VIDA VIVIDA – A MINHA RELIGIOSIDADE
Nasci católico, apostólico, romano. Como eu disse a vocês até os 8 anos, no Barracão, morei na casa dos meus avós. Eu vivia grudado na minha vó materna Irene. Ela adorava Jesus, não escolhia Santa, suas rezas e apelos era pra todas, rezava o terço ajoelhada, acendia velas e fechava portas e janelas em dias de temporal bradando “virgine Maria, vien zo el cielo”. Quando ela não estava costurando, estava cozinhando e, quando não estava nem cozinhando e nem costurando, estava rezando e eu sempre ali, no lado, eu entendia porque tanta comida, tanta costura, mas não entendia porque tanta reza. Nas missas da Igreja do “BARRACA”, lá estava ela na primeira fila. No começo eu até acompanhei depois larguei, ouvia a missa do lado de fora da Igreja, fiel ao conceito que se firmou de que “ouvir” a missa tem o mesmo efeito, perante Deus, que “assistir” a missa, passado um tempo, durante a missa, jogava futebol no campinho que existia atrás da Igreja, o jogo terminava quando a missa terminava. Nas festas da padroeira N. Sra. da Salette, me enquadravam e me escalavam para na procissão, ser um dos coroinhas com aquelas “azonas” penduradas. Meu avô Henrique, eu sou Henrique Alfredo, não lembro de tê-lo visto nas missas e, dentro de casa, era Deus no céu e Getúlio Vargas na terra. Reza? Nunca o vi rezar talvez o fizesse antes de dormir diante do crucifixo na cabeceira da cama. Mas, o lema de vida dele era religioso: respeito, fé, trabalho, proteção, família, direito e propriedade.
A “CARREIRA” DE COROINHA
Ao vir do BARRACÃO para a cidade, trouxe, nos meus 12 anos, a lembrança do Natal e da Páscoa com um acentuado fervor religioso. Fiel ao preceito do italiano, cuja definição ouvi de uma empresária italiana, de que “o italiano é religioso, mas não vai a missa, vai aos estádios de futebol”, eu raramente ia e, quando o fazia, assistia “do lado de fora da porta da frente”. Quando eu ouvi falar de que “chegando na missa antes da comunhão, diante de Deus ela tinha valor”, arrisquei algumas presenças na parte dos fundos, o mais próximo da saída que acontecia quando o suportar das missas de duas horas de duração do padre Mânica, já não era mais possível. Deixa estar que a minha militância de guri em torno da Igreja rendeu. Ouvi dizer que a Igreja estava “recrutando” coroinhas em troca de ingresso nas matinês dominicais do Cine Popular, que era dos padres. Para criar coragem, reuni uma turma, eram 3 amigos de “peregrinação” no entorno da Paróquia, e fomos lá na Igreja nos inscrever. Me escalaram como coroinha, na estreia, logo numa missa do Padre Mânica. Fui tranquilo, mas esqueci de perguntar: “quando é que se toca a sineta?” Eu lá sabia e então, de repente, não mais que de repente, o Padre Mânica, dá um “esporro”, dizendo “não vai tocar a sineta guri?” Eu olhei prá Igreja as beatas olhavam pra mim e, com os olhos como que a dizer, “toca a sineta Riquinho” e eu tocava, meio atrasado, mas tocava. O engraçado é que eu não fiquei envergonhado, para quem carregou asas em procissão e tinha o ingresso no cinema assegurado, tava muito bom. Eu pretendia fazer carreira de coroinha pois o meu portifólio de filmes a assistir era grande, todos os filmes de Roy Rogeres e seu cavalo Trigger e cachorro Bullet, do Hopallong Cassidy, Durango Kid, e todos os filmes de faroeste, de índios, dos heróis mexicanos e sobre as aventuras do cachorro Rin Tin Tin. Então fui para a segunda missa, de novo com o padre Mânica. Na hora da sineta eu toquei, mas o padre bradou “não é agora guri”. “Se eu toco é porque toquei, se não toco é porque não toquei”, assim não dá, pensei. Como eu só tinha estágio e não curso de coroinha, eu desisti ou “desistiram de mim”.
