O colesterol alto, conhecido como um dos principais vilões da saúde cardiovascular, pode ser também um inimigo silencioso da visão, favorecendo desde alterações leves até quadros mais graves de perda visual.
Primeiramente, é importante entender o que é o colesterol e quais são seus tipos. De acordo com Giovanni Zattera Sganzerla, médico cardiologista do Hospital Tacchini BG, o colesterol é uma substância gordurosa essencial para o funcionamento do organismo, participando da produção de hormônios, da vitamina D e da estrutura das células. “O LDL, conhecido como ‘colesterol ruim’, transporta o colesterol do fígado para os tecidos e pode se depositar nas artérias. O HDL, chamado de ‘colesterol bom’, faz o caminho inverso, ajudando a remover o excesso de colesterol do sangue. Já os triglicerídeos são outro tipo de gordura relacionada ao armazenamento de energia e, quando elevados, também aumentam o risco cardiovascular”, explica.
De acordo com Marcelo Piletti, médico oftalmologista do Hospital Tacchini, o colesterol apresenta uma relação indireta com a visão, mas importante. “O colesterol alto não ‘ataca’ o olho diretamente, mas ele compromete os vasos sanguíneos do corpo inteiro, inclusive os que irrigam os olhos. Quando a circulação ocular é prejudicada, a visão pode sofrer consequências”, menciona.
Segundo ele, o excesso de gordura no sangue favorece a formação de placas de gordura nas artérias, processo que é chamado de aterosclerose. “Nos olhos, isso pode estreitar ou obstruir vasos já muito delicados, reduzindo a oxigenação da retina e do nervo óptico, estruturas essenciais para a visão”, destaca Piletti.

Condições
O oftalmologista menciona algumas doenças que podem ter relação com o colesterol elevado:
- Oclusões arteriais da retina;
- Neuropatia óptica isquêmica: quando a obstrução arterial encontra-se ao nível da irrigação do nervo óptico;
- Síndrome ocular isquêmica: neste caso, resultante de uma obstrução crônica e severa das artérias carótidas, responsáveis pelo fluxo sanguíneo que chega aos olhos;
- Xantelasma (placas amareladas de gordura nas pálpebras), que não afeta a visão, mas é um sinal visível de aumento dos índices de colesterol.
A gordura elevada no sangue pode estar associado a diferentes doenças oculares, especialmente aquelas relacionadas à circulação sanguínea nos olhos. “Em casos de obstrução aguda de uma artéria da retina ou do nervo óptico, a pessoa pode ter uma perda visual súbita e indolor, que é uma emergência médica. Essas situações são mais comuns em quem tem colesterol alto associado à hipertensão, diabetes ou tabagismo”, destaca.
Exames
Piletti menciona que, às vezes, é possível identificar excesso de gordura em avaliações oftalmológicos. “O oftalmologista pode observar alterações nos vasos da retina, sinais de má circulação ou até embolias de colesterol. Além disso, o xantelasma nas pálpebras pode levantar a suspeita e indicar a necessidade de exames clínicos complementares”, frisa o especialista.
Alerta
O oftalmologista orienta que determinados sintomas podem ser sinais de atenção, sendo eles:
- Visão embaçada que surge de forma súbita e indolor, com perda parcial ou total da visão de um olho;
- Baixa nitidez visual transitória, com recuperação subsequente.
Esses sintomas exigem avaliação imediata.
Complicações
O cardiologista explica que é possível desenvolver dificuldades na visão mesmo sem apresentar sintomas cardiovasculares evidentes. “Muitas pessoas têm colesterol alto de forma silenciosa, sem dor no peito ou outros sintomas cardíacos. Os olhos, por terem vasos muito finos, podem ser afetados precocemente e, por vezes, a primeira manifestação de um problema vascular é justamente uma alteração visual”, explica Sganzerla.
Medicamentos
O oftalmologista destaca que os remédios, como estatinas, são seguros para os olhos, sendo mais benéficos do que malefícios para a visão. “Efeitos oculares são raros. O mais importante é o acompanhamento médico adequado”, ressalta Piletti.
Desenvolvimento do colesterol
Sganzerla menciona que a gordura no sangue surge da combinação de fatores genéticos e hábitos de vida. “Dieta rica em gorduras saturadas e ultraprocessados, sedentarismo, excesso de peso e consumo excessivo de álcool contribuem bastante. Além disso, algumas pessoas têm predisposição genética, o que faz com que o colesterol suba mesmo com hábitos de vida adequados. Além disso, doenças como diabetes e hipotireoidismo também podem influenciar”, ressalta.
Perda de visão
A perda súbita de visão pode estar diretamente relacionada ao entupimento de artérias que irrigam a retina, quadro considerado uma emergência médica. “Isso acontece, por exemplo, quando uma artéria é bloqueada por um coágulo ou por uma placa de gordura que se desprende de outro local do corpo, como as carótidas ou o coração. Nesses casos, o fluxo de sangue para a retina é interrompido de forma abrupta, causando uma perda visual rápida, geralmente sem dor. Trata-se de uma emergência médica, que exige atendimento imediato, pois pode estar associada a doenças cardiovasculares graves e aumenta o risco de outros eventos, como AVC”, explica.
Prevenção
Ambos os especialistas orientam a adoção de hábitos de vida saudáveis, como a prática regular de atividades físicas e uma alimentação equilibrada, rica em frutas, legumes, verduras, grãos integrais e gorduras consideradas boas. Eles também reforçam a importância de evitar o tabagismo, manter o controle do peso e realizar consultas periódicas com médicos especializados como forma de prevenção e monitoramento da saúde.
Diagnóstico
Sganzerla destaca que o acompanhamento médico é fundamental para a prevenção de complicações relacionadas ao colesterol alto. “O principal exame é o perfil lipídico, feito por exame de sangue, que avalia LDL, HDL, colesterol total e triglicerídeos”, finaliza. Além disso, o cardiologista ressalta que, para a saúde ocular, consultas regulares com o oftalmologista e exames de fundo de olho são importantes, especialmente em pessoas com fatores de risco cardiovasculares.