Quando somos crianças, a vida parece perfeita. Todos os parentes estão ao redor da mesa, os primos vão nascendo, as brincadeiras parecem não ter fim e todos estão ali, saudáveis, presentes, como se fossem eternos. As avós ainda cozinham nossas comidas preferidas, fazem presentes de crochê e preparam aquela sobremesa que ninguém mais consegue fazer igual. O pai nos leva para passear, jogar bola, andar de bicicleta. E a gente, sem saber, está vivendo alguns dos dias mais felizes da vida.
Na infância, ninguém nos avisa que um dia aquela mesa terá cadeiras vazias.
O tempo passa e, aos poucos, começam a faltar pessoas, vozes, risadas, cheiros e sabores. Os Natais já não têm a mesma quantidade de cadeiras. Algumas receitas desaparecem com quem sabia prepará-las. A velhice chega e, algumas vezes, traz limitações e doenças, e descobrimos que, por mais que saibamos que a morte faz parte da vida, nunca estamos verdadeiramente preparados para perder quem amamos.
Mas existe uma dor que considero ainda mais triste: a morte em vida. Pessoas que continuam aqui, mas deixaram de se falar, de se olhar, de se perdoar. Famílias que se afastam por orgulho, por diferenças políticas, por ressentimentos que, diante da brevidade da vida, parecem tão pequenos. É triste pensar que há quem espere a morte para levar flores, quando poderia oferecer um abraço enquanto ainda há tempo.
Recentemente, perdi várias pessoas muito amadas. A saudade ainda arde, mas encontro consolo na certeza de que vivemos tudo o que podíamos ter vivido. Houve amor, risadas, presença, lealdade e, sobretudo, nenhum remorso pelo carinho que deixamos de demonstrar.
E, mesmo com tantas ausências, reconheço o privilégio de ainda estar naquela janela preciosa da vida em que tenho mãe e filhos por perto, sogros, tios e tios-avós que ainda falam italiano conosco, contam histórias da juventude e nos ensinam sobre um tempo que já não volta. Sei que essa janela não ficará aberta para sempre. Talvez por isso eu queira tanto aproveitar a paisagem enquanto ainda posso.
Desde cedo, pelas perdas que enfrentei, a morte me ensinou algo que a própria vida, muitas vezes, demora a ensinar: a importância de estar presente. Aprendi que ninguém parte completamente enquanto continuar vivendo nas nossas lembranças, nos nossos gestos, nas receitas que repetimos, nas expressões que herdamos e nas histórias que contamos. Talvez a morte leve a presença física, mas jamais aquilo que alguém plantou dentro de nós.
Por isso, visite mais, abrace mais, perdoe enquanto há tempo. Sente-se à mesa, escute as histórias repetidas, tire fotografias, aprenda aquela receita, valorize quem ainda chama pelo seu nome.
Que a morte nos encontre vivos. Que ela aconteça apenas no dia da partida, e não em todos os dias em que deixamos de viver por orgulho, pressa ou indiferença.
Porque viver é muito diferente de apenas estar vivo.
Reze pelos que partiram, mas, principalmente, ame e valorize os que ainda estão aqui. Um dia, tudo o que teremos deles será saudade. E que seja uma saudade bonita, dessas que doem pela ausência, mas aquecem pela certeza de que o amor foi vivido por inteiro.