AS TARDES DE DOMINGO
O Cine Popular era, com certeza, um lugar feio, sujo, imundo, maquinária velha, quando não era o projetor que pifava, era o filme que se partia e lá ia o operador emendar o filme e, quando voltava a exibição, aqueles índios que iam morrer já tinham sido enterrados; a morte deles estava na parte estragada. Mas, gente, como entrar no cinema sem os ingressos de coroinha? Bolei um plano, reuni a turma e falei: “somos três, só um de nós deu certo como coroinha então cada domingo um de nós fica com o ingresso e, na hora da entrada alega, mexendo nos bolsos, que não consegue encontrar o ingresso e, na confusão, os outros dois entram, disfarçados, um cada canto da cortina” que era um “cortinão” de veludo vermelho do tamanho 5 de altura por 6 metros de comprimento. Combinado? Combinado. A “tática de guerra” sempre deu certo. Juro pra vocês eu sempre entrei no matinê de graça e, como eu estava familiarizado com os bastidores do altar, assistia a missa na “tribuna de honra” do altar da Igreja. Da minha mente, se me interpelassem sairia um “não fui escalado hoje como coroinha”.
O CINE POPULAR
Depois do ingresso “clandestino” a gente sentava em lugares distantes com a seguinte estratégia “se pegarem um não vão pegar os outros”, a não ser que o “descoberto” confesse, sob a tortura da inquisição, mas o padre Mânica não chegaria a tanto. A gente passava o tempo todo se coçando das pulgas que eu não sei se “vinham de casa ou iam pra casa quando se voltava”. Quando os soldados perseguiam os índios, ou quando o Rin Tin Tin corria junto com o mocinho na caça aos bandidos, ou quando o mocinho no velho oeste prendia os bandidos, o cinema vinha abaixo, as 400 crianças/adultos ali presentes sapateavam o chão, levantava aquela nuvem de poeira e a tela de cinema desaparecia. Para os padres, o mata insetos (flit) ainda não tinha sido inventado e as faxineiras não tinham interesse em permutar serviços por ingresso. Assim, quem ia de camisa branca voltava pra casa de camisa cinza e quem ia com ela azul voltava com ela roxa. Sem contar que, na saída do cinema a gente não parava de cuspir, era um produto marrom que não resistiria a uma análise, acho que tinha de tudo ali, asas de baratas, restos de pulga, pó, muito pó e em pouco de “nharoco”. Mas a gurizada era feliz, eta cineminha bom principalmente porque eu podia torcer pros índios, ao invés de sapatear eu ficava bem quietinho. Se vocês tiverem dúvida sobre essas narrativas sobre o “coroinhado” e seus efeitos paralelos, corram pois o coroinha que deu certo ainda está por ai e é meu amigo e ele não vai mentir, é um beato, vai pro céu direto, sem passar pelo limbo ou pelo purgatório.
