Terça-feira, 22 de Setembro de 2026

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Bento contabiliza 175 acidentes com animais peçonhentos neste ano

Embora muitas pessoas associem os acidentes apenas ao verão, encontros com aranhas, serpentes, escorpiões e lagartas podem ocorrer em diferentes épocas do ano, especialmente em locais que oferecem abrigo, alimento e condições favoráveis para a permanência desses animais.

Segundo o professor doutor Wilson Sampaio de Azevedo Filho, da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e integrante do Setor de Entomologia do Museu de Ciências Naturais (MUCS), a região abriga diversas espécies, algumas delas responsáveis pelos principais acidentes registrados no Rio Grande do Sul. “Os acidentes mais frequentes envolvem principalmente aranhas. Além de abelhas e algumas lagartas como potenciais causadoras de acidentes”, afirma.

A Vigilância Ambiental do município contabilizou 175 casos de acidentes com animais peçonhentos este ano.

Casos por espécie:

Serpentes não-peçonhentas: 3
Aranha foneutria: 24
Aranha marrom: 52
Outras aranhas: 2
Lagarta automeris: 4
Outras lagartas: 11
Abelhas: 68
Marimbondos: 9
Lacraia: 2

Espécies mais associadas a acidentes

A aranha-marrom (Loxosceles sp.) e a armadeira (Phoneutria sp.) aparecem entre as espécies que mais preocupam devido à gravidade que alguns acidentes podem apresentar. Outras espécies, como aranhas-lobo e aranhas de jardim, também podem provocar acidentes, porém geralmente sem maior relevância sanitária, já as caranguejeiras, frequentemente temidas pela população, raramente representam perigo significativo. O contato com as cerdas do corpo pode causar irritação na pele apenas.

A Serra Gaúcha também registra a presença de serpentes peçonhentas amplamente distribuídas no Rio Grande do Sul. Entre elas estão a jararaca, a cruzeira, a cascavel e a coral-verdadeira. “A jararaca e a cruzeira possuem ampla distribuição no estado. Já a cascavel costuma ser encontrada em áreas de campo aberto e terrenos pedregosos, enquanto a coral-verdadeira pode ocorrer em ambientes de mata e locais mais abertos”, detalha Azevedo Filho.

Embora o estado não apresente o mesmo cenário das regiões Sudeste e Centro-Oeste em relação aos escorpiões, algumas espécies são encontradas regularmente na Serra. O escorpião-preto (Bothriurus bonariensis) é considerado o mais comum e está distribuído em praticamente todo o território gaúcho. Já o escorpião-manchado (Tityus costatus) possui ocorrência mais restrita. “O escorpião-preto é o mais envolvido em acidentes no sul do Brasil, embora apresente menor relevância em saúde pública quando comparado a espécies encontradas em outras regiões do país”, esclarece.

Áreas de mata e cultivo

Outro grupo que merece atenção são as lagartas urticantes, especialmente a taturana ou marandová (Lonomia obliqua). O contato com suas cerdas pode provocar acidentes graves, incluindo alterações hemorrágicas.
Além da Lonomia, existem outras espécies de lagartas pertencentes às famílias Saturniidae e Megalopygidae capazes de causar acidentes. “A taturana ou marandová é uma espécie que eventualmente pode ocorrer na região. Também existem outras lagartas de importância médica associadas a áreas de mata e diferentes culturas agrícolas”, frisa.

Calor e umidade

A ocorrência desses animais está diretamente relacionada às condições ambientais. “O aumento de sua frequência está ligado à sazonalidade e aos respectivos ciclos biológicos. Os períodos de temperatura elevada favorecem o desenvolvimento e a atividade desses organismos. O clima tem uma contribuição importante com o aumento da temperatura e da umidade”, explica.

Muitas vezes, os próprios ambientes domésticos acabam criando condições favoráveis para a permanência desses animais. “Nas residências, esses animais buscam principalmente alimento e abrigo. O correto manejo do lixo e o armazenamento adequado de materiais são fundamentais para evitar sua ocorrência”, afirma o especialista.

Ele acrescenta que terrenos baldios sem manutenção e áreas com vegetação excessiva próximas às residências também podem favorecer o aparecimento dessas espécies.

A prevenção continua sendo a principal ferramenta para evitar acidentes. “É importante verificar cômodos, frestas e buracos que possam servir de abrigo. Também deve-se evitar deslocar móveis ou mexer em objetos com as mãos desprotegidas”, orienta.

Outra medida considerada fundamental é verificar roupas, cobertores e calçados antes do uso. “Bater os calçados e outras peças de roupa antes de vesti-los e evitar andar descalço são hábitos simples que podem prevenir muitos acidentes”, acrescenta.

Cuidados na rotina

O uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) é uma recomendação constante para trabalhadores rurais e também para pessoas que realizam atividades de limpeza e jardinagem. “A utilização pode evitar consideravelmente os acidentes. Eles são fundamentais em atividades de limpeza, jardinagem, organização de garagens e galpões, além do manejo de parreiras e outras culturas”, ressalta.

Os sintomas de um possível envenenamento podem variar de acordo com o animal envolvido e a quantidade de veneno inoculada. Entre os sinais mais comuns estão dor intensa, vermelhidão, inchaço, sudorese, vômitos, sonolência, dificuldade para respirar e sangramentos. “Os acidentes podem ser classificados como leves, moderados ou graves. Existem alterações locais e sistêmicas que podem indicar um quadro de envenenamento”, explica.

O professor enfatiza que crianças e idosos necessitam de atenção especial, pois apresentam maior sensibilidade às toxinas. Diante de uma picada ou contato com animal peçonhento, a recomendação é agir rapidamente, mas sem atitudes que possam agravar a situação. “É recomendado manter a calma, lavar o local com água e sabão neutro, retirar objetos apertados como relógios e anéis, tentar manter o membro em repouso e procurar imediatamente uma Unidade de Saúde. O tempo entre o acidente e o atendimento médico é fundamental para evitar sequelas e complicações. A ação rápida das toxinas sobre o organismo e a diminuição da eficácia do soro em casos de demora precisam ser consideradas”, orienta.

Apesar de ainda existirem muitas crenças populares relacionadas ao atendimento inicial, algumas práticas podem agravar significativamente o quadro da vítima. “Não é recomendado furar, espremer ou cortar o local da picada. Também não se deve realizar sucção, utilizar torniquetes ou garrotes, aplicar substâncias sobre a lesão ou ingerir bebidas alcoólicas”, alerta.

As transformações ambientais observadas nos últimos anos também influenciam. “As mudanças climáticas e as enchentes provocam impactos nos ecossistemas e interferem nos habitats de diversas espécies. Após esses eventos, serpentes, aranhas e escorpiões podem buscar abrigo e alimento em locais mais secos, incluindo diferentes tipos de habitação”, afirma.

Além disso, a expansão urbana sobre áreas de mata e terrenos anteriormente preservados também contribui para o aumento dos encontros entre pessoas e animais peçonhentos. “Novas construções e a retirada da vegetação podem favorecer o deslocamento desses animais para residências próximas e gerar condições para eventuais acidentes”, conclui o pesquisador.

A 2ª Companhia Independente de Polícia de Proteção Ambiental (2ª CIPPAM), através da Patrulha Ambiental da Brigada Militar (PATRAM) informou que neste ano não teve ocorrências de animais peçonhentos por parte da Patrulha. “As mais comuns são no final da primavera e começo do verão. Acontece de encontrarem cobras no interior e matarem. Nós aconselhamos a não fazer isso, e sim acionar a PATRAM”, pontua o 2° Sgt. Ailton Corti.

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