassem a acreditar.

E isso é o que mais dói: começamos a nos acostumar com imagens com as quais nunca deveríamos nos acostumar.

Desde 2023, os cenários se repetem. Mudam os municípios, os rios e as famílias atingidas, mas a sensação é a mesma: alerta no celular, estrada interditada, ponte levada, casa invadida pela água, gente tentando recomeçar.
Três anos se passaram, e ainda existem lugares tentando se reerguer. Há comunidades aguardando obras e famílias reconstruindo o que perderam. Falta prevenção, planejamento e rapidez diante de uma realidade que já não pode mais ser tratada como exceção.

Também mudou a nossa relação com a chuva.

Quando eu era criança, chuva forte tinha outro significado. Era barulho gostoso no telhado, fogão a lenha aceso, cheiro de café, chimarrão e tempo de ficar olhando da área enquanto a água despencava. Era quase um convite para desacelerar.

Hoje, para muita gente, chuva não traz descanso. Traz cálculo: quanto subiu o rio? A estrada está aberta? A água vai entrar? E se a ponte cair?

Quem mora perto de rios e arroios já não dorme da mesma forma. Quem já teve água dentro de casa sabe que o medo não vai embora quando a enchente baixa. Quem vive da agricultura olha para o céu com o coração apertado, porque basta uma chuva de pedra sobre as parreiras que estão brotando para meses de trabalho virarem prejuízo em minutos.

Já dizia uma de nossas músicas “O campo alagado nos obriga a reza […] a enchente anda danada molestando o pasto”. Parece que versos antigos passaram a falar dos nossos dias.

O Rio Grande do Sul continua sendo uma terra linda, daquelas que dão orgulho de pertencer. Mas, nos últimos anos, também se tornou uma terra cansada de recomeçar.

Não podemos impedir a chuva de cair. Mas podemos decidir o que fazemos antes, durante e depois dela. Podemos cuidar melhor das cidades, dos rios, das encostas, das estradas, das pontes e, sobretudo, das pessoas.
Porque reconstruir não deveria significar apenas levantar de novo aquilo que caiu. Deveria significar aprender.

A chuva voltou.

E confesso que já não consigo ouvi-la no telhado da mesma maneira.
Talvez muitos gaúchos também não.
Que um dia possamos voltar a ouvir a chuva sem medo, sem sirenes, sem despedidas.
Apenas barulho da chuva para acalmar.

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