Neurologista explica os mecanismos por trás de bocejos contagiosos, esquecimentos repentinos, músicas que não saem da cabeça e outros fenômenos que fazem parte da rotina
A rotina é feita de pequenos acontecimentos que passam despercebidos pela maioria das pessoas: um bocejo que surge ao ver alguém bocejar, o espirro inevitável que fecha os olhos, a palavra que parece presa na ponta da língua, a música que insiste em se repetir mentalmente ou o esquecimento repentino ao entrar em um cômodo. Situações aparentemente banais, mas que escondem processos complexos e altamente sofisticados do cérebro humano. Em entrevista, a médica neurologista Carolina Matté Dagostini, do Hospital Beneficente São Pedro, explica que esses fenômenos cotidianos ajudam a compreender como o cérebro funciona de forma automática, silenciosa e permanente.
Segundo a especialista, muitas das reações que parecem simples são, na verdade, resultado de redes neurais complexas que operam em milésimos de segundo. “A maior parte do funcionamento cerebral acontece sem que a gente perceba. O cérebro toma decisões, executa reflexos e organiza informações o tempo todo, mesmo quando estamos distraídos ou descansando”, afirma.

O bocejo que atravessa espécies e gerações
O reflexo involuntário está presente não apenas em humanos, mas também em chimpanzés, outros primatas e cães. Esse detalhe, segundo a neurologista, revela o quanto o comportamento é antigo na evolução. O gesto envolve abrir amplamente a boca, inspirar profundamente, fechar parcialmente os olhos e, muitas vezes, esticar o corpo, tudo em poucos segundos.
Carolina explica que a ciência divide o bocejo em dois tipos principais: o espontâneo, associado ao sono e ao tédio, e o contagioso, que surge ao ver, ouvir ou até imaginar alguém bocejando. Embora ainda não exista consenso absoluto sobre sua função, diversas hipóteses ganham força. Uma delas sugere que ajuda a resfriar o cérebro; outra indica que ele aumenta o estado de alerta e melhora a respiração. Há ainda a ideia de que o comportamento ajuda a sincronizar grupos sociais. “No cérebro, é comandado principalmente pelo hipotálamo e pelo tronco cerebral, estruturas que regulam o sono, a temperatura corporal e o estado de alerta. O hipotálamo funciona como uma verdadeira central de comando desse processo”, explica.
O chamado bocejo contagioso envolve mecanismos adicionais. Ao observar alguém bocejar, regiões cerebrais responsáveis por captar sinais sociais e expressões faciais são ativadas automaticamente. “É um ecofenômeno, uma imitação involuntária que acontece sem que a pessoa decida conscientemente imitar o outro”, afirma. Durante anos, os neurônios-espelho foram apontados como protagonistas desse fenômeno. Hoje, a ciência vê o processo de forma mais ampla. “Pesquisas mostram é mais automático do que imaginávamos e não depende exclusivamente dessas células”, explica.
Curiosamente, o fenômeno varia conforme a proximidade social. As pessoas tendem a bocejar mais perto de familiares, depois amigos e conhecidos, e menos diante de estranhos. No entanto, quando fatores como idade e atenção são considerados, a influência da empatia diminui. “Isso sugere que a atenção ao bocejo do outro é o principal gatilho”, diz.
Diferenças ao longo da vida e em condições neurológicas
O bocejo contagioso não aparece desde o nascimento. Carolina revela que bebês e crianças pequenas não apresentam essa resposta, que surge apenas por volta dos quatro ou cinco anos, quando habilidades sociais começam a se desenvolver. Em condições neurológicas específicas, o comportamento muda. Crianças com autismo apresentam menor frequência de bocejo contagioso, mas podem reagir quando a atenção é direcionada ao rosto de quem boceja. Pessoas com esquizofrenia também demonstram redução do fenômeno, mesmo relatando níveis normais de empatia. Já na doença de Parkinson, o bocejo pode diminuir por estar ligado à dopamina. Na epilepsia, pode surgir antes, durante ou após crises. Nos idosos, ocorre com menos frequência e de forma diferente. “Metade da variação deve-se à excitabilidade do córtex motor, que varia de pessoa para pessoa”, explica.

O espirro e o reflexo inevitável
O espirro é outro reflexo automático que revela a eficiência do cérebro. Quando partículas irritam o nariz, nervos da mucosa enviam sinais ao centro do espirro no tronco encefálico. Esse centro coordena uma sequência automática: fechar os olhos, inspirar profundamente, contrair músculos e expulsar o ar com força. “O fechamento dos olhos faz parte desse pacote automático. Resistir a ele é extremamente difícil”, afirma a neurologista.
O mito de que espirrar de olhos abertos poderia causar a saída dos olhos não tem base científica. No entanto, tentar segurar o espirro pode ser perigoso. “A pressão interna pode aumentar até 24 vezes, causando lesões no ouvido, ruptura muscular e até fraturas nos seios nasais”, alerta.
O esquecimento ao atravessar a porta
O chamado efeito da passagem pela porta explica por que esquecemos o que íamos fazer ao mudar de ambiente. O cérebro organiza experiências em “episódios”, e as portas funcionam como divisores de contexto. “O hipocampo interpreta a mudança de ambiente como o fim de um capítulo e o início de outro”, explica Carolina.
A intenção que existia no ambiente anterior fica temporariamente menos acessível. O fenômeno ocorre até quando a pessoa apenas imagina atravessar uma porta. “Não é distração nem envelhecimento. É o cérebro reorganizando a memória”, afirma.
A sensação de ter algo na ponta da língua ocorre quando o cérebro acessa o significado da palavra, mas não consegue recuperar seu som. Regiões ligadas à linguagem entram em ação tentando resolver o conflito. “É como se o cérebro soubesse que sabe, mas não conseguisse acessar a forma sonora da palavra”, explica.
Com o envelhecimento, o fenômeno torna-se mais frequente devido à redução de neurotransmissores e ao enfraquecimento das conexões neurais.

Músicas que insistem em repetir
Mais de 90% das pessoas experimentam semanalmente a chamada imagem musical involuntária, popularmente conhecida como earworm. O cérebro trata a música imaginada como se fosse real, ativando áreas auditivas e motoras. “Quando pensamos em uma música, a garganta chega a apresentar atividade muscular imperceptível”, afirma.
Já o déjà vu ocorre quando o sistema de familiaridade do cérebro é ativado sem que exista uma lembrança real associada. “É um erro de processamento, não de memória”, explica.
Já os arrepios provocados pela música envolvem dopamina e o sistema de recompensa. “O cérebro reage à música com a mesma seriedade biológica com que reage à comida ou ao amor”, afirma. O riso contagiante segue lógica semelhante ao bocejo. Ao ver alguém rir, áreas responsáveis pelo riso são ativadas automaticamente. “O cérebro é programado para compartilhar emoções”, ressalta.
O cérebro que nunca para
Ao contrário do senso comum, o cérebro não descansa durante o sono. Ele muda de modo de funcionamento, consolidando memórias e reorganizando conexões. “O sono é essencial para a saúde cerebral e para a prevenção de doenças”, afirma.
A neurologista alerta para mitos populares, como a ideia de que usamos apenas 10% do cérebro: “Isso não tem respaldo científico.”
Para ela, compreender o cérebro ajuda a tomar decisões mais conscientes sobre saúde e bem-estar. “Essas curiosidades mostram que o cérebro trabalha o tempo todo. E isso é fascinante,” finaliza.