Os parreirais, que durante a primavera e o verão exibem folhas verdes e cachos em desenvolvimento, assumem uma aparência austera, marcada por troncos e ramos desnudos. Para quem observa de fora, pode parecer que as plantas estão sem vida.
A importância da dormência das parreiras é destacada por profissionais que acompanham diariamente o desenvolvimento dos vinhedos na região. Embora cada empresa possua particularidades em seus sistemas de produção, há consenso entre os especialistas de que uma dormência bem estabelecida é essencial para o sucesso da vitivinicultura.
Segundo o gerente técnico agrícola da Cooperativa Vinícola Garibaldi, Evandro Bosa, o período representa um mecanismo natural. “A dormência da videira é um repouso metabólico que acontece no inverno, acionado pelo frio e pelos dias curtos para proteger a planta contra o congelamento e garantir uma brotação forte na primavera”, explica.
O gerente agrícola da Cooperativa Vinícola Aurora, Maurício Bonafé, ressalta que essa etapa faz parte do comportamento natural das plantas cultivadas em regiões de clima temperado. “Com a redução das temperaturas e do fotoperíodo durante o outono e o inverno, a planta entra em um estado de repouso fisiológico, interrompendo temporariamente seu crescimento vegetativo. Nesse período ocorre a queda das folhas e a redução da atividade metabólica, permitindo que a videira conserve energia e se prepare para um novo ciclo produtivo”, afirma.
Já o enólogo do Grupo Famiglia Valduga, Daniel Dalla Valle, observa que esse mecanismo é resultado de uma adaptação desenvolvida pela espécie ao longo de sua evolução. “A videira desacelera sua atividade metabólica, interrompe o crescimento dos ramos e direciona sua energia para a conservação das reservas acumuladas ao longo do ciclo anterior. Trata-se de um mecanismo de adaptação essencial para que a planta suporte as condições climáticas do inverno e se prepare adequadamente para a próxima safra”, destaca.

Maurício Bonafé, gerente agrícola da Cooperativa Vinícola Aurora

Energia armazenada para o futuro
Embora os vinhedos aparentem estar inativos, os especialistas ressaltam que uma intensa atividade fisiológica continua ocorrendo dentro das plantas. Durante a dormência, as videiras reservam seus nutrientes no tronco, braços e raízes. Neste momento, acontecem diversos processos bioquímicos e fisiológicos importantes para a superação do período, garantindo uma brotação uniforme quando as condições climáticas voltarem a ser favoráveis.
A necessidade de um período adequado de dormência faz com que produtores e técnicos acompanhem atentamente as condições climáticas do inverno. A redução das horas de frio pode provocar uma série de problemas que se refletem diretamente na produtividade dos vinhedos. “Quando a videira não completa adequadamente esse período de repouso, ela apresenta uma brotação desuniforme, reduz a fertilidade das gemas e, consequentemente, ocorre diminuição da produção de uvas”, afirma Bosa.
Segundo Bonafé, os prejuízos podem se estender para além de uma única colheita. “Como consequência, pode haver queda na produtividade e prejuízos à qualidade da uva, comprometendo inclusive o potencial produtivo das safras seguintes”, observa.
Na avaliação de Dalla Valle, a falta de uma dormência adequada também dificulta o trabalho realizado ao longo do ciclo. “Entre os principais impactos estão a brotação irregular das gemas, menor uniformidade do vinhedo, redução da fertilidade dos brotos e atraso no desenvolvimento vegetativo. Esses fatores podem dificultar o manejo ao longo da safra”, destaca.

