Quarta-feira, 28 de Outubro de 2026

ÚLTIMA HORA

A engrenagem da ilusão: Por que a educação brasileira decidiu morrer de cansaço?

O mundo padece de uma fadiga crônica. Estamos exaustos economicamente, asfixiados politicamente e desidratados de ética. No centro desse colapso silencioso está a educação, uma engrenagem que, em vez de impulsionar a máquina social, começa a travá-la. No Brasil, esse diagnóstico ganha contornos de tragédia.

Décadas de alternâncias ideológicas provaram que as promessas para a área sempre foram ativos eleitorais, nunca projetos de Estado. O resultado é o esgotamento de diretores, professores, alunos e famílias, configurando a exaustão da comunidade escolar. Mais grave do que a exaustão é a paralisia que ela provoca. Talvez, tenhamos tocado o fundo do poço, mas não temos forças para pegar impulso. Não existem remédios rápidos ou fórmulas mágicas no horizonte. Diante do abismo, a sociedade escolheu o autoengano, empurrando o problema para a próxima gestão, a próxima geração e a próxima família. Pratica-se uma crônica transferência de culpa enquanto o paciente enfrenta a morte cerebral. Nesse cenário, o aluno, única razão de existir do ensino, desconectou-se da tomada institucional. Isolado em bolhas algorítmicas, ele busca respostas rápidas na tela do smartphone, onde confunde conveniência tecnológica com sabedoria, consumindo narrativas distorcidas como verdades. A escola perdeu o monopólio do saber e o sentido para o jovem. A educação brasileira optou por uma eutanásia cultural, uma morte lenta e assistida por todos nós. O que assusta não é o fim do sistema, mas nossa postura à beira desse leito terminal. Preferimos a anestesia do apontar de dedos e a conveniência de virar as costas ao desconforto de assumir nossa parcela de culpa. Afinal, assistir ao funeral da inteligência nacional dá muito menos trabalho do que salvá-la.

Romper essa inércia trágica exige um pacto de coragem coletiva. Não há espaço para a omissão ou para o cinismo de delegar o futuro ao próximo mandato. Somos convocados, pais, professores, gestores, empresários e cidadãos, a sair da posição de espectadores para buscar caminhos que façam a educação se reinventar e retomar a formação de cidadãos. Olhar para o abismo da educação e virar as costas é assinar a certidão de falência da sociedade. Que a exaustão não vire covardia. Ou assumimos a corresponsabilidade por reconstruir essa engrenagem com atitudes concretas em nossas esferas de influência, ou continuaremos cúmplices do sepultamento do futuro de uma geração inteira.

Coluna produzida pelos membros integrantes e participantes da Câmara Técnica de Educação.

Rodrigo Otávio Câmara Monteiro, Simone Taffarel, Adriane Zorzi e Flávia Nunes
Integrantes da CT Educação

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