Sexta-feira, 02 de Outubro de 2026

ÚLTIMA HORA

Quando o rio deixa de ser paisagem: o que mudou na Linha Alcântara, em Bento Gonçalves, após 2024

Localizada no distrito de Faria Lemos, em Bento Gonçalves, a Linha Alcântara tinha moradores permanentes e famílias que mantinham casas de veraneio às margens do Rio das Antas. A relação com o rio fazia parte da rotina da comunidade, mas, segundo os entrevistados pela reportagem, o cenário mudou após as fortes chuvas de 2024. Desde então, os moradores passaram a manter atenção constante ao nível do rio e às condições do terreno, além de reforçarem o contato entre si diante de novos períodos de chuva.

Uma comunidade diferente

Para Alexandre Faccin, representante da comunidade da Linha Alcântara, a principal mudança foi a sensação de segurança. Se antes as enchentes eram o principal motivo de preocupação, agora, moradores passaram a lidar também com os desmoronamentos. A combinação dos riscos mudou a maneira como as pessoas ocupam a localidade e também nas decisões de quem possuía imóveis na região. “Os prejuízos foram enormes. Algumas famílias deixaram realmente a localidade, umas até por uma questão de monitoramento e de risco, outras por não ter mais aquela confiança em estar lá”, explica.

A mudança também afetou a própria dinâmica comunitária. Com menos pessoas frequentando ou permanecendo na Linha Alcântara, Faccin afirma que parte da convivência existente anteriormente acabou se enfraquecendo. Ao mesmo tempo, a necessidade de enfrentar situações de emergência aproximou novamente os vizinhos.

Medo da chuva

De acordo com ele, períodos de chuva passaram a ser acompanhados com ansiedade. A comunidade utiliza grupos de WhatsApp para trocar informações e acompanhar as condições da região. Quando há necessidade de retirar móveis ou acolher famílias, os próprios moradores se organizam. “A própria comunidade da Linha Alcântara é muito participativa, então acaba abrindo salão quando tem a necessidade de acolher alguma família ou os móveis, caso precise ser removido”, afirma.

A Defesa Civil, além de estar mais frequente na comunidade, também recebe informações técnicas relacionadas à elevação do rio. Ele relata que a Companhia Energética Rio das Antas (Ceran) passou a participar de algumas dessas comunicações, fornecendo informações sobre o comportamento do nível da água para auxiliar na tomada de decisões.

Questões como infraestrutura e utilização de máquinas para intervenções necessárias dependem do poder público municipal, estadual e federal, segundo Faccin. 

Outro problema apontado é a comunicação. Conforme Faccin, o sinal de celular não funciona adequadamente na região e muitos moradores dependem do Wi-Fi. “Quando falta a luz, eles já não têm mais comunicação e aí se cria toda uma ansiedade para saber o que está acontecendo”, relata.

A questão das barragens

Faccin afirma que moradores atribuem às barragens da Ceran mudanças no comportamento do rio. Segundo ele, a empresa afirma cumprir as exigências previstas em lei, mas a comunidade ainda busca respostas. Em reuniões com órgãos públicos e representantes técnicos da companhia, os moradores receberam explicações sobre a situação. “Eles vieram com uma parte técnica, explicaram bastante, mas não na linguagem dos moradores, que saíram de lá mais confusos do que quando chegaram”, conta.

Entre as reivindicações da comunidade está a revisão dos estudos sobre a segurança das barragens e das áreas de risco, incluindo a chamada “mancha da água”, que indica as áreas que podem ser atingidas pela elevação do rio. Segundo Faccin, em algumas das últimas enchentes, o ponto considerado seguro para fuga ficou sob a água. “Se as pessoas tivessem usado esse ponto de fuga, elas teriam morrido afogadas. Isso significa que estamos vivendo um novo tempo”, afirma.

A comunidade defende novos estudos com participação dos órgãos responsáveis pelos rios, da empresa e do poder público.

Acesso interrompido

Os problemas de acesso à região também aumentam a sensação de isolamento, segundo Faccin. Ele cita a interrupção da ponte Santa Bárbara, entre Santa Tereza e São Valentim do Sul, os problemas na ERS-431 e a ligação com Cotiporã, afetada pelas últimas chuvas. “Vai criando toda uma sensação de abandono, de não pertencimento. Parece que muitas vezes aquelas pessoas não fazem parte de uma comunidade maior”, afirma.

Para Faccin, a presença do poder público é necessária para dar mais segurança aos moradores e possibilitar, eventualmente, o retorno de quem deixou a localidade. “A natureza tem demonstrado sua força, então acredito que em certas áreas as pessoas jamais vão voltar. Mas a Alcântara é uma comunidade grande e tem força”, afirma.