Manutenções da estação
O período de dormência também marca a realização da poda de inverno, considerada uma das principais atividades do calendário vitícola. Executada quando a planta apresenta menor atividade fisiológica, a prática permite definir o potencial produtivo da safra seguinte. “Ela aproveita esse momento para moldar a planta e regular a produção sem causar perda de seiva ou desgaste energético, já que a videira está concentrando nutrientes em suas estruturas permanentes”, explica Bosa.
Bonafé destaca que a poda também contribui para melhorar a qualidade dos frutos e aumentar a longevidade dos parreirais. “Essa prática permite regular a quantidade de gemas que irão brotar na primavera, equilibrando vigor vegetativo e produção. Além disso facilita os tratos culturais e garantir a longevidade dos vinhedos. Também é uma época importante para análises de solo e correções necessárias visando o próximo ciclo produtivo”, afirma.
Segundo Dalla Valle, trata-se de uma ferramenta fundamental para o equilíbrio. “É uma das operações mais importantes para a qualidade e a produtividade da safra seguinte. É também um momento estratégico para monitorar o estado geral das plantas e preparar o vinhedo para uma brotação uniforme na primavera”, ressalta.
Os especialistas complementam ainda que há diferenças entre a produções destinadas a vinhos e sucos. “As videiras europeias (Vitis vinifera), utilizadas na elaboração de vinhos finos, geralmente apresentam maior exigência em horas de frio e demandam manejo mais criterioso da poda. Já as variedades americanas e híbridas, amplamente utilizadas na produção de sucos e vinhos de mesa, costumam apresentar menor exigência de temperaturas mais baixas e maior rusticidade. Essas características influenciam tanto o manejo da dormência quanto o momento da poda e da brotação”, afirma Bonafé.
Dalla Valle observa ainda diferenças no manejo. “Cultivos voltados para sucos ou uvas de mesa, o manejo pode priorizar maior produtividade ou características específicas dos cachos e bagas. Essas particularidades influenciam principalmente as estratégias de poda, condução e definição da carga produtiva”, orienta.
Nos últimos anos, as alterações climáticas têm gerado preocupação crescente entre os profissionais do setor. “Invernos mais amenos podem reduzir o acúmulo de horas de frio necessário para a superação da dormência em determinadas variedades. Como consequência, pode ocorrer uma brotação menos uniforme, comprometendo o desenvolvimento inicial dos vinhedos e aumentando a variabilidade entre plantas”, explica Dalla Valle.
Bonafé observa que o fenômeno já exige atenção permanente dos produtores e das instituições de pesquisa. “Invernos mais quentes podem reduzir o acúmulo de horas de frio necessárias para a superação adequada da dormência. Isso pode resultar em brotação desuniforme, menor fertilidade das gemas e desenvolvimento irregular dos vinhedos”, afirma.
Bosa também afirma preocupação com o fenômeno. “Essa alteração pode causar redução do número de cachos e queda na produtividade”, alerta Bosa.

Daniel Dalla Valle, enólogo do Grupo Famiglia Valduga

Sanidade e correção dos solos
A estação também é considerado um período estratégico para ações preventivas relacionadas à sanidade dos vinhedos. Embora a atividade vegetativa seja reduzida, algumas doenças e pragas podem permanecer presentes nos parreirais. “As principais ameaças nessa época são as doenças fúngicas que permanecem nos ramos secos e os ácaros que se abrigam sob a casca dos troncos”, afirma Bosa.
Bonafé destaca a importância da limpeza dos vinhedos para reduzir fontes de contaminação. “Entre as principais preocupações estão o míldio, antracnose, escoriose e doenças do lenho”, explica.
Dalla Valle chama atenção para doenças que podem se instalar por meio dos cortes de poda. “Merecem atenção especial as doenças da madeira, como esca, eutypiose e botriosferiose. Por isso, a realização de podas corretas e o manejo adequado dos resíduos vegetais são fundamentais para a sanidade dos parreirais”, afirma.
Além das questões sanitárias, a dormência é considerada o momento ideal para realizar melhorias no solo. “Nessa época, realizamos correções com calcário, reduzindo a acidez do solo, além da aplicação de adubos orgânicos”, explica Bosa.
Bonafé acrescenta que também são realizadas aplicações de nutrientes, como fósforo e potássio, e manejo da cobertura vegetal, enquanto Dalla Valle destaca a incorporação de matéria orgânica e intervenções voltadas à melhoria da estrutura física e da drenagem dos solos.
Mesmo antes da brotação, os técnicos conseguem realizar avaliações que ajudam a projetar o potencial produtivo dos vinhedos. “No mês de junho, a cooperativa faz o teste da fertilidade de gemas, em que, por meio de uma técnica agronômica, induzimos a brotação das gemas das videiras, num ambiente controlado, assim é possível contar o número de cachos. Com isso, é feito um cálculo pela quantidade de gemas que se pretende deixar por hectare e temos uma projeção do potencial produtivo da safra. No entanto, fatores como condições climáticas durante a brotação, floração, frutificação e maturação continuarão exercendo grande influência sobre a produtividade e a qualidade final da safra”, afirma Bonafé.
A análise de gemas também é realizada na cooperativa vinícola Garibaldi. “É possível prever o potencial produtivo por meio da análise de gemas, que quantifica microscopicamente os primórdios de cachos antes da brotação”, explica Bosa.
Dalla Valle pondera que as estimativas precisam ser analisadas com cautela. “É possível realizar avaliações preliminares observando fatores como o vigor das plantas, o estado sanitário dos vinhedos e a qualidade das gemas formadas durante o ciclo anterior. No entanto, a produtividade final dependerá das condições climáticas que ocorrerão ao longo de todo o ciclo”, ressalta.
Para uma região que tem na vitivinicultura uma de suas principais atividades econômicas, os reflexos de uma dormência adequada vão muito além dos vinhedos. “Um inverno favorável garante alta produtividade e uvas de melhor qualidade. Isso reduz custos com indutores de brotação e impulsiona diretamente o faturamento da indústria do vinho e também do enoturismo regional”, destaca Bosa.
Bonafé reforça que toda a cadeia produtiva é beneficiada por condições climáticas favoráveis. “Um inverno com condições adequadas de frio favorece a brotação mais uniforme, melhor fertilidade das gemas e maior potencial produtivo”, ressalta.
Dalla Valle observa que ganhos de produtividade, qualidade e eficiência impactam desde os produtores rurais até os setores ligados ao turismo e à gastronomia.

Evandro Bosa, gerente técnico agrícola da Cooperativa Vinícola Garibaldi


Expectativas para a próxima safra
Neste início de estação, os três especialistas avaliam positivamente o cenário dos vinhedos da Serra Gaúcha, embora ressaltem que ainda é cedo para previsões definitivas. “As videiras encontram-se em processo normal de dormência, com boa entrada em repouso vegetativo e condições adequadas para a realização das atividades de manejo previstas para o período”, afirma Bonafé.
Bosa reforça o parecer. “O que podemos observar neste momento é que os parreirais estão saudáveis, mas ainda é muito cedo para prever como será a próxima safra”, afirma.
Já Dalla Valle destaca que os vinhedos apresentam comportamento compatível com a época do ano, com bom estado vegetativo e sanitário. “As equipes estão concentradas nas atividades de poda, manutenção dos vinhedos e preparação das áreas para o próximo ciclo produtivo, sempre com foco na qualidade da futura safra”, ressalta.
Caso as condições climáticas permaneçam favoráveis, os especialistas esperam uma brotação uniforme na primavera, seguida por boa floração, adequada formação de cachos e desenvolvimento equilibrado dos vinhedos.
Dalla Valle ressalta o acompanhamento das equipes. “Seguimos acompanhando atentamente as condições climáticas e o comportamento das plantas para que possamos, mais uma vez, buscar uma safra de elevada qualidade, alinhada ao potencial dos nossos terroirs”, conclui.
Bosa reitera ter boas perspectivas para o período. “As expectativas pós-dormência são de uma brotação uniforme e vigorosa na primavera, seguida pelo florescimento homogêneo e formação de cachos bem distribuídos que definirão o alto potencial de rendimento da safra”, complementa.
Embora as condições sejam positivas, Bonafé ressalta a necessidade de atenção. “Como este é um ano influenciado pelo El Niño, a tendência é de volumes de chuva mais elevados e períodos prolongados de umidade, condições que podem aumentar a pressão de doenças fúngicas e elevar os desafios no manejo dos vinhedos. Diante desse contexto, a equipe agrícola da cooperativa já está estruturando uma estratégia de monitoramento e assistência técnica para realizar recomendações cada vez mais assertivas aos viticultores cooperados, buscando minimizar riscos e evitar perdas tanto em qualidade quanto em volume da produção. O objetivo é que os produtores estejam preparados para agir de forma preventiva e eficiente ao longo de todo o ciclo vegetativo da videira”, finaliza.