Domingo, 06 de Setembro de 2026

ÚLTIMA HORA

A morte lenta da alma no mundo

Há algo no nosso tempo que me inquieta e que, às vezes, parece uma espécie de morte lenta da alma do mundo. A geração que cresceu entre os anos 80, 90 e o início dos anos 2000 começa a assistir à chegada de um tempo que já não sabe esperar: gente apressada, sentimentos rasos, vidas excessivamente expostas e almas cada vez mais escondidas.

Viemos de uma época em que o valor estava muito mais no caráter, na palavra dada e no jeito de tratar o outro. Hoje, tantas vezes, o valor parece estar na imagem, nos números, nos seguidores, no dinheiro e no quanto se consegue aparecer. Houve um tempo em que não precisávamos provar que estávamos vivendo. A gente simplesmente vivia e isso bastava.

As férias não precisavam acontecer do outro lado do mundo. As conversas não tinham pressa para terminar. Fazíamos filó nas casas uns dos outros, sentávamos na calçada, passávamos tardes inteiras com os amigos e sabíamos que nem todo dia precisava ser feliz. Nos anos 80 e 90, esperávamos a música preferida tocar no rádio para gravá-la numa fita. Nos anos 2000, o MSN podia até anunciar que alguém estava online, mas ainda havia vida suficiente acontecendo longe das telas.

Fotografias eram guardadas em álbuns, não para provar aos outros onde havíamos estado, mas para lembrar, anos depois, com quem estivemos. Vaidade era estar limpo, arrumado, digno. Hoje, tantas vezes, é desejar a admiração de quem sequer nos conhece.

Trocamos histórias por curtidas. O cheiro do café passado pela contagem de calorias e pela leitura do rótulo. Tem gente que sequer come o bolinho de chuva de vó, pelo excesso de doce e fica se martirizando sem aproveitar o alimento como, também, uma forma de afeto. O silêncio da varanda foi trocado pelo barulho das notificações. O abraço pelo emoji. E, sem perceber, talvez tenhamos começado a trocar também um pouco da própria alma. Até nossas casas parecem contar essa história: antes coloridas, floridas, cheias de objetos que carregavam memória; hoje, muitas vezes, perfeitamente cinzas, neutras e iguais. As crianças se vestiam como crianças. Festa de aniversário tinha bolo feito em casa, brigadeiro enrolado pela família, cachorro-quente e balão pendurado com fita. Hoje, algumas festas infantis têm a produção de um casamento. Nunca houve tanta gente se mostrando e tanta gente dizendo sentir-se vazia, ansiosa e perdida. Antes, a felicidade podia ser sentar no muro da esquina, ouvir música, conversar e ver a tarde terminar. Hoje, parece que primeiro precisamos fotografar, publicar, validar e ser vistos. Mas a felicidade verdadeira quase nunca pede plateia.

O passado não era perfeito. Tinha dificuldades, preconceitos, dores e limitações que não merecem saudade. Talvez a saudade seja menos daquele tempo e mais de quem éramos dentro dele: tínhamos menos coisas e mais tempo; menos aparência e mais histórias; menos pressa e mais presença. E então fica a pergunta: em que momento deixamos de viver para começar apenas a aparecer? Talvez ainda seja possível voltar — não aos anos 80 ou 90, porque o tempo não retorna —, mas aos valores que não deveriam ter partido com eles. E quando penso nos nossos filhos, a pergunta se torna ainda maior: o que queremos deixar para a próxima geração? Mais inteligência ou mais dependência? Mais tecnologia ou mais humanidade? Mais brinquedos ou mais histórias? Mais patrimônio ou mais capacidade de enfrentar a vida? Porque, se o maior bem que conseguirmos deixar aos nossos filhos for apenas dinheiro, talvez tenhamos enriquecido nossas contas e empobrecido justamente aquilo que deveria sobreviver a nós: a alma.

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