O coração de Bento Gonçalves, que já foi um dos principais pontos de circulação de turistas e moradores, vive hoje um momento de contrastes. Enquanto o poder público sustenta que a região segue como referência de visitação, representantes do comércio e de entidades apontam desafios que ajudam a explicar a queda de movimento, especialmente nos finais de semana.
Na avaliação do secretário de Turismo, Henrique Nuncio, o centro ainda mantém relevância dentro do roteiro turístico do município. Ele destaca a presença de atrativos tradicionais como a Casa do Vinho, a Casa do Artesanato e a La Fontana, além da própria Via del Vino, considerada o principal palco de eventos da cidade.
Segundo o secretário, programações como o Bento em Vindima e o Festival da Agroindústria Familiar mantêm o espaço ativo. “Destaca a cultura, nossos agricultores e artistas. Além disso, este espaço recebe o Festival do Vinho Encanado, o Desfile Cultura ExpoBento e Fenavinho, a Programação de Natal, Páscoa, entre outras atividades turísticas ali realizadas. O centro segue sendo um dos locais buscados pelos visitantes, especialmente por concentrar atrações gratuitas”, afirma.
Segundo o secretário, este é um trabalho que a secretaria trata junto ao trade, para valorizar juntamente com as entidades e atrair cada vez mais o viajante para o centro da cidade. “Ressaltamos que nosso turismo tem como uma de suas forças nosso interior e a diversidade de empreendimentos que exercem suas atividades em nossos distritos, fazendo com que tenhamos um fluxo horizontal”, destaca.
Estratégias em debate
A divulgação das programações também é alvo de críticas. Em resposta a elas, Nuncio explica que os eventos realizados no centro da cidade acabam sendo parte de uma programação mais robusta, assim como o Bento em Vindima. “Sempre estamos nos esforçando junto aos meios de comunicação regional e estadual para que possam dar maior visibilidade para nossas realizações. A secretaria também trabalha com um projeto de melhorias na Via del Vino, porém entendemos que sua utilização está sendo executada de forma adequada, e que valoriza estes espaços junto ao turista que aqui vem”, frisa.
Apesar disso, a percepção de parte da comunidade é diferente. Comerciantes e moradores relatam uma sensação de esvaziamento, sobretudo aos domingos, quando o fluxo de pessoas diminui consideravelmente. “De domingo é difícil vir alguém à loja, o movimento é muito baixo”, revela um atendente de uma livraria localizada no shopping.

Propostas antigas voltam à pauta
Para o presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio Regional Bento Gonçalves (Sindilojas-BG), Plínio Mejolaro, a retomada do movimento depende de investimentos estruturais planejados há anos. Ele relembra propostas do chamado Masterplan do projeto Bento +20, que indicava três medidas prioritárias: “A falta de iluminação adequada afasta as pessoas à noite. A rua coberta permitiria eventos sem prejudicar a Via del Vino, e o vinho encanado o ano todo seria um grande atrativo turístico”, argumenta. Segundo ele, sem fluxo de pessoas, os lojistas não conseguem manter as portas abertas, especialmente aos domingos. “Antes das enchentes e da pandemia havia mais pessoas”, avalia.
Mais desafios
A dificuldade de funcionamento no fim de semana também é explicada pela presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Bento Gonçalves (CDL-BG), Helenir Bedin. De acordo com ela, abrir aos domingos é uma decisão que envolve custos trabalhistas e depende diretamente da demanda. “O primeiro ponto a esclarecer é que o funcionamento está autorizado. No entanto, a decisão de abrir as portas passa por uma análise criteriosa de viabilidade por parte dos lojistas. Manter uma operação neste dia exige uma reorganização complexa de escalas. Pela legislação, o trabalho no domingo demanda uma folga compensatória durante a semana, o que afeta diretamente os custos e o tamanho das equipes”, destaca.
Impacto na circulação
Além disso, segundo ela, o perfil do turismo na cidade é muito específico. “Aos domingos, o fluxo de visitantes concentra-se nas rotas gastronômicas e experiências de lazer fora do eixo central. O Centro ganha força em datas comemorativas e eventos especiais, como Natal e Páscoa, quando a programação atrai o público para as ruas. No cenário ideal, o comércio aberto seria um diferencial, mas essa é uma construção que depende da avaliação individual de demanda e da sustentabilidade financeira de cada negócio”, frisa.