AS PEREGRINAÇÕES
Eu fui a duas peregrinações quando era piá, com minha avó e junto com o terço e o véu preto dela. Uma à Caravaggio, a pé, e outra para a gruta do Borgo. Em direção à Caravaggio, a cada 100 metros eu fazia um “pit stop”, para brincar com a água dos córregos, ou para colher flores, minha vó voltava me pegava pela mão e com a voz severa dizia “vamos riquinho, vamos perder a missa”. Aí mesmo é que eu não andava, fazia também paradas técnicas para fazer um “pipizinho” básico, facilitado pelas minhas calças curtas. Se querem ter uma ideia de como era minha vó assistam o “Poderoso Chefão”, na parte do casamento em SAVOCA, na Sicilia, minha avó poderia ser figurante ali no casamento da Apolonia e Michel. Bem, chegamos a Caravaggio, embora tivesse apenas 6 a 7 anos, lembro cada detalhe dos pitstop e paradas técnicas, inclusive quando cheguei na ponte ao lado do Moinho Bertarello, em São Pedro, me debrucei sobre ela e fiquei observando o rio, suas pedras e suas ondas. Um dos meus programas preferidos era vagar pelas margens do rio Barracão. A missa tinha começado, no seu final não lembro de ter voltado a pé ou se meu avô com sua “Barata” foi nos buscar. A “aparição” de Nossa Senhora na Gruta do Borgo foi muito interessante. Milhares de pessoas iam lá para orar e fazer parte dos momentos de aparição da Santa, aos sábados. Lá fomos eu e minha avó, o máximo que conseguimos chegar foi até o início da rua São Paulo onde hoje é a Hyundai. O povo, todos os católicos, os crentes, os “escuriozéis”, todos iam ali enquanto que a Igreja Santo Antônio sofria um terrível esvaziamento. O padre Mânica não aguentou, num memorável discurso de 1 hora de duração, lançou dúvidas sobre a honra da vidente de NOSSA SENHORA DO BORGO, eu diria. Foi o que bastou para um esvaziamento total da romaria e o retorno dos fiéis à Igreja Santo Antônio. A vidente de Nossa Senhora ainda está morando ai no Borgo, a gruta passou a ser um antro de drogados, até a revitalização por parte da municipalidade. O local é bonito, conduz a reflexão sobre o ocorrido e a meditação.
FESTEIRO DE SANTO ANTÔNIO
Vieram me convidar para ser festeiro de Santo Antônio, não lembro quem insistiu no convite e eu condicionei: “quero Mauro Gasperin como meu parceiro, ai eu aceito”. E assim aconteceu. A festa estava no ostracismo, procissão com cerca de 500 pessoas, jantar do Scodeguim com 300 pessoas, renda da festa inexpressiva. Era preciso reinventar a festa e foi o que fizemos, com espírito empresarial e muito religiosidade. Servimos 650 refeições no jantar do Scodeguim, cerca de 3000 pessoas participaram da procissão, sorteamos um automóvel e outros prêmios, o almoço festivo foi recorde de público, a festa deu um lucro de 124 mil, não sei quanto representaria hoje, mas era muito dinheiro. Do total retivemos o dinheiro para aumentar e modernizar a cozinha e para pintar a Igreja, o que foi feito. E, a festa, foi festa mesmo, teve muitas atrações. O Bispo De Paulo Moretto não gostou muito da retenção do dinheiro, mesmo tendo levado pessoalmente, muito, muito dinheiro da renda da festa. Botamos banca. Um dia antes da festa, (colocamos/treinamento) o Santo Antônio no andor que era de madeira maciça, quando o Santo tava lá em ccima ele começou a balançar e alguém gritou, acho até que fui eu, “baixa, baixa, segura, segura, que ele vai cair”. Ele desceu em segurança já imaginaram o que seria de nós se o Santo tivesse despencado lá de cima? Feito o balanço, entregue o resultado, feitas as reformas, era preciso encontrar sucessores que assegurassem o nível da festa depois de tanto esforço. Foram “mil visitas” para convencimento de Darwin Geremia e Avelino Merigo, que fizeram uma bela festa. Eu assimilei perfeitamente o ditado “devagar com o andor que o Santo é de barro” e vejo hoje o Santo Antônio passeando de Maria Fumaça. Quase tu me cai daquele andor né cara? Ai ia ter um fake na MARIA.
OS DIAS DE HOJE
Converso com Deus diariamente, agradeço, olho as coisas sempre pelo lado bom, é uma maneira de ser feliz. De vez em quando vou a missa, gosto de ir à CARAVAGGIO, um local de alto astral, sempre comungo, na postura sou “um italiano vero”.