Dados apresentados pelo Ministério do Trabalho e Emprego durante encontro na Cooperativa Vinícola Aurora apontam 10,6 mil admissões na colheita da uva. Fiscalizações no Estado também identificaram irregularidades e resultaram na formalização de 91 trabalhadores
A contratação de trabalhadores para a safra da uva na Serra Gaúcha registrou crescimento em 2026, alcançando 10.614 admissões, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), apresentados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O número representa um aumento de 4% em relação a 2025, quando foram contabilizadas 10.207 contratações. Apesar do avanço na formalização dos vínculos trabalhistas nos últimos anos, as ações de fiscalização ainda identificam irregularidades relacionadas ao registro de empregados e ao cumprimento da legislação.

Os resultados foram apresentados durante o IV Encontro de Alinhamento Trabalhista da Safra da Uva, realizado na terça-feira, 27 de outubro, na Cooperativa Vinícola Aurora, em Bento Gonçalves. A iniciativa reuniu representantes de empresas, organizações do setor vitícola, produtores rurais e profissionais do Ministério do Trabalho e Emprego para discutir os procedimentos necessários à contratação de mão de obra durante a vindima.
Entre os participantes estiveram o chefe da Seção de Fiscalização do Trabalho da Superintendência Regional do Trabalho no Rio Grande do Sul (SRTE/RS), Gerson Soares Pinto, e o coordenador regional da Atividade de Fiscalização Rural, Rafael Zan, responsável pela apresentação dos indicadores de contratação e dos resultados das operações fiscais na viticultura.
Os números demonstram uma mudança significativa no volume de admissões desde 2022, quando foram registrados 2.100 vínculos de trabalho relacionados à colheita da uva nos municípios analisados. Em 2023, o total chegou a 2.720, avançando para 9.485 em 2024 e ultrapassando a marca de 10 mil contratações no ano seguinte. Em comparação com 2022, o resultado de 2026 representa um crescimento superior a 400%.
A maior parte desse avanço ocorreu entre produtores rurais e pessoas físicas, cujas contratações são vinculadas ao Cadastro de Atividade Econômica da Pessoa Física (CAEPF). Em 2026, essa modalidade respondeu por 9.109 admissões, equivalentes a 85,8% do total. Outras 1.505 contratações foram realizadas por empregadores registrados como pessoas jurídicas, por meio do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ).
Embora os produtores pessoas físicas continuem responsáveis pela maior parcela dos vínculos, os dados revelam uma mudança na distribuição das contratações. Entre 2025 e 2026, as admissões vinculadas ao CAEPF diminuíram 2,4%, passando de 9.329 para 9.109. No mesmo período, os registros associados a CNPJs aumentaram 71,4%, saindo de 878 para 1.505 trabalhadores.
O levantamento também apresenta uma ressalva quanto à identificação de trabalhadores contratados por empresas terceirizadas. Como a extração dos dados considera a atividade econômica do empregador e a ocupação declarada do funcionário, parte dos vínculos pode não estar contemplada nas estatísticas quando as empresas utilizam classificações diferentes das atividades rurais.
Bento Gonçalves registra aumento nas admissões
A distribuição das contratações demonstra a concentração da mão de obra em municípios com forte participação na produção vitícola. Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Flores da Cunha reuniram 5.829 admissões em 2026, correspondentes a 54,9% dos registros contabilizados no levantamento.
Caxias do Sul apresentou o maior volume, com 2.504 contratações, seguida por Bento Gonçalves, com 1.930, e Flores da Cunha, com 1.395. Os demais municípios analisados somaram 4.785 admissões.
Em Bento Gonçalves, o número de trabalhadores contratados passou de 1.720 em 2025 para 1.930 em 2026, um acréscimo de 210 vínculos, equivalente a aproximadamente 12,2%. O resultado também supera as 1.786 admissões registradas em 2024.
Entre os municípios que apresentaram crescimento, destacam-se ainda Caxias do Sul, com 264 contratações adicionais, e Nova Pádua, com aumento de 193 registros. Por outro lado, Flores da Cunha contabilizou uma redução de 246 admissões, enquanto Ipê apresentou queda de 41 e São Marcos, de 32.
As diferenças entre os municípios evidenciam que, embora o volume regional de contratações tenha aumentado, o comportamento das admissões não foi uniforme em todas as localidades acompanhadas pelo Ministério.
Fiscalizações alcançam 716 trabalhadores no Estado
Além dos indicadores de contratação, o encontro apresentou os resultados das fiscalizações realizadas na produção de uva no Rio Grande do Sul em 2026. Conforme o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as operações alcançaram 716 trabalhadores e resultaram em 69 relatórios de fiscalização, dos quais 59 apontaram irregularidades. Ao todo, foram lavrados 71 autos de infração por descumprimento da legislação trabalhista.
As ações também resultaram na formalização de 91 trabalhadores, com o registro de seus contratos de trabalho, enquanto os autos de infração contabilizaram 119 empregados com irregularidades no registro do vínculo empregatício. Outro resultado foi o afastamento de duas crianças e/ou adolescentes do trabalho. Os números consideram fiscalizações concluídas nas áreas de legislação trabalhista e de saúde e segurança do trabalho.
Durante a apresentação, o coordenador regional da Atividade de Fiscalização Rural, Rafael Zan, alertou sobre os riscos da contratação por intermédio de empreiteiros sem empresa formalizada e destacou a necessidade de registrar corretamente a data efetiva de admissão dos empregados. “Destaco como fundamental a importância do registro adequado dos vínculos empregatícios como medida para a conformidade trabalhista”, ressalta.
Orientações para a próxima safra
A quarta edição do encontro também abriu espaço para esclarecimentos sobre procedimentos que devem ser observados pelos produtores e pelas empresas na organização das próximas contratações. Entre os assuntos discutidos estiveram a documentação obrigatória, a regularização migratória e trabalhista dos empregados e a validade dos exames ocupacionais.
O chefe da Seção de Fiscalização do Trabalho, Gerson Soares Pinto, abordou questões relacionadas à Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), especialmente os fatores de risco psicossociais no ambiente profissional. Também foram mencionadas as discussões sobre a escala de trabalho 5×2 e a necessidade de acompanhar possíveis mudanças regulatórias.
Pinto ressaltou os avanços observados nas relações trabalhistas da região e a importância de manter canais de comunicação entre os órgãos fiscalizadores e os representantes do setor produtivo. “O trabalho desenvolvido na região nos últimos anos contribuiu para avanços nas relações trabalhistas. Estamos sempre à disposição para orientar o setor diante de dúvidas e desafios relacionados à legislação”, pontua.
Para o gerente agrícola da Cooperativa Vinícola Aurora, Mauricio Bonafé, a continuidade dos encontros demonstra o amadurecimento das discussões sobre as obrigações trabalhistas na viticultura. Segundo ele, o diálogo entre produtores, empresas e órgãos de fiscalização tem contribuído para aprimorar as práticas adotadas durante as safras. “Aprendemos muito nos últimos anos e evoluímos bastante. Esse é um trabalho de todos, que precisa ser feito da forma mais assertiva possível. Ninguém faz nada sozinho. No grupo, percebe-se uma maturidade construída ao longo dos últimos anos. As dúvidas já não são mais básicas, mas envolvem questões mais amplas, que realmente precisam ser discutidas”, conclui.