Ela confirma ainda que há uma sensação de queda nas vendas e no movimento de consumidores, reflexo tanto do cenário econômico quanto das mudanças no comportamento do público. “Existe uma percepção geral de retração no fluxo e nas vendas. Esse fenômeno não é isolado; ele reflete o atual momento de incerteza do país, que leva o consumidor a ser muito mais seletivo em suas decisões de gasto. Apesar desse cenário desafiador, o comércio de Bento Gonçalves se destaca pelo seu DNA empreendedor. É um setor inquieto e resiliente, que busca constantemente inovações para atrair o público”, enfatiza.
Como resposta, a entidade aposta em campanhas promocionais e incentivo ao consumo local para fortalecer o comércio. “A CDL-BG está organizando um trabalho de reativação das campanhas de incentivo às vendas, sobretudo em datas temáticas, para ajudar o lojista na prospecção de novos negócios, bem como na promoção do centro da cidade como destino atrativo para as boas compras”, indica.
De acordo com Helenir, a CDL-BG atua em múltiplas frentes para garantir a competitividade do lojista durante todo o ano. “Nosso foco vai além do final de semana. Trabalhamos para que o comércio seja forte e atrativo todos os dias. Como entidade de classe, priorizamos a educação e o incentivo ao consumo local através de campanhas consolidadas. O Armazém das Pontas, por exemplo, é uma ferramenta estratégica para a renovação de estoques e liquidez do lojista, enquanto o Bento Natal Premiado estimula o giro econômico dentro do município. Além disso, oferecemos suporte tecnológico de ponta, como o acesso ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e à CDL IA, uma inteligência artificial exclusiva para as necessidades do varejo. Quanto ao turismo na área central, estamos atentos a essa pauta e priorizando projetos que fomentem o fluxo de visitantes no centro, criando um ambiente propício para que a abertura aos domingos se torne, gradualmente, uma decisão viável e atrativa para cada estabelecimento”, conclui.
Já o presidente do Bento+20, Renato Bernardi, faz uma análise direta: faltam diferenciais neste bairro capazes de motivar a presença de moradores e turistas. “Quais atrativos tem aos domingos que fazem com que, primeiro, os moradores da cidade se desloquem? E o turista? Ao redor do mundo, os centros turísticos reservam atrações culturais, restaurantes ao ar livre, rua coberta, entre outros. Bento tem?”, questiona.
Para ele, o principal desafio está no modelo de turismo consolidado da cidade, que concentra o fluxo fora da área central, em roteiros ligados ao enoturismo, gastronomia e paisagens naturais.
Caminhos possíveis
Entre as soluções apontadas, Bernardi destaca a necessidade de incentivar o crescimento do comércio local; aproximar as atividades comerciais do turismo; fomentar o estudo logístico (Centro e Bairros); a utilização da via férrea para mobilidade urbana; reestruturação da Área Central e cultura em todos os cantos, com diversidade e inclusão social, sustentabilidade e tecnologia, além da criação de novos espaços de convivência e maior articulação entre poder público e iniciativa privada. Ele também reforça que essas diretrizes já constam no Masterplan elaborado pelo movimento, mas ainda carecem de implementação. Por fim, ele convida que a comunidade participare da iniciativa. “Quanto mais pessoas aderirem, mais cedo teremos uma cidade melhor”, destaca.
A Secretaria de Turismo, por sua vez, afirma que há diálogo constante com entidades e que o Conselho Municipal de Turismo funciona como espaço de participação da sociedade civil. O órgão também reconhece a importância de integrar o bairro aos roteiros turísticos e afirma trabalhar nesse sentido.
Para os próximos meses, a expectativa é de continuidade das programações e de ações que valorizem o perfil comercial da região central, respeitando também sua característica residencial. No entanto, o consenso entre diferentes setores é de que a revitalização do local passa por uma combinação de fatores: investimentos em infraestrutura, criação de atrativos permanentes e estratégias mais eficazes para atrair público.