Historiadora defende planejamento, preservação do patrimônio e valorização dos espaços culturais para atrair moradores e turistas. Proposta de cobertura na região central divide opiniões sobre a melhor localização
O futuro do Centro de Bento Gonçalves passa por uma discussão que vai além da modernização de ruas, praças e estruturas urbanas. Embora a implantação de uma rua coberta ou de uma cobertura na Via del Vino seja apontada como uma possibilidade para ampliar a movimentação na região, a revitalização efetiva depende de medidas que incentivem a permanência das pessoas, fortaleçam o comércio e valorizem a identidade histórica e cultural do município. Entre os desafios estão a falta de opções de lazer, especialmente à noite, a necessidade de melhorias na infraestrutura e a criação de espaços públicos que estimulem a convivência.
A discussão ganha relevância diante das transformações observadas na área central ao longo das últimas décadas. Apesar de concentrar estabelecimentos comerciais, serviços e importantes referências da história de Bento Gonçalves, a região enfrenta dificuldades para manter a circulação de pessoas após o encerramento do expediente comercial. A ausência de atividades permanentes e de ambientes destinados ao lazer é apontada por quem trabalha no local como um dos fatores que contribuem para essa realidade.
Para a historiadora e presidente da Associação Amigos do Museu, Angela Maria Marini, o Centro continua desempenhando um papel importante na vida econômica e na preservação da memória do município. Entretanto, sua utilização passou a estar mais associada às necessidades cotidianas do que aos momentos de lazer e convivência. Na avaliação dela, recuperar essa relação entre a população e os espaços públicos exige intervenções que tornem a região mais acolhedora, segura e convidativa. “Acredito que o Centro de Bento Gonçalves ainda tem uma importância muito grande para a cidade, tanto histórica quanto comercial. Mas, com o passar dos anos, acabou se tornando um lugar que as pessoas frequentam mais por necessidade do que por lazer”, observa.
Entre as melhorias consideradas necessárias, Angela destaca a iluminação, a arborização, a segurança e a ampliação das possibilidades de convivência. A historiadora entende que essas condições são fundamentais para estimular a população a utilizar a região não apenas para realizar compras ou resolver compromissos, mas também para passear, encontrar amigos e aproveitar os espaços urbanos.
Essa perspectiva coloca em discussão o próprio conceito de revitalização. Mais do que modificar a aparência de determinados locais, a proposta envolve recuperar sua funcionalidade e estabelecer novas relações entre os moradores e a cidade. Para isso, as intervenções precisam considerar as características existentes, as necessidades da população e as possibilidades de utilização dos espaços ao longo do ano.
Cobertura no Centro divide opiniões sobre localização
Entre as alternativas discutidas para ampliar a atratividade da região está a implantação de uma estrutura coberta. Uma proposta apresentada pelo Sindilojas prevê a criação de uma rua coberta na Rua Cândido Costa, enquanto outra possibilidade considerada é a instalação de uma cobertura na Via del Vino, espaço onde atualmente está localizada a Casa do Vinho Encanado. O projeto está em discussão junto à Prefeitura de Bento Gonçalves.
A iniciativa é vista como uma oportunidade para oferecer melhores condições à realização de atividades e incentivar a circulação de pessoas, inclusive em períodos de instabilidade climática. Entretanto, a escolha do local e a maneira como a estrutura seria utilizada levantam questionamentos sobre seus impactos na paisagem urbana, na preservação das características históricas e na ocupação cotidiana da região.
Angela considera positiva a existência de iniciativas voltadas à valorização do Centro e reconhece que estruturas cobertas podem representar alternativas interessantes diante das condições climáticas da Serra Gaúcha. Contudo, ressalta que uma intervenção física, isoladamente, não é suficiente para solucionar os desafios enfrentados pela área central. “As estruturas cobertas podem ser alternativas interessantes, especialmente considerando o nosso clima, mas acredito que qualquer intervenção precisa respeitar as características históricas e arquitetônicas desses espaços. Também penso que a revitalização não pode depender apenas de uma obra”, pondera.
A historiadora defende que qualquer projeto esteja inserido em um planejamento mais abrangente, contemplando a acessibilidade, o fortalecimento do comércio, a preservação da identidade local e as formas de utilização dos espaços públicos. Dessa maneira, a instalação de uma cobertura não deve ser analisada somente pela possibilidade de receber eventos, mas também por sua contribuição para o cotidiano da população.
A avaliação encontra diferentes perspectivas entre os comerciantes. Com quase três décadas de atuação no Centro, o empresário Eduardo Belatto considera que a Rua Cândido Costa seria o local mais adequado para receber a estrutura. Segundo ele, a largura da via permitiria a implantação do projeto, enquanto a Via del Vino poderia permanecer aberta e receber intervenções voltadas à valorização das tradições locais. “Eu acho que ficaria bem interessante desde o início, na minha opinião, na Cândido Costa. É uma rua larga, caberia muito bem ali a rua coberta, ficaria excepcional aí, e deixaria a Via del Vino aberta com o chafariz”, afirma.

Belatto também defende o resgate de elementos que, no passado, caracterizavam a Via del Vino, como as pequenas construções inspiradas na arquitetura colonial italiana. Na avaliação do empresário, a recuperação dessas referências poderia contribuir para diferenciar o espaço e ampliar seu potencial turístico, especialmente se acompanhada da oferta de alimentação, bebidas e ambientes de convivência.
Já a comerciante Jane Batista de Arruda, que trabalha com a venda de pipoca e algodão-doce, considera mais adequada a instalação de uma cobertura na própria Via del Vino. Para ela, a estrutura ofereceria melhores condições aos profissionais que utilizam tendas durante as atividades realizadas no local, reduzindo a exposição às mudanças repentinas do tempo. “Uma cobertura também proporcionaria mais segurança para quem trabalha com essas estruturas. Atualmente, com as oscilações do tempo e as condições climáticas, nunca temos segurança”, relata.
Jane menciona que já enfrentou temporais enquanto trabalhava em tendas e considera que uma estrutura permanente poderia proporcionar maior tranquilidade aos comerciantes. A preferência pela Via del Vino também está relacionada ao fato de o espaço já receber instalações temporárias para diferentes atividades.
Patrimônio histórico como instrumento de revitalização
Para Angela, uma das principais oportunidades de fortalecimento do Centro está na valorização da própria história de Bento Gonçalves. A historiadora observa que o desenvolvimento urbano, as atividades comerciais e as edificações antigas constituem elementos importantes da memória municipal, mas que poderiam ser mais explorados para aproximar moradores e visitantes desse patrimônio.
Entre as possibilidades apontadas estão a criação de roteiros culturais e a identificação de prédios históricos, permitindo que a população conheça melhor as transformações ocorridas na cidade e compreenda a importância dos espaços que fazem parte de sua rotina.
A proposta também envolve ampliar a visibilidade das instituições culturais já existentes, que desempenham funções importantes na preservação documental, histórica e cultural. Angela cita o Museu do Imigrante, a Biblioteca Pública Castro Alves e o Arquivo Histórico como equipamentos que precisam ser valorizados e integrados de maneira mais efetiva à vida da comunidade. “Antes de pensar apenas em criar novos atrativos, precisamos também reconhecer e fortalecer aquilo que a cidade já tem”, destaca.
A reflexão amplia o debate sobre os investimentos necessários para revitalizar a região. Na perspectiva da historiadora, preservar a memória local não significa impedir a modernização, mas encontrar maneiras de integrar os elementos históricos às necessidades contemporâneas. Dessa forma, os espaços culturais e as edificações que ajudam a contar a trajetória do município podem contribuir para fortalecer o sentimento de pertencimento e oferecer novas possibilidades de ocupação.
Angela também considera que a valorização da identidade local pode favorecer o turismo, desde que as iniciativas sejam pensadas, inicialmente, para atender à própria população. Para ela, a atratividade turística está relacionada à capacidade de transformar o Centro em um ambiente que os moradores reconheçam, frequentem e valorizem. “Precisamos fazer com que o Centro seja um lugar onde os próprios moradores tenham vontade de estar. O turismo acaba sendo uma consequência dessa valorização da cultura e da identidade local”, ressalta.
Programação cultural e ocupação permanente
A realização de atividades culturais também aparece entre as possibilidades para ampliar a movimentação na região central. Angela considera interessante estabelecer uma programação regular, envolvendo pequenas apresentações artísticas, feiras, exposições e iniciativas que valorizem artistas e produtores locais.
Entretanto, a historiadora chama a atenção para a necessidade de não condicionar a utilização dos espaços públicos exclusivamente à realização de eventos. Na avaliação dela, a vitalidade do Centro também depende de ambientes agradáveis e acessíveis, que possam ser frequentados espontaneamente, independentemente da existência de uma programação organizada. “Mas também penso que não precisamos ter um evento acontecendo o tempo todo. Um espaço público precisa ser agradável por si só, onde as pessoas possam sentar, conversar e aproveitar o ambiente. Essa ocupação espontânea também é muito importante para manter o Centro vivo”, explica.
Essa visão reforça a importância de conciliar atividades culturais com melhorias estruturais e alternativas de lazer disponíveis no cotidiano. A presença de bancos, áreas de descanso, espaços de encontro e estabelecimentos que funcionem em diferentes horários pode contribuir para ampliar o tempo de permanência das pessoas e fortalecer a utilização da região.
Para Angela, as experiências de revitalização mais interessantes são aquelas que conseguem integrar a preservação histórica à vida cotidiana. Por isso, defende que o Centro seja analisado como um conjunto, considerando simultaneamente seus espaços públicos, o comércio, as manifestações culturais e as possibilidades de convivência.
Comércio e lazer precisam caminhar juntos
A necessidade de ampliar as opções de entretenimento é uma das principais reivindicações de quem acompanha diariamente a movimentação do Centro. Eduardo Belatto, que completa 30 anos de atividade comercial na região em novembro, avalia que Bento Gonçalves manteve a força de seu comércio, mas perdeu alternativas de lazer que anteriormente estimulavam a presença da população.
O empresário recorda o período em que os cinemas Cine Aliança e Cine Marco Polo funcionavam na área central, contribuindo para a movimentação das ruas e para os encontros entre moradores. Segundo ele, a redução dessas opções modificou a relação da população com a região, especialmente no período noturno. “O nosso comércio é forte, atuante, bem variado, porém, no sentido de lazer, nós perdemos muito”, lamenta.
Entre as melhorias defendidas por Belatto estão a ampliação da oferta de restaurantes, lanchonetes, sorveterias e estabelecimentos que permitam a utilização das calçadas com mesas e cadeiras. O empresário considera que essas alternativas poderiam estimular a circulação de famílias e grupos de amigos, inclusive após o fechamento das lojas.
Outro ponto destacado é a necessidade de investimentos em segurança e infraestrutura. Belatto manifesta preocupação com a iluminação das ruas e praças, a presença de policiamento, a disponibilidade de bancos e a ausência de banheiros públicos, fatores que, na avaliação dele, dificultam a permanência das pessoas no Centro.
Para o comerciante, uma eventual rua coberta deveria estar acompanhada dessas melhorias, além de opções de alimentação, música e atividades de lazer. A proposta, segundo ele, precisa permitir que moradores e visitantes aproveitem o espaço também à noite e nos finais de semana.

Jane Batista de Arruda compartilha da avaliação de que a região necessita de mais alternativas de entretenimento. A comerciante considera que bares, choperias e atividades voltadas às famílias poderiam contribuir para ampliar a movimentação, especialmente fora do horário comercial.
A experiência com a venda de pipoca e algodão-doce, segundo ela, demonstra a procura por atrações acessíveis ao público infantil. Jane relata que frequentemente recebe questionamentos sobre a possibilidade de manter sua atividade de maneira permanente no Centro. “Muitas pessoas perguntam se vou ficar sempre e por que não mantenho meu atendimento de forma permanente”, conta.
A comerciante afirma que gostaria de contar com um espaço fixo para trabalhar e considera que a ampliação das atividades voltadas às crianças poderia estimular a presença das famílias. Também observa que os turistas procuram opções de lazer na região central, o que reforça, em sua avaliação, a necessidade de diversificar os atrativos oferecidos pelo município.
Para Belatto, o futuro da região deve conciliar modernização e preservação das tradições que caracterizam Bento Gonçalves. O empresário defende um Centro que mantenha sua importância comercial, mas que também ofereça condições para a população aproveitar os espaços públicos durante o dia e parte da noite.
Jane, por sua vez, espera que a região volte a registrar maior circulação de moradores e turistas, com alternativas de entretenimento capazes de atender diferentes públicos.
Na perspectiva de Angela, alcançar esse objetivo exige compreender a revitalização como um processo integrado, no qual as intervenções urbanas estejam associadas à valorização da cultura, da memória e das relações sociais. A historiadora considera que a preservação histórica e a modernização não precisam representar caminhos opostos, desde que as mudanças respeitem as características da cidade e contribuam para melhorar a experiência de quem utiliza seus espaços.




