Existe uma mania silenciosa que nos acompanha: a de acreditar que a vida de verdade está sempre acontecendo em outro lugar.
Ela mora na próxima viagem, na próxima promoção, na casa maior, no corpo ideal, na segunda-feira que nunca chega. Enquanto isso, a gente fica espiando pela janela da própria existência, esperando um grande acontecimento que justifique a felicidade. Como se a vida fosse feita apenas de fogos de artifício.
Mas não é.
Outro dia li uma oração que pedia justamente isso: “Deus, me permita enxergar a boniteza dos dias comuns”. E fiquei pensando em como essa talvez seja uma das preces mais difíceis de fazer. Porque fomos educados para celebrar o extraordinário, não o cotidiano.
A foto perfeita vai para as redes sociais. O café da manhã em família passa despercebido.
A viagem rende centenas de registros. O abraço demorado de quem nos espera em casa mal entra para a memória.
A gente comemora a formatura, mas esquece de agradecer pelas manhãs em que alguém acordou cedo para preparar nosso lanche. Celebra o destino, mas ignora a beleza do caminho.
Talvez por isso a felicidade pareça tão escassa. Não porque ela seja rara, mas porque insistimos em procurá-la apenas nos lugares onde ela faz visita. Quando, na verdade, ela mora onde quase nunca olhamos.
Mora na criança que ainda pede colo.
Na conversa sem pressa.
Na gargalhada durante o jantar.
Na mensagem inesperada de um amigo.
No café quente antes que o dia comece.
No cachorro que faz festa quando voltamos.
Na saúde que só lembramos quando falta.
São essas miudezas que sustentam uma vida inteira.
É curioso perceber que, quando atravessamos momentos difíceis, o que sentimos falta nunca é do relógio caro, da roupa nova ou da reunião importante. Sentimos falta do café compartilhado, do cheiro de casa, das pessoas que amamos por perto. Sentimos falta justamente daquilo que, enquanto tínhamos, parecia simples demais para ser notado.
Talvez o milagre não seja viver algo extraordinário. Talvez o milagre seja continuar encontrando beleza no ordinário.
No fim das contas, viver bem talvez seja isso: aprender a fechar um pouco a janela por onde observamos a vida dos outros e abrir a porta da nossa própria casa.
Porque a vida não acontece de vez em quando.
Ela acontece todos os dias.
E quase sempre… do lado de dentro da janela.



