Foram 23 dias sobre a bicicleta, 2.770 quilômetros pedalados e 14.900 metros de altimetria acumulada em uma travessia que ligou o Oceano Pacífico ao Atlântico. Entre 2 e 25 de abril, o ciclista completou uma expedição de mountain bike iniciada em Valparaíso, no Chile, cruzando a Cordilheira dos Andes, toda a Argentina, e encerrando o percurso em Torres, no Litoral Norte gaúcho. Mais do que um desafio esportivo, a jornada se consolidou como uma experiência de resistência, autoconhecimento e persistência.

A ideia da expedição nasceu em fevereiro de 2025, como um projeto pessoal que logo tomou proporções maiores. Segundo Cruz, a proposta surgiu como uma forma de testar limites e enfrentar algo realmente transformador.

Inicialmente pensada para ser realizada sozinho, a aventura ganhou companhia após conversas com amigos e familiares. José Pedro Moraes, de Carlos Barbosa, aceitou dividir o desafio, e os dois deram início a um ano de preparação intensa. Foram 12 meses de treinos voltados à resistência, longas distâncias e altimetria, além de um minucioso planejamento logístico envolvendo roteiro, alimentação, hospedagens e suporte.

A travessia teve como um dos momentos mais exigentes a passagem pela Cordilheira dos Andes. A subida dos Caracoles e do Cristo Redentor de Los Andes colocou o preparo físico à prova, com altitudes chegando a 3.830 metros. “A grandiosidade da paisagem impressiona, mas a altitude e as subidas desafiam qualquer planejamento”, relata.

Depois das montanhas, a dificuldade mudou de perfil. Vieram as longas e solitárias retas argentinas, com trechos de até 110 quilômetros praticamente sem interrupção, vento constante e jornadas médias de sete horas diárias sobre a bike. Dos 23 dias de pedal, 13,5 foram em território argentino, o trecho mais longo da expedição.

Apesar do rigor físico, Cruz destaca que o maior desafio esteve também no aspecto emocional. O momento mais duro ocorreu quando José decidiu interromper a travessia em meio ao percurso. “Foi muito doloroso seguir sozinho um sonho que nasceu para ser realizado em dupla”, lembra.

Mesmo assim, desistir nunca foi uma opção. Apoiado pelo incentivo da noiva, amigos e pelas pessoas que encontrou pelo caminho, Cruz seguiu adiante.

E foram justamente esses encontros que transformaram a expedição em algo maior que o esporte. Na Argentina, gestos espontâneos de solidariedade marcaram a jornada: refeições oferecidas, hospedagens com valores reduzidos, ajuda mecânica e até passagens de ônibus para buscar conserto para a bicicleta após problemas no sexto dia.

Um dos episódios mais marcantes aconteceu próximo a Uspallata, na Ruta 7, quando Cruz e José acabaram pedalando à noite, no escuro, sem iluminação. Um casal argentino, Santiago e Gabi, parou para ajudá-los e os conduziu até a cidade. A amizade permanece até hoje.

A história ainda reservava um reencontro inesperado. Próximo à fronteira brasileira, José se recuperou e decidiu retornar para pedalar o trecho final. Juntos, concluíram a travessia desde Uruguaiana até Torres.

A rotina exigia disciplina. O dia começava cedo, com café da manhã reforçado preparado com compras feitas em mercados locais, seguido por longos trechos pedalados e alimentação improvisada em postos, restaurantes de estrada e suplementos levados para emergências. A média foi de 120 quilômetros por dia.

No trecho brasileiro, o apoio ganhou reforço presencial com Keth, noiva de Cruz, e Neiva, esposa de José, acompanhando parte do percurso de cidade em cidade.

A chegada em Torres foi o ápice de uma construção de mais de um ano.

Ao avistar o Oceano Atlântico após partir do Pacífico, Cruz descreve um sentimento de conquista difícil de traduzir. A recepção preparada pela família, com faixa de chegada, balões, confetes e espumante, transformou o encerramento em celebração. “É a sensação de ver um sonho pensado, planejado e executado se tornar realidade”, resume.

Mais do que cruzar um continente, a travessia deixou aprendizados profundos. Para Cruz, a expedição reforçou a percepção sobre a própria capacidade de superação e mostrou que grandes projetos são possíveis quando há preparação, coragem e constância.

Depois de um feito que poucos ousaram tentar, novos desafios parecem inevitáveis, embora ele prefira, por enquanto, absorver o significado da experiência antes de mirar a próxima aventura.