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De pai para filho, o blues atravessa gerações em Bento Gonçalves

Embora tenha surgido no sul dos Estados Unidos no final do século XIX, o blues segue encontrando admiradores e espaço para crescer em Bento Gonçalves. Com um público fiel e iniciativas voltadas à difusão do gênero, músicos da cidade mantêm viva uma tradição que influenciou diversos estilos musicais modernos, especialmente o rock and roll.

Um dos nomes ligados à cena local é o guitarrista Ale Lucietto, fundador da Confraria do Blues de Bento Gonçalves. Com cerca de 30 anos de trajetória musical, ele conta que seu interesse pelo gênero nasceu justamente da busca pelas origens do rock. “Tudo no rock clássico se volta para o blues. Quando entendi isso, resolvi abandonar o rock e focar no blues elétrico, principalmente pela força da guitarra no estilo. Foi ali que me encontrei, e é o blues que me mantém tocando hoje. Ainda trabalho com outros estilos, porque isso é um requisito técnico na minha atuação em eventos corporativos e casamentos. Esses cenários exigem leitura de ambiente e adaptação de repertório com excelência”, afirma.

Ao longo da carreira, Lucietto passou por diferentes formações musicais. Atualmente, apresenta-se em duo, trio e quarteto, sempre acompanhado do filho na bateria. Cada configuração oferece características próprias ao espetáculo.

No formato duo, o ambiente é mais intimista e adequado para espaços menores. Já o trio, composto por guitarra, baixo e bateria, segue a tradição do blues elétrico, com maior intensidade sonora e espaço maior para improvisações. O quarteto acrescenta a harmônica (gaita de boca), ampliando as possibilidades musicais e favorecendo a interação com o público. “O improviso sempre foi uma marca dos shows que criei. Cada formação tem um objetivo diferente, mas todas mantêm essa característica”, explica.

Nicho consolidado

Apesar de não estar entre os gêneros mais populares entre os jovens, o blues possui um público consolidado na Serra Gaúcha. Segundo Lucietto, o estilo costuma encontrar espaço em festivais, eventos de jazz e blues e também em iniciativas ligadas ao turismo e à enogastronomia.

Foi justamente com a intenção de fortalecer esse cenário que surgiu, em 2020, a Confraria do Blues de Bento Gonçalves. O projeto busca reunir músicos e apreciadores para troca de experiências e realização de jam sessions. “O blues é um nicho específico, com um público fiel, maduro e exigente. Não é um gênero de consumo em massa, mas é um mercado sólido”, observa.

Ale Lucietto e seu filho, Victor Salton Lucietto

Para ele, o interesse das novas gerações normalmente surge por influência familiar. Nesse contexto, a participação do filho na banda ganha um significado especial. “Minha família é meu pilar central e minha responsabilidade máxima; minha dedicação a eles é incondicional. Ter meu filho assumindo a bateria une essa base familiar à minha profissão. No palco, o profissionalismo é exigência máxima. Ele tem uma responsabilidade enorme, pois qualquer erro na bateria afeta a banda inteira, mas a emoção de tocar com ele é inigualável. Pensando no futuro do blues, isso representa a transferência direta de um legado. O jovem só vai conhecer e se interessar pelo estilo se os mais velhos apresentarem a ele. O mercado mudou e o público mais novo tem menos interesse em apresentações de bandas ao vivo. Ter meu filho na banda une esses dois mundos. Pelo fato de ele ser jovem, acaba atraindo amigos e conhecidos da geração dele para conhecerem uma música com mais raiz”, comenta.

Crescimento e profissionalização

Comparando o cenário atual com o início de sua trajetória, Lucietto percebe avanços significativos para o blues na região. “Hoje vejo muito mais espaço para o gênero do que quando comecei. Existem mais eventos onde o blues é a atração principal”, relata.

Além da ampliação dos espaços, ele ressalta a mudança no perfil do público e dos contratantes, que passaram a valorizar cada vez mais a qualidade técnica e o profissionalismo dos artistas. “O público atual busca uma experiência de alto padrão. Eles observam não apenas a música, mas também a postura profissional da banda dentro e fora do palco”, afirma.

Blues com identidade local

Além de interpretar clássicos do gênero, Lucietto também desenvolve composições autorais. Mesmo escrevendo a maior parte das músicas em inglês, ele busca inspiração em elementos característicos de Bento Gonçalves. “Sou apaixonado pela nossa cidade e já coloquei vinhos e a Maria Fumaça em músicas. Eles combinam muito com as histórias e com o clima do blues”, conta.

As composições, segundo ele, surgem de experiências pessoais e são construídas de forma independente, com gravações feitas em casa antes de serem levadas ao palco.

Potencial para crescer

Na avaliação do músico, o blues ainda possui espaço para ampliar sua presença em Bento Gonçalves. Entre as possibilidades, ele aponta uma integração mais intensa entre a música e o setor turístico da cidade. “Há uma ligação natural entre o blues e os eventos enogastronômicos de alto padrão. Já atuei em eventos desse tipo e o sucesso é garantido”, afirma.

Outra meta é retomar as atividades da Confraria do Blues, promovendo novos encontros entre músicos e apreciadores do gênero.

Para Lucietto, o fortalecimento da cena passa pela profissionalização dos artistas e pelo investimento contínuo na divulgação do trabalho. “Um estilo só se torna relevante quando há investimento de tempo e dinheiro para levá-lo ao público. O músico precisa pensar em tudo e oferecer um produto de qualidade. Não adianta ficar só no lado ‘romântico’ do palco. Ninguém vai te pegar pela mão só porque vê teu talento. Talento não paga boleto e não garante contrato. Você precisa estruturar tudo com excelência para que tanto o contratante quanto o público sintam vontade de te contratar e te assistir. É a junção de investimento financeiro e visão profissional que fortalece qualquer cena musical”, conclui.

Fotos: Eduardo Fin.

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