Desde 1972

Roque Comin tem uma relação de longa data com a Linha Alcântara (Foto: Jornal Semanário)

O empresário Roque Comin acompanha as transformações na localidade desde 1972, quando seu pai comprou um terreno às margens do Rio das Antas. Na época, ele tinha cerca de 12 anos.

Comin lembra que o pai trabalhava como pedreiro e, nas sextas-feiras, saía mais cedo do serviço para pegar um ônibus até a Linha Alcântara. Como não havia estrada, água, luz ou telefone no local, pai e filho passavam o fim de semana acampados na propriedade.

A infraestrutura da localidade foi sendo construída gradualmente pelos próprios moradores. Primeiro veio a rede de energia elétrica, depois o asfalto, o telefone e a rede de água. O que começou como uma área isolada passou a receber mais moradores e estruturas ao longo dos anos.

Comin, que manteve a propriedade durante todo esse período, também guarda na memória uma época em que o comportamento do rio era diferente. Segundo ele, uma antiga moradora da região havia indicado ao pai uma área que nunca havia sido atingida pela água. A casa foi construída nesse ponto.

O rio mudou

As lembranças do morador contrastam com a situação enfrentada atualmente. Ele afirma que, em uma enchente em 2001, a água chegou a cerca de um metro e meio abaixo da casa. Em 2024, porém, a propriedade foi atingida de uma maneira muito diferente. “A minha casa é de dois andares, tem um sótão em cima, e a água passou por cima do telhado”, relata.

Comin atribui parte das mudanças que observa na região à construção das hidrelétricas e às alterações provocadas no Rio das Antas. Ele afirma que alguns moradores foram contrários à construção das barragens e questiona a forma como a operação dos reservatórios é realizada durante períodos de chuva intensa.

Para ele, o planejamento da operação dos reservatórios deveria considerar as previsões de chuva e a necessidade de manter espaço para receber grandes volumes de água. “Hoje em dia, com a tecnologia que tem, já sabe com alguns dias de antecedência, quando e quanto vai chover. Esvazia isso aqui. Se não vai segurar toda a água que cai de cima, pelo menos uma boa parte vai segurar”, afirma.

Perdas

A casa de Comin permaneceu de pé, mas o imóvel foi atingido pelas enchentes. Segundo ele, em duas ocorrências recentes em um intervalo de oito meses, perdeu móveis e eletrodomésticos, entre eles geladeira, fogão e sofá. A estrutura também precisou de reparos.

Para Roque, a ausência de respostas após os eventos climáticos é uma das principais questões enfrentadas pela comunidade. Ele afirma que participou das audiências públicas realizadas na região, mas considera que as reuniões não resultaram nas soluções esperadas pelos moradores. “Eu fui em todas elas que me convidaram, mas não tem explicação para isso. Morreu gente, tem famílias que perderam tudo, casa, carro, tudo. E as autoridades não estão aí para isso”, afirma.

Entre os benefícios que, segundo ele, deveriam chegar aos afetados, Comin afirma não ter recebido valores referentes aos danos sofridos. A avaliação dele é de que a própria comunidade acabou assumindo parte da assistência às famílias atingidas.

Ajuda entre vizinhos

Entre os benefícios que, segundo ele, deveriam chegar aos afetados, Comin afirma não ter recebido valores referentes aos danos sofridos. A avaliação dele é de que a própria comunidade acabou assumindo parte da assistência às famílias atingidas. “É a comunidade que se ajuda. A ajuda externa não tem, é só a comunidade. Mas a gente também é pequenininho, não tem o poder que têm as autoridades”, afirma.

A ideia defendida pelo entrevistado é utilizar também meios de comunicação por rádio ou celular para alertas de emergência. Ele afirma que já recebeu alertas da Defesa Civil pelo telefone e considera que esse tipo de comunicação poderia ser ampliado entre os moradores da região.

As dificuldades se somam aos problemas de acesso. Com a interrupção de estruturas viárias após as chuvas, os deslocamentos ficaram ainda mais complicados para quem vive ou mantém propriedades na Linha Alcântara.

Para Comin, a principal mudança não está apenas nas condições físicas da localidade, mas na relação dos moradores com o lugar que durante décadas foi associado à tranquilidade.

O imóvel dele está alugado até o próximo ano, mas Comin ainda não sabe o que fará depois desse período.

Sem saber o futuro

Delvino Rinaldi perdeu um imóvel de veraneio na Linha Alcântara (Foto: Jornal Semanário)

A história do empresário Delvino Rinaldi é marcada pela perda de uma propriedade utilizada como casa de veraneio. O imóvel fazia parte da família havia mais de 50 anos e nunca havia sido atingido pela água como ocorreu nos últimos anos.

Hoje, a propriedade permanece na região, mas Rinaldi afirma que não pode vendê-la ou construir novamente no local. Ele entrou na Justiça contra a Ceran e aguarda o andamento do processo.

Ao relembrar como eram as enchentes antes da instalação da usina, Rinaldi descreve um comportamento diferente do rio. Segundo ele, a água costumava subir e baixar de maneira mais lenta. Na sua percepção, mesmo quando havia enchentes, o nível não chegava rapidamente à propriedade. “Há mais de 50 anos nunca veio água na casa. Enchente demorava três, quatro dias. A água vinha subindo, vinha subindo. Agora não. Dentro de uma hora, uma hora e meia, o rio está na metade do terreno”, afirma.

Rinaldi atribui essa mudança à operação da barragem e relata que, em sua avaliação, a abertura das comportas interfere no volume de água que chega à região. Ele também afirma ter observado diferenças na quantidade de barro e materiais deixados no terreno após as cheias.

Segundo ele, antes havia uma camada de lodo que permanecia no local enquanto a água recuava. Atualmente, relata que encontra maior quantidade de barro e materiais carregados pela força da água.

Uma propriedade parada

A impossibilidade de decidir o futuro do imóvel é uma das consequências que Delvino enfrenta atualmente. A propriedade continua em seu nome, mas não pode ser utilizada da mesma maneira que antes.

A situação também interfere na possibilidade de reconstrução. Depois dos danos, o proprietário afirma que não pretende simplesmente voltar a construir sem saber se haverá segurança para manter novamente uma estrutura no lo

O que a Ceran diz

UHE 14 de Julho teve rompimento parcial em maio de 2024 e foi recuperada em 2025 (Foto: Divulgação)

Procurada pela reportagem, a Ceran afirma que as barragens do Complexo Energético Rio das Antas são do tipo “fio d’água”. Segundo a empresa, esse modelo não possui capacidade de reter ou armazenar as vazões que chegam às usinas e, portanto, não reduz o volume de água que vem pelo rio durante períodos de alta vazão. A companhia também afirma que as comportas das usinas 14 de Julho e Monte Claro complementam a passagem da água pelo vertedouro e têm como função manter a estabilidade das estruturas.

Segundo a Companhia, para acompanhar as condições do rio a Ceran usa 12 estações telemétricas distribuídas ao longo do rio, que registram dados de vazão e precipitação. As informações são integradas a um sistema público da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), enquanto os dados de vazão das usinas são atualizados de hora em hora.

Segurança

A Ceran afirma que as três usinas passam por inspeções semanais realizadas pelas equipes técnicas e por avaliações semestrais de engenheiros especializados. As estruturas também contam com mais de cem instrumentos de monitoramento instalados desde a construção, destinados a identificar possíveis anomalias.

A UHE 14 de Julho sofreu o rompimento parcial da barragem em 2 de maio de 2024, durante as fortes chuvas que atingiram o Estado. Segundo a empresa, a cota operacional da barragem foi recuperada em dezembro daquele ano e as obras foram concluídas em março de 2025. A Casa de Força da UHE Monte Claro, que também foi inundada durante as cheias, passou por recuperação e voltou a operar.

Desde então, a Ceran informa ter atualizado o Plano de Ação de Emergência (PAE) e iniciado obras preventivas na UHE Castro Alves.

Ponto de fuga

A definição das áreas de risco ainda é questionada pelos moradores. Faccin defende uma nova avaliação da chamada “mancha da água” e dos locais indicados para fuga. Segundo ele, durante uma das últimas enchentes, o ponto considerado seguro chegou a ficar submerso. “Se as pessoas tivessem usado esse ponto de fuga, elas teriam morrido afogadas. Isso significa que estamos vivendo um novo tempo”, afirma.

Questionada especificamente sobre a revisão da “mancha da água” e dos pontos de fuga, a Ceran informou que atualizou o PAE. A empresa não detalhou, na resposta encaminhada ao Semanário, se houve alteração específica nessas áreas.

Chuvas recentes

Sobre a chuva registrada na semana passada, a Ceran informou que as barragens apresentaram desempenho adequado e seguro e que as inspeções e o monitoramento não identificaram anomalias. A empresa, no entanto, manteve as estruturas em estado de atenção de forma preventiva, devido a registros de vazões elevadas em pequenas usinas localizadas a montante.

